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Sem clichês, João Suplicy vai às Áfricas com 'Samblues'

Canções inéditas e regravações que serão mostradas em show gratuito nesta sexta, 27, conseguem um ponto de conexão interessante entre os dois gêneros saídos de um mesmo universo para criar duas culturas centrais na música do século 20

26 mai 2022 15h10
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As conexões do samba com o blues sempre foram tentadoras e tal cruzamento se tornou um clássico quase mais imaginário do que de fato. Samba e blues, por mais que esperamos por alguma familiaridade geográfica reconfortante, não são formados pelas mesmas matrizes africanas e o fato de suas origens virem do mesmo continente não os torna exatamente irmãos. A série de clichês começa com um clássico: a África é um lugar no qual todos tocam a mesma música. A África não é sequer um lugar, mas muitos. E alguns percussionistas do Senegal, por exemplo, mal conseguem tocar com percussionistas do Mali simplesmente por não entenderem o acento que eles usam.

Um dos frutos mais recentes da ideia de conexão entre o samba e o blues é o projeto Samblues, de João Suplicy. Cantor, compositor, violonista, João soube contornar bem essa questão ao não tenta enfiar o quadrado em um círculo. O que ele chama de samba e de blues é algo mais ideológico do que técnico. Assim, samba, em seu álbum, aparece como uma ideia de música brasileira e blues, muitas vezes, o próprio rock and roll. Assim, seu campo se torna um mais vasto e menos clichê.

João adianta o lançamento de seu projeto com um show gratuito nesta sexta (27), às 19h, no Teatro Flávio Império, de Cangaíba. Sua longa caminhada nas plataformas ficou assim: o volume 1, de 2021, trouxe desde faixas autorais, como Lágrimas de um Blues, com Leci Brandão dando a introdução uma rápida aula magna sobre um dos centros das diferenças entre a música brasileira e o blues, até uma versão de As Rosas Não Falam, de Cartola. A voz de João está ótima aqui, embora ela nem sempre esteja ótima em outras canções, e as blue notes que entram de sua guitarra (ou violão distorcido) entre os acordes de passagem mesmo dissonantes, o que poderia trazer um choque desagradável, conversam muito bem com a letra. Afinal, também no sentido ideológico, Cartola é o maior bluesman de todos os sambistas.

O volume 2 tem Disritmia, com um resultado ótimo nos arranjos mas que, desta vez, bate no limite da voz de João. A fragilidade não seria problema se ela não acusasse uma desafinação por vezes mais evidente. Nada que um coaching não desse jeito em pouco tempo. Seria um instante incrível, por exemplo, se João delegasse essa canção inteira, e não apenas parte dela, a uma cantora poderosa, fazendo jus à inversão do eu lírico para o feminino, como fez, na complicada parte em que Martinho da Vila diz na gravação original: "Vem logo, vem curar teu nego que chegou de porre lá da boemia". Isso dá problemas hoje em dia, mas João verteu a segunda vez para "vem curar tua nega" e se livrou das pedras.

Água de Beber, de Tom e Vinicius, pega o mesmo caminho. Há uma programação eletrônica bonita e uma guitarra charmosa cortando esse hard lounge. Outro single recém lançado com a mesma pegada é Tem Gente, parceria com Alice Ruiz. Um samba reforçado na cuíca e recortado por escalas pentatônicas. Só falta sair Retalhos de Cetim, de Benito de Paula, programada para o dia 17 de junho. Fica tudo um pouco bagunçado nas plataformas, mas a esperança é de que tudo seja organizado quando chegar agosto e tudo se unir no álbum Samblues, com um total de 14 faixas.

João sabe se cercar de músicos bons. Algumas canções trazem o pianista cubano Pepe Cisneros; Vitor da Candelária se apresenta como um grande percussionista; e Vic Hime tem pegada e muita sensibilidade nas linhas de baixo bem marcantes nas ideias dos arranjos. A cantora Bruna Black também traz muita força quando se apresenta. Ao final do show, vai ter bate papo com a plateia. Assunto não falta, e João é sempre cativante.

Serviço

João Suplicy lança Samblues

Teatro Flávio Império

Sexta, 27, 19 horas

Bate-papo com João Suplicy após o show

Local: Teatro Flávio Império - Rua Prof. Alves Pedroso, 600 - Cangaíba

Entrada gratuita | Livre Retirada de ingressos na bilheteria 1 hora antes do espetáculo

Obrigatório comprovante físico ou digital da vacina contra Covid-19 para entrar nos espaços

Estadão
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