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Análise: Streaming domina o Emmy pela primeira vez, em premiação conservadora e sem diversidade

Noite sem brilho premiou as obras mais fáceis e deixou a diversidade apenas no discurso

20 set 2021 09h29
| atualizado em 28/9/2021 às 15h42
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A cerimônia do 73º Emmy, na noite de domingo, consolidou o streaming como a maior força criativa da televisão americana, com uma inédita tríplice coroa da premiação. A Netflix ficou com os prêmios de melhor drama (The Crown) e minissérie ou antologia (O Gambito da Rainha), e o Apple TV+ com o troféu de comédia (Ted Lasso). E isso apenas quatro anos depois de o Hulu se tornar pioneiro entre os streamings, ganhando pela primeira vez um dos Emmys principais - melhor drama, por O Conto de Aia, em 2017.

A festa também teve outros marcos. A Netflix superou a arquirrival HBO, vencedora de cinco das dez disputas anteriores de melhor drama do ano e de seis das dez competições prévias de melhor minissérie ou antologia (a categoria mudou de nome algumas vezes ao longo do tempo). Sua supremacia vem também em cima do declínio da AMC, produtora de Mad Men e Breaking Bad, e da presença menos marcante da FX, que passou pela fusão da Fox com a Disney. No total, a Netflix levou 44 prêmios (somando com o Creative Arts Emmy), contra 19 da HBO/HBO Max.

Os prêmios foram justos? Mais ou menos. The Crown não tinha ganhado com suas três temporadas anteriores e é uma das maiores produções na televisão hoje, com bons roteiros e grandes atuações. Agora, precisava vencer também roteiro, direção e prêmios em todas as categorias de atuação? Não. Tobias Menzies é excelente, mas é chocante que o Emmy não tenha ido para Michael K. Williams. Não por sua morte, que aconteceu depois do fechamento da votação, mas por causa de seu trabalho em Lovecraft Country, uma série ambiciosa, ainda que imperfeita. Fora seu currículo em algumas das melhores séries da história, como The Wire.

Entre as comédias, Ted Lasso tinha a concorrência forte de Hacks, da HBO Max, com quem acabou dividindo os prêmios da noite. Enquanto Hacks ganhou roteiro, direção e atriz para Jean Smart, um dos troféus mais merecidos da noite, Ted Lasso ficou com ator (Jason Sudeikis), ator coadjuvante (Brett Goldstein), atriz coadjuvante (Hannah Waddingham) e comédia. As duas são das melhores coisas da televisão atualmente, mas Ted Lasso ganha na ousadia.

No caso de O Gambito da Rainha, que levou não só melhor minissérie, antologia ou filme para televisão, mas também direção, é duro de defender. A categoria tem sido a mais disputada nos últimos anos, tanto que agora fecha a festa. Desta vez não era diferente. A série da Netflix sobre uma jovem enxadrista que vence em um ambiente machista graças a seu talento e aparentemente à sua beleza era de longe a menos interessante das concorrentes (Mare of Easttown, I May Destroy You, The Underground Railroad e WandaVision). E isso porque Small Axe, a antologia de Steve McQueen, ficou inexplicavelmente de fora dos indicados, enquanto Hamilton, uma peça musical brilhante, mas não um filme para TV, ocupou diversas categorias. O Gambito da Rainha tem uma produção bonita, belos figurinos, uma atriz eficiente no papel principal, mas é isso. É claramente uma série sobre uma mulher, feita por homens.

Em uma edição que tinha tudo para premiar a diversidade, ela ficou apenas no discurso do presidente da academia mesmo. Todos os 12 premiados em atuação são brancos, em um ano em que a primeira mulher trans disputou (Mj Rodriguez por Pose), e quatro dos seis concorrentes a melhor ator de drama eram negros.

Por tudo isso, a cena mais emblemática de uma noite sem brilho, a não ser por alguns momentos, como a homenagem a Debbie Allen, as graças de Conan O'Brien e a empolgação das inglesas Hannah Waddingham e Kate Winslet, foi o discurso de Scott Frank, ganhador do prêmio de melhor direção de minissérie ou antologia de O Gambito da Rainha. Uma fala arrastada, desinteressante, sem nada para dizer. Mesmo assim, Frank, um homem branco de meia-idade, se sentiu no direito de mandar parar a música que servia de sinal para encerrar os agradecimentos - curiosamente, Con Te Partirò ("com você, partirei", na tradução). Em seguida, Michaela Coel, uma criadora original, jovem, com muito a dizer, foi premiada pelo roteiro de I May Destroy You. Em menos tempo, respeitando as regras, fez um discurso memorável, dedicado às sobreviventes de abuso sexual, como ela.

Os resultados mornos da noite de domingo podem ser apenas consequência de uma pandemia, que afetou as produções de maneiras diferentes e o modo de ver televisão. Mas parece que as pessoas não viram mais TV. Elas assistiram às mesmas coisas. É difícil prever se a tendência de premiar obras menos desafiadoras, como O Gambito da Rainha e mesmo The Crown, bem-feita, mas clássica, em vez de The Underground Railroad, I May Destroy You e, sinceramente, até WandaVision, vai persistir após a covid-19 deixar de ser uma ameaça.

Durante muitos anos, os canais abertos foram acusados de ficar na mesmice. Os canais por assinatura vieram para revolucionar a televisão, com Os Sopranos, Mad Men, Breaking Bad, The Wire, Game of Thrones. A HBO teve papel fundamental nisso, junto com AMC, Showtime, FX. Que o domínio quase completo do streaming não signifique um passo atrás. Oferecer apenas o que supostamente o público quer baseado em algoritmos já é ruim o suficiente. Premiar apenas aquilo que é popular e fácil é pior ainda.

Estadão
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