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Osesp inicia gravação dos 'Choros' de Camargo Guarnieri na Sala São Paulo

Orquestra registra peças e apresenta obras do 1º disco em concertos gratuitos entre esta quinta, 14, e sábado, 16

14 mar 2019
03h10
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A pianista Olga Kopylova acabara de chegar da Rússia quando, contratada pela Osesp, mergulhou no projeto de gravação das sinfonias de Camargo Guarnieri. Era o começo do ano 2000. "Eu lembro como se fosse hoje da impressão que esta música me causou", ela relembra. "No Conservatório de Moscou, conhecíamos seu nome, sabíamos que era um nacionalista, mas não tínhamos contato com a sua música. E fiquei fascinada com o frescor das ideias, com as cores, o impacto emocional do que escrevia."

Quase vinte anos depois, Kopylova se reencontra com a música do compositor. É uma das solistas do projeto de gravação dos seus Choros, que a Osesp iniciou esta semana, dentro do projeto Brasil em Concerto, idealizado pelo Ministério das Relações Exteriores. E, após sessões de gravação de uma parte das peças (as demais serão gravadas no ano que vem), três concertos gratuitos na Sala São Paulo vão apresentar uma seleção das obras, ao lado de colegas como a flautista Claudia Nascimento, os violinistas Emmanuele Baldini e Davi Graton, o fagotista Alexandre Silvério, com regência de Isaac Karabtchevsky, que já havia liderado o grupo na integral das sinfonias de Villa-Lobos.

"Guarniei usava a palavra choro num sentido livre, que não tem exatamente a ver com a tradição do choro popular", explica o diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski. "Cada uma dessas peças é um concerto, ou concertino, e cada uma atesta a habilidade única do compositor para transformar elementos da música popular em material que se presa a abstrações e variações, sem jamais perder a expressão direta."

Hoje e sábado, serão apresentados o Choro para flauta, o Choro para violino, o Choro para fagote e a Seresta para piano e orquestra; amanhã, integram o programa uma seleção dos Ponteios, o Quarteto de Cordas n.º 3 (com o Quarteto da Academia da Osesp) e a Sonata n.º 5 para violino e piano.

Ao lado dos grandes. "Camargo Guarnieri é um gênio", diz o italiano radicado no Brasil Emmanuele Baldini, spalla da Osesp. "O fato de estar na sombra de Villa-Lobos, mais grandioso, mais musicalmente luxurioso, mais exuberante, não diminuiu a importância de um compositor que, em qualquer tipo de repertório, deixou marcas fundamentais na história da música brasileira", continua.

É o caso, diz, da Sonata n.º 5, por exemplo. "Ele era uma esponja, absorvia elementos de tudo aquilo que estava acontecendo, das modas, das vanguardas, das incursões no popular", explica o violinista, identificando a obra como um caleidoscópio no qual há imagens de Bartók, Stravinsky, da música francesa.

"Mas isso sempre com uma limpeza e transparência de linguagem que são os traços que o distinguem de Villa-Lobos. Onde Villa é exuberante no limite, Guarnieri é essencial e direto. Villa pinta em grandes telas com uma enorme variedade de cores, enquanto Guarnieri faz gravuras musicais, desenhando com linhas decididas e com mão firme."

Kopylova, que toca a peça com Baldini, compartilha com o colega as impressões sobre a sonata. "O primeiro movimento é inspirado, com melodias longas e pausas inesperadas, como sussurros. O segundo é um diálogo íntimo entre violino e piano. E o terceiro tem ritmos fortes, marcantes, que levam a uma apoteose dramática."

A pianista conta que também tem se dedicado a investigar a música para piano do compositor. "Andei folheando todos os 50 Ponteios, uma parte deles já apresentei, e estou sempre estudando novos. Eu me apaixonei pelas miniaturas sofisticadas. E uma das coisas que me chamou atenção é que ele com certeza era simpatizante da música russa, pois um dos Ponteios é dedicado a Alexander Scriábin, um dos mais importantes compositores e pianistas russos, e outro a Pavel Serebriakov, grande pianista que Guarnieri provavelmente conheceu."

Para Kopylova, conhecer o contato com a obra de Guarnieri a ajudou a ampliar seus horizontes. E ela não hesita em reconhecer no autor um mestre do século 20. "Sua produção para piano não é apenas importante representante do nacionalismo modernista, mas também significativa contribuição para o repertório mundial. O domínio que tinha das técnicas amplia as fronteiras nacionalistas e coloca sua música de igual para igual com as produções mais significativas do repertório mundial."

OBRAS INTERPRETADAS

A seleção de obras feitas pela Osesp para a Semana Camargo Guarnieri oferece um rico panorama da criação do compositor, que nasceu em Tietê, no interior de São Paulo, em 1907, e morreu na capital, em 1993, e foi um dos mais influentes músicos brasileiros no século 20.

Hoje e sábado

Choro para flauta e orquestra de câmara

- Claudia Nascimento, Isaac Karabtchevsky e músicos da Osesp

Choro para violino e orquestra

- Davi Graton, Isaac Karabtchevsky e Osesp

Choro para Fagote e Orquestra

- Alexandre Silvério, Isaac Karabtchevsky e Osesp

Seresta para piano e orquestra de câmara

- Olga Kopylova, Isaac Karabtchevsky e músicos da Osesp

Amanhã

Ponteios para piano: Encantamento, Ponteios nº 45 e nº 48

- Olga Kopylova, piano

Quarteto de cordas nº 13

- Quarteto de cordas da Academia da Osesp

Sonata nº 5 para violino e piano

- Olga Kopylova, piano, e Emmanuele Baldini, violino

Sala São Paulo. Pça. Julio Prestes, 16, tel. 3223-3966. Quinta (14), Sexta (15) e sáb. (16), às 19h30. Entrada gratuita (máximo de 4 ingressos por pessoa)

Estadão

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