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Volta por Cima

Artistas são devidamente valorizados em vida?

6 nov 2018
06h05
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Nossos artistas são devidamente valorizados em vida? A resposta para essa pergunta me parece cada dia mais óbvia. Não, não são. Infelizmente, a maioria não. Os teatros lutam para conseguir lotar a plateia, a formação de público é uma tarefa e tanto, os recursos públicos para arte são cortados, e se não bastasse tudo isso o artista é colocado por pessoas de pensamentos diferentes no lugar do dependente de verbas, aquela frase horrorosa sobre mamar... Enfim, socorro! Não vou repetir aquela frase. Mas, na luta diária de um trabalhador das artes tudo isso faz parte, e ver um artista poder ser reconhecido em vida é um carinho no coração. Carinho no coração do artista e no de todos nós.

Momentos após membros da produção do evento retirarem o papel que envolvia a obra Nikutai, do brasileiro Giovani Caramello, posta no hall de entrada do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, alguns curiosos já sacavam celulares para fotografá-la. A peça, de fato, chama a atenção. Um homem, contorcido, de olhos fechados, com cerca de dois metros de altura. As veias saltam à pele.

A obra é a maior figura já feita pelo artista até hoje, comissionada especialmente para a nova exposição do CCBB, 50 Anos de Realismo - Do Fotorrealismo à Realidade Virtual, que será aberta ao público nesta quarta-feira, 7. Para convidados, a mostra será aberta já nesta terça, 6.

Na peça, o artista buscou inspiração na dança japonesa Nikutai. "Estava fazendo uma pesquisa sobre expressão corporal e me deparei com essa dança", ele explica. "É a primeira que faço nessa escala, então é um desafio bem grande." Atrás da sua escultura, estão os quadros Up Close and Personal (2006), do britânico Simon Hennessey, e AB (prayer) (2011-2013), do também britânico, mas de origem zimbabuana, Craig Wylie. Todas são obras hiper-realistas, uma corrente que seguiu a tendência do fotorrealismo, movimento surgido há cerca de 50 anos.

A mostra, com 90 obras de cerca de 30 artistas, tem curadoria de Tereza de Arruda, que destaca o caráter de ineditismo da exposição, pois, segundo ela, a representação da realidade na arte contemporânea nunca foi tratada a partir do fotorrealismo. "No período pós-guerra, o mundo estava devastado, cansado da massificação de imagens, e houve um apogeu da arte abstrata", explica a curadora. Nas décadas de 1960 e 70, o fotorrealismo, pinturas baseadas em cenas fotográficas, surgiu em oposição à abstração.

Um ponto de partida da exposição é uma das mostras pioneiras sobre o tema, a Documenta de Kassel, na Alemanha, em 1972. Nomes que estiveram por lá, como Ralph Goings e John Salt, estão representados no CCBB com alguns quadros. "São artistas da primeira geração", diz Arruda. "Para a nossa curadoria, era importante resgatar esses nomes, como um testemunho desse primeiro momento, para comparar o percurso dos outros artistas."

Outro nome da Documenta de Kassel aparece em outra sala, já abordando a corrente hiper-realista. O escultor americano John De Andrea aparece na mostra 50 Anos com as obras Christine I (2011) e Mother and Child (2016). Além dele, o outro escultor hiper-realista presente no CCBB é o dinamarquês Peter Land, com Giovani Caramello fechando a lista. "É quase um sonho, em tão pouco tempo de carreira, estar no meio dessa galera", revela o artista brasileiro. "Bate um receio, será que estou pronto?"

Destaque na SP-Arte deste ano, Caramello afirma que, desde que começou a estudar escultura tradicional, já admirava o hiper-realismo. "Gosto de estilizar as peças, não gosto de fazer como se fosse uma pessoa totalmente real. Acho interessante brincar com tamanhos e com proporções."

De acordo com Tereza de Arruda, o hiper-realismo, que surgiu como tendência já no final da década de 1970, aprimora a essência do fotorrealismo, sendo ainda mais fiel às reproduções do cotidiano, seja por meio de retratos, paisagens naturais ou espaços urbanos. "O hiper-realismo faz um aperfeiçoamento dessa visão."

Assim como as esculturas, as pinturas também são vistas do ponto de vista histórico e contemporâneo, com trabalhos de nomes como Ben Johnson, Javier Banegas, Raphaella Spence e o brasileiro Hildebrando de Castro, que apresenta obras recentes, feitas em 2016.

O brasileiro afirma ser realista, sem o "hiper", já que o seu trabalho não se confunde com a fotografia. "Exploro a tridimensionalidade. Quando você olha, dá a impressão de que é um relevo", diz o artista, que trabalha com imagens inspiradas pela arquitetura. O que o atrai ao realismo e ao hiper-realismo, em suas palavras, é um novo campo de perspectivas. "Dá a possibilidade de você conversar sobre mundos paralelos."

Realidade Virtual. Para finalizar a exposição, inclusive de forma cronológica, estão presentes trabalhos em realidade virtual e técnica mista. "Houve uma evolução de recursos tecnológicos, desde a fotografia digital até os trabalhos em vídeo", explica Arruda. "Iniciamos a exposição com um momento histórico e seguimos com o que está sendo feito hoje." As obras de realidade virtual serão expostas em monitores, projeções e óculos especiais. "Por isso, temos 30 artistas, são nomes de várias gerações e com diferentes interesses."

Estadão Conteúdo

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