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A conquista da Netflix na TV atinge um obstáculo, talk-shows

Diante de vários cancelamentos, a gigante do streaming admitiu que a atualidade do gênero é um grande desafio

10 jul 2019
03h11
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A Netflix abalou o setor de entretenimento ao ser bem-sucedida em praticamente todos os gêneros - dramas, comédias, documentários, reality shows e longas. Mas há um tipo de programação que se mostrou complicado para a gigante do streaming: o talk-show. Nos últimos dois anos, a Netflix cancelou três programas no gênero: The Break with Michelle Wolf, Joel McHale Show, com Joel McHale e Chelsea. Dois outros talk-shows da Netflix - Norm Macdonald Has a Show e The Fix, estrelado por Jimmy Carr, DL Hughley e Katherine Ryan - não empolgaram.

Parte do problema pode ser que os programas de entrevistas geram um ajuste estranho ao streaming. De Johnny Carson a Trevor Noah, astros dos programas de entrevistas se uniram ao público ao comentar os eventos atuais. A Netflix e outros serviços de streaming, ao mesmo tempo, conquistaram os espectadores principalmente pela programação que não tem data de validade concreta.

"Os anfitriões da madrugada normalmente fazem piadas dos acontecimentos do dia, e as pessoas precisam vê-los logo", lembrou Jeff Ross, produtor executivo de Conan O'Brien. "Quando você está na Netflix, as pessoas podem esperar um mês. Mas como fazer maratona de um show diário?"

Chelsea Handler durou só duas temporadas e a Netflix cortou programas de Wolf e McHale depois de pouco tempo. Dois talk-shows da Netflix se saíram melhor: Patriot Act With Hasan Minhaj e O Próximo Convidado Dispensa Apresentações com David Letterman. O programa de Letterman chamou atenção graças aos seus convidados famosos (Barack Obama, Kanye West, Ellen DeGeneres) e a mudança de atitude do astro após uma carreira marcada pela ironia. Mas o tamanho do público desses dois programas é um mistério, já que é hábito da Netflix só dar dados de audiência apenas em casos selecionados.

A Netflix admitiu que fazer talk-shows bem-sucedidos não tem sido fácil. "A questão da atualidade do gênero é um desafio para nós como um serviço sob demanda", disse Brandon Riegg, vice-presidente de séries de não ficção e especiais de comédia da Netflix, em comunicado.

Para vários programas de entrevistas criados para serviços de streaming, o pequeno número de episódios encomendados por executivos de programação tem sido outro obstáculo, disseram alguns produtores. A série apresentada por Michelle Wolf - a cômica que atraiu a atenção nacional por seu desempenho imperturbável no jantar de 2018 da Associação de Correspondentes da Casa Branca - durou todos os 10 episódios, antes de a Netflix encerrar sua temporada. E a Hulu cancelou I Love You, America, apresentada por Sarah Silverman, após apenas 21 episódios. A maioria dos programas de entrevistas na TV tradicional, ao contrário, é transmitida quase todas as noites, tornando-se parte da rotina do espectador.

"Um programa de entrevistas tem a ver com hábito", disse Gavin Purcell, um produtor que ajudou a administrar o programa de Silverman na Hulu depois de trabalhar no programa de Jimmy Fallon na NBC. "Com Fallon, não tentamos fazer o espectador assistir ao programa todas as noites. Nós os recebemos duas ou três vezes por semana e isso é uma vitória."

A Netflix aproximou-se de uma frequência diária com Chelsea, com 90 episódios na primeira temporada, mas ainda assim não conseguiu se manter. Quem quer ver a 1.ª temporada enfrentará problemas: a Netflix removeu 66 episódios de Chelsea. É a única instância em que a empresa removeu o conteúdo que possuía e criara, de acordo com porta-voz da empresa.

Sobre o acréscimo de Minhaj e Letterman à Netflix, Riegg observou que nenhum dos apresentadores dependia da pesquisa das notícias do dia.

Como o programa de John Oliver na HBO, o Patriot Act de Minhaj é um programa semanal que aprofunda temas únicos por edição. Concentrando-se em tópicos que vão desde a Arábia Saudita até a marca de roupas informais Supreme, o anfitrião pode ser relevante sem ter de avaliar os tópicos mais quentes. Outro talk-show da Netflix que ficou distante das notícias é Comedians in Cars Getting Coffee (Comediantes tomando café em um carro), de Jerry Seinfeld, um programa de entrevistas que começou no serviço de streaming Crackle antes de a Netflix comprar os direitos.

"Com Hasan, Dave e Jerry, temos três estilos distintos e originais que são atuais, mas têm uma vida útil mais longa do que os shows lineares tradicionais", afirmou Brandon Riegg. Outro talk-show da Netflix que ignora os eventos atuais - o programa casual de entrevistas de Norm Macdonald - não atendeu às expectativas, no entanto.

Segundo Riegg, a Netflix "continuará tentando coisas novas". E o produtor Purcell, que recentemente assinou contrato com a Universal, informou estar decidido a fazer um talk-show que funcione para streaming. "Você está vendo todos os seres humanos mudarem a forma como assistem à TV", contou ele. "Aconteceu muito rápido. Com o tempo, acho que esses programas terão sucesso."/TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO.

Estadão
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