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Negro Leo faz reflexões sobre o fenômeno da 'lacração' em novo disco

Em 'Desejo de Lacrar', cantor e compositor trabalha com um conceito que hoje faz parte do ambiente coletivo nacional

6 ago 2020
05h10
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Com origem na comunidade LGBTQ+, a gíria "lacre" inicialmente denominava o que era arrebatador, brilhante e se destacava. Aos poucos, a palavra foi transportada para o debate político nacional. Quando um polo ideológico discorda da posição do outro nas redes sociais por meio de um argumento supostamente irrefutável para quem o defende, o assunto está encerrado e torna-se um exemplar da lacração.

Formado em ciências sociais, o cantor e compositor Negro Leo acompanha o fenômeno e fez do tema o eixo de Desejo de Lacrar. Aos 37 anos, o maranhense de Pindaré-Mirim radicado em São Paulo chega ao nono lançamento apostando mais uma vez na sonoridade experimental e nos timbres eletrônicos, mesclando canções e temas sem letra em que se aprofunda nas texturas sonoras.

O baterista e produtor Sergio Machado, que usa o codinome Plim, e o baixista Fábio Sá trabalham com Leo desde Action Lekking, disco que ele lançou há três anos. Em Desejo de Lacrar, o tecladista Chicão se uniu ao trio. A ideia do álbum surgiu em 2018, ano de uma eleição presidencial polarizada, e as canções foram surgindo a partir desse contexto. Leo explica que a discussão sobre o lacre se colocou de uma maneira "imperativa e inegociável".

"Como eu tenho uma formação de cientista social, minhas obras acabam pensando a sociedade brasileira. Não podia deixar de fazer um disco sobre o lacre", explica o artista, ressaltando que, pela primeira vez, está trabalhando com um conceito que hoje faz parte do ambiente coletivo do País.

Das seis faixas com letra, cinco fazem referência ao lacre e o que ele pode simbolizar. Na análise de Leo, houve um retrocesso em relação às conquistas de direitos fundamentais nos últimos anos e, a partir daí, o lacre se deixou capturar no meio das divergências políticas.

A curta faixa-título, somente com a voz de Leo, abre o álbum. Absolutíssimo Lacrador tem atmosfera punk, e a mórbida e progressiva Eu Lacrei retrata um assassinato em que o criminoso diz ter "lacrado". "É uma situação que você pode ler hoje nos jornais", afirma Leo.

Gravada no formato voz e violão, Tudo Foi Feito pra Gnt Lacrar foi a primeira música do repertório a ser composta, sobre a internet e "outras vozes que surgem no vácuo das notícias". O poeta capixaba Tazio Zambi é parceiro de Leo na concretista Makes e Fakes, finalizada com o verso "tudo existe para acabar em lacre".

Única canção do disco que não faz referência direta ao lacre, Dança Erradassa tem ecos de funk R&B e foi finalizada durante uma viagem de Leo à China com a mulher, a cantora e cineasta Ava Rocha, para uma residência artística.

Antes de embarcar, ele fez um improviso no violão e se esqueceu dos acordes. Com a ajuda de Fábio Sá, ele se lembrou da música e fez a letra inspirada na estranheza de Terminal Love (1974), disco do americano Peter Ivers.

O título do álbum, diz Leo, não foi inspirado na série de filmes Desejo de Matar, em que Charles Bronson interpretava um justiceiro urbano disposto a vingar as mortes de familiares e amigos. A capa de Desejo de Lacrar tem a foto de um amigo do artista, negro como ele, vestido com roupas de soldado em uma mata e pode simbolizar um militar ou um guerrilheiro.

O encarte do álbum, com letras e textos explicativos sobre cada uma das faixas, tem a mesma tipografia dos dossiês que a ditadura militar preparava contra opositores.

"Esse disco é o momento em que eu quero colher os efeitos de uma ação bem pensada, de escolher aquela capa e o encarte. Um artista pode ser mais cruel que o censor e tem que usar esses materiais que ficaram presos ao ambiente institucional", diz Leo.

Projeto. Negro Leo está entre os contemplados pelo projeto IMS Convida, do Instituto Moreira Salles, um veículo para mostrar as criações de artistas e coletivos de diversas vertentes culturais em meio à pandemia. Uma animação feita pelo cantor e compositor deve ser ficar pronta até o fim deste mês e poderá ser vista pelo site www.ims.com.br/convida.

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Estadão
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