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Vera Iaconelli  Foto: Vans Bumbeers / Velvet

A sociedade no divã de Vera Iaconelli: “Está muito difícil para as pessoas conviverem, viverem os atritos da relação, sentarem para conversar, ficarem no silêncio e ouvirem o contraditório e o mal-estar da presença do outro”

Com livros aclamados, prática clínica e voz no debate público, sua escrita ganha dimensão terapêutica coletiva

Imagem: Vans Bumbeers / Velvet
  • Matheus Pichonelli
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20 jul 2026 - 04h58
(atualizado às 08h13)

"Oi, como você se chama? E o que você faz?" É assim que a psicanalista Vera Iaconelli tenta estabelecer diálogo com fãs que a abordam em uma exposição de arte, por exemplo, pedindo uma selfie. “Se não houver um diálogo do tipo, me sinto caçada como um Pokémon, uma mera imagem que acaba de ser reconhecida e precisa ser capturada”, ela descreve. A abordagem dos fãs é, por um lado, sinal de reconhecimento do trabalho por uma plateia cada vez mais ampla com a qual ela se comunica em sua coluna na Folha de S.Paulo, em podcasts, palestras, livros e entrevistas que viralizam em cortes para as redes sociais.

Por outro lado, o fetiche pela imagem da figura pública é sintoma, segundo ela, da era da mídia, que distorce, transforma, potencializa, mercantiliza e monetiza tudo. É o conceito de “interação parassocial”, um tipo de relação em que as pessoas passam a considerar personalidades como astros de cinema e influenciadores, seus amigos. Não por acaso, “parassocial” foi eleita a palavra do ano em 2025 pelo dicionário de Cambridge.

As pessoas estão se evitando mais. É bom ir para a rua, encontrar as pessoas, mas estamos falando de um lugar mediado por experiências que não são exatamente de intimidade.

O assédio é decorrente de uma popularização da psicanálise, tema que virou hit na era digital, embora não seja exatamente uma novidade. Há quase um século, autoridades como Donald Winnicott, com seu programa de rádio na BBC de Londres, nos anos 1940, e Jacques Lacan, presença constante na televisão francesa nos anos 1960 e 1970, tinham seu lugar midiático. Mas em tempos em que todo mundo pode dizer o que pensa no portão alargado das redes, a fronteira entre psicologia, autoajuda e discurso motivacional ficou borrada. O psicanalista ganhou, assim, uma carga maior, e passou a ser visto como selo de profundidade no discurso sobre a subjetividade.

Essa é uma das missões públicas de Vera desde 2017, quando foi convidada a escrever a coluna na Folha de S.Paulo. A ideia era falar sobre feminismo e parentalidade, temas de suas pesquisas para o doutorado na USP, defendido quatro anos antes. Desde então, muita coisa aconteceu — no Brasil e no mundo. E quem foi para o divã foi o próprio país. Temas como os sofrimentos causados pela pandemia, por exemplo, se tornaram recorrentes na clínica, assim como assuntos de família, instituição fraturada por discordâncias de todo tipo, que incluem acreditar ou não na ciência.

Vera Iaconelli
Vera Iaconelli
Foto: Vans Bumbeers / Velvet

O que acontece no mundo e no indivíduo

Um dos pontos que tem observado nesses anos em que faz a coluna — e umas das consequências do isolamento pandêmico — foi a urgência dos encontros presenciais, como se nota no sucesso das temporadas de shows, como de Lady Gaga em Copacabana. Artistas consagrados têm arrastado multidões em arenas mundo afora.

A explosão é mais ou menos parecida com o que aconteceu ao fim da epidemia da gripe espanhola, que assombrou o planeta no início dos anos 1920. Foi nessa época, aliás, que Sigmund Freud escreveu algumas de suas obras fundamentais. Na atualidade, os contextos são correlatos, com guerras, crises econômicas, violência e polarização política. “A diferença é que na época não havia internet, o que deixa as pessoas hoje com um pé em cada canoa, entre o desejo de viver sem confinamento e a segurança das relações criadas dentro de uma tela e as respectivas bolhas”, explica. Vera sente essa gana por eventos presenciais até nos convites para palestras. De um tempo pra cá, ela passou a ser chamada para falar em grandes arenas, como o teatro, onde as pessoas voltaram a se reunir.

Ainda assim, garante que estar na multidão não resolveu um dos grandes males deste século, a solidão. “Está muito difícil para as pessoas conviverem, viverem os atritos da relação, sentarem para conversar, ficarem no silêncio e ouvirem o contraditório e o mal-estar da presença do outro”, analisa. O processo que ela denomina de “achatamento da subjetividade na nossa época” é potencializado pela tecnologia, que hoje permite a busca de interação e até a procura por respostas para tomadas de decisões pessoais, como uma separação, por meio das plataformas de Inteligência Artificial. “A dificuldade em enfrentar o contraditório leva as pessoas a procurarem uma IA que nunca vai falar o que pensa para elas. Vai só bajular. Com isso, perdemos várias capacidades. Deixamos de pensar e terceirizamos essa função”, ela diz.

Vera Iaconelli
Vera Iaconelli
Foto: Vans Bumbeers / Velvet

A felicidade ordinária

Reflexões como essa, sobre a interação com a tecnologia, e outras marcas do período pandêmico e pós-pandêmico, foram reunidas e publicadas, em 2024, no livro “Felicidade Ordinária”, uma coletânea de colunas publicadas no jornal ao longo de oito anos. A obra rendeu a ela o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira. O fio que conecta os artigos é a contestação da busca por um platô de felicidade plena, que ela considera um delírio causador de sofrimento. O resultado é uma das sociedades mais depressivas da história.

A chave para entender essa contradição é que a busca por momentos de plenitude impede a vivência do que Freud chama de “felicidade ordinária”. E também bloqueia as pequenas infelicidades que impedem as pessoas de serem alegres o tempo todo. Essa busca, diz a escritora, é tão frustrante quanto angustiante, justamente porque é inacessível. “A gente sabe que vai morrer, que perderemos as pessoas que mais amamos, que envelhecemos, que há guerras no mundo inteiro... Não estamos separados de um mundo onde tem outras pessoas sofrendo”, diz.

“Quem pensa é a máquina, que produz respostas imediatas e não dá tempo para intervalo. Se a gente quiser ser uma geração menos inteligente, tudo bem, mas eu acho uma perda considerável.

As lentes de aumento das redes sociais ainda turbinam a visão de felicidade. “O padrão de beleza é inalcançável para as mulheres. E a função é essa mesmo, ser inalcançável. Para que as mulheres sempre sintam que elas não são suficientemente bonitas e consumam mais produtos. As pessoas são perseguidas por uma insatisfação produzida pelo mercado.” As redes, neste sentido, servem para produzir comparações constantes entre usuários. E tudo se converte em performance — sexual, em família, com os amigos ou na profissão —, o que resume bem os dramas do mundo contemporâneo.

O reflexo do espelho nas redes esbarra até mesmo nos papéis dos pais, compelidos a fazer e dar tudo aos filhos para que eles também performem na vida adulta. O resultado é uma legião de adultos “sobrecarregados, totalmente desorientados”, sem um pingo de espontaneidade no trato com os filhos e igualmente perseguidos pelo ideal de alto desempenho. Ela, então, questiona: se hoje as famílias giram em torno das agendas, atividades e festas infantis, como é que fica o casal? “Aí a criança vai embora, se é que vai, e os pais percebem que não sobrou nada de conjugalidade porque aquilo não foi priorizado. A tarefa de ser pai e mãe tomou toda a frente”, ela alerta.

Até o descanso tem medidor de produtividade: “Você tem que sair de férias para um lugar superlegal, fazer um monte de fotos e todo mundo precisa achar que você tirou férias maravilhosas. Temos que ser 100% em tudo e não conseguimos. Aí entramos em colapso.” A grama dos stories do vizinho, afinal, é tão verde que ninguém consegue mais ficar satisfeito com o que tem nem onde está.

O sossego de ficar em casa

Aos 60 anos, Vera tem uma rotina intensa. Ela começa a elaborar a coluna aos domingos, na sala ampla de uma casa na Zona Oeste paulistana, forrada de obras produzidas por artistas brasileiros, como Marina Quintanilha. Enquanto escreve, o marido, um cozinheiro de mão cheia, prepara o que ela chama de “café da manhã continental”. A sala é uma continuação da cozinha, onde ela jura que nunca coloca o pé, “a não ser para fazer um café e olhe lá”. Escrever é um momento de higiene mental, quando ela transforma toda a raiva absorvida diante do noticiário da semana em reflexão. Assunto não falta. Nem sintomas.

Afirma gostar muito de receber amigos, assistir a séries e colocar as leituras em dia. “Leio todo tempo que dá. Por isso minha casa tem tantos móveis ‘sentáveis’. Qualquer brecha, estou lendo”. Quando recebeu Velvet para esta entrevista, conciliava as aulas de inglês e espanhol com a leitura de livros como “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, e “Pitangas Verdes”, de Mariana Lobato Botter. Ela tinha acabado de ler a biografia, escrita pelo jornalista Uirá Machado, de Henrique Mecking, o Mequinho, considerado o “Pelé do xadrez”, e do qual saiu admirada. Livros de Freud e Lacan também são sempre revisitados.

Vera Iaconelli
Vera Iaconelli
Foto: Vans Bumbeers / Velvet

Quando não está em casa, lendo ou escrevendo, vai ao cinema, ao teatro ou à ópera, que diz adorar. Ela concilia as atividades com os atendimentos na clínica, a supervisão das aulas no Instituto Gerar de Psicanálise, a gravação dos podcasts e os textos da newsletter “Nem Toda Mulher”, escritos em coautoria com a amiga e jornalista Carol Pires.

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Vera prepara também o lançamento de um clube do livro com a escritora Andréa del Fuego. “Eu vou cooptando meus amigos para trabalharmos e ficarmos juntinhos. É uma delícia”, brinca ela, que leva os encontros presenciais a sério.

Em 2025, publicou o livro “Análise”, o mais pessoal de sua obra, em que conta dramas íntimos e a maneira como elaborou suas próprias perdas e traumas. O processo de escrita ajudou a ressignificá-los. “É impressionante a diferença entre contar uma coisa oralmente e formular na escrita. É bem distinto o processo e teve um outro efeito analítico para mim.”

Da família, que está retratada na obra, a autora recebeu feedbacks do tipo: “que bom que alguém escreveu isso. Eu achava que estava louca e não tinha certeza se eu tinha vivido”. Do público, percebeu um exercício de autorreflexão. “Quando as pessoas leem, elas passam a pensar nelas mesmas. As minhas histórias só fazem algum sentido se elas tocarem temas que não são unicamente meus”, define.

É por dar sentido ao que todos sentem que o que ela diz publicamente vem conquistando tanta gente em qualquer plataforma. Em tempos de tanta conexão tecnológica, sentir e deixar sentir é o que nos torna humanos.

Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
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