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Pandemia dizima mais de 690 mil postos de trabalho da economia criativa

Estudo feito pelo Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural mostra que os empregos das atividades culturais foram os mais afetados: "Um dos maiores efeitos colaterais da pandemia serão as doenças relacionadas à saúde mental. Certamente a arte e a cultura terão muito a fazer e dizer sobre esse desafio", diz o diretor do Instituto, Eduardo Saron

26 nov 2020
11h11
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O universo da economia criativa perdeu 691,1 mil postos de trabalho no primeiro semestre de 2020, comparado com o mesmo período do ano anterior. Os trabalhadores da chamada economia criativa são aqueles que atuam em negócios baseados no capital intelectual e cultural e que gera valor econômico a partir da criatividade. Ou seja, onde economia e cultura se encontram. Ou onde a cultura deixa de ser entretenimento e se torna saída social. Um mapeamento da indústria criativa no Brasil, publicado em 2016 pela Firjan, uma organização privada com mais de 7.500 empresas associadas, mostrou que a área gerou uma riqueza no valor de R$ 155,6 bilhões para a economia brasileira em 2015.

Agora, um estudo do Itaú Cultural mostra o estrago no setor provocado pela pandemia desenfreada. Segundo dados do estudo divulgado hoje, o meio da economia criativa sofreu um golpe de 9,94%, fazendo com que as 6.958.484 pessoas que ganhavam a vida no setor em junho de 2019 se tornassem 6.266.560 um ano depois. O Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, que monitora a evolução econômica da indústria criativa no Brasil mostra que o impacto maior foi entre os trabalhadores mais ligados a atividades culturais. Neste caso, a queda foi de 49%, caindo de 659,9 mil trabalhadores em junho de 2019 para 333,7 mil. Por ramos, os números ficam assim: atividades artesanais caíram 49,66% (132,8 mil postos de trabalho a menos). No cinema, música, fotografia, rádio e TV, são 43.845 menos postos de trabalho. O setor editorial caiu 76,85%, com 7.994 menos vagas, e as artes cênicas e artes visuais diminuíram em 43% (com menos 97.823 postos de trabalho.

O diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, falou ao Estadão sobre a devassa que a pandemia provocou no meio artístico e sobre a recuperação que o meio musical pode ter depois desse quadro ainda preocupante.

Qual a leitura que você faz dessa queda dos números atividades da economia criativa durante a quarentena? Acha que ela acabou sendo mais afetada do que outros meios?

O impacto da pandemia foi bastante relevante para a economia criativa. Como os números mostraram, se olharmos junho do ano passado e junho deste ano, perdemos 691 mil empregos neste intervalo. Se fizermos o comparativo com dezembro de 2019, a queda foi ainda maior, uma vez que, no segundo semestre do ano passado, a economia tinha se aquecido um pouco e tinha gerado mais postos no setor. Frente a dezembro a perda chegou à marca de 871 mil postos de trabalho. A economia criativa foi uma das primeiras a parar e será uma das últimas cadeias de produção a voltar completamente, dada a necessidade de suspensão social durante a pandemia. Cinemas, teatros, casas de espetáculos, centros culturais, tudo fechou no primeiro semestre. Toda uma longa cadeia de profissionais se viu sem trabalho de uma hora para outra. Todo o pessoal de back stage e de produção foi afetado. O desemprego atingia toda a economia. A economia criativa não ficou imune ao processo.

Como acha que essa recuperação pode se dar?

A recuperação virá na esteira de uma série de questões. Precisamos superar a pandemia, por meio da ciência e da medicina. A economia precisa voltar à sua plenitude e o país precisa voltar a crescer. Com emprego e renda, a economia criativa voltará a crescer, na esteira da demanda. E, em outro campo, governos, empresas e sociedade precisam compreender que o ecossistema da economia criativa é fundamental para o desenvolvimento do país e precisa ser bem cuidado. O setor gera emprego, renda e bem estar social. Precisamos utilizar cada vez mais dados e informações para evidenciar este papel estruturante da cultura. Só assim conseguiremos colocar o setor no campo estratégico da economia brasileira. Além disso, depois deste triste e duro momento, os produtores de cultura terão que se reinventar. Muitos hábitos consolidados na pandemia ficarão incorporados. As atividades virtuais terão um espaço no novo cenário pós pandemia, por exemplo. A indústria cultural, que é uma parte relevante da economia criativa, terá que se adequar para garantir aderência aos novos tempos.

Falando de músicos, acha que as lives e outras atividades online puderam ser monetizadas? Ou ainda não foi descoberto um meio efetivo de usar os meios eletrônicos para atrair receitas?

Já há plataformas que estão monetizando apresentações online. Mas tudo isso ainda é muito embrionário. A receita deste mundo virtual na cultura ainda é pequena. O virtual não será relevante se ficarmos apenas tentando substituir a experiência presencial. O virtual precisa ser compreendido sob a ótica da cultura computacional para se tornar um produto de fato, com inovação, qualidade e experiências e entregas próprias. Quando isso acontecer, a monetização começará a ganhar relevância. Abriu-se uma janela de oportunidade. Precisamos superar a pandemia e aprender com a nova realidade. Um dos maiores efeitos colaterais da pandemia serão as doenças relacionadas à saúde mental, por exemplo. Certamente a arte e a cultura terão muito a fazer e dizer sobre esse desafio.

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Estadão
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