Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Oferecimento Logo do patrocinador
Publicidade

Matuto S.A. leva 'Terra Vermelha' e a viola caipira ao Grammy Latino

Artista independente de Franca concorre na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa com disco que une rap e cultura caipira

26 out 2026 - 08h26
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O artista independente Matuto S.A., alter ego do francano Vinicius Comparini, surpreendeu ao ser indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa com "Terra Vermelha: Do interior pro interior". O disco mescla viola caipira e hip hop, união que deu origem ao movimento "Regional Beat", inspirado no Manguebeat. Ele concorre ao prêmio contra nomes consagrados como Emicida, Budah, Ajulliacosta e Don L, projetando a cultura do Brasil profundo ao cenário internacional.

A disputa pelo Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa no Grammy Latino deste ano está mais concorrida do que nunca. Ajulliacosta chega com Novo Testamento, álbum que nasceu de um processo de redescoberta pessoal. Lançado em setembro de 2025, o disco aborda a revolução na esfera íntima — ou, nas palavras da artista, "uma parada muito pessoal". Budah apresenta FREQUÊNCIA LUNAR, que amplia os caminhos de Púrpura (2024). A partir de pesquisas sobre as fases da Lua e os efeitos das frequências sonoras no corpo, a artista se afasta do R&B lapidado da estreia e se aproxima do rap, do drill e do house.

Matuto S.A.
Matuto S.A.
Foto: Gustavo Francisco / Rolling Stone Brasil

🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @terrasonora

Em seguida, Don L chega com CARO Vapor II, continuação da coletânea Caro Vapor / Vida e Veneno (2013). Lançado em junho de 2025, o álbum tem 15 faixas e combina rap, ritmos brasileiros e referências à MPB, com o capitalismo tardio entre seus temas centrais — poderosíssimo. "Estou tentando fazer outro tipo de rap. É rap, só que com outras batidas", explicou. Depois, Emicida nos presenteou com Emicida Racional VL 2 - Mesmas Cores & Mesmos Valores, que dispensa apresentações. Por fim, vem Terra Vermelha: Do interior pro interior, de Matuto S.A. — pera, quem?

Esse é Vinicius Comparini Arcolino, MC, trompetista e produtor de Franca, no interior paulista. Lançado em março de 2026, o álbum explora o pertencimento e a vivência do Brasil profundo.

Em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil, Matuto S.A., falou sobre a indicação e os próximos passos da carreira. O álbum saiu em março de 2026, com distribuição da Symphonic Brasil e financiamento do ProAC SP, e reúne 14 faixas sobre pertencimento e a vivência do Brasil profundo.

Musicalmente, a viola caipira surge sobre batidas de rap, em uma pesquisa de ritmo e tonalidade que deu origem ao movimento Regional Beat. Questionado sobre ser o underdog da disputa — aquele que corre por fora —, admitiu essa possibilidade, mas destacou o alcance do reconhecimento: "Cara, me sinto muito honrado e me sinto muito feliz também porque eu acredito que eu tô representando não só o Matuto SA lá, mas uma gama de artistas independentes também".

https://www.youtube.com/watch?v=m5Lk6sTaqkA

Do interior para o interior

Na divisa com Minas Gerais, Franca é o ponto de partida de boa parte das histórias que o disco conta. A cidade tem 352.536 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE, e ocupa cerca de 605 km². Conhecida como capital nacional do calçado e também do basquete, tem no café outro pilar da economia: em 2020, o produto respondeu por mais da metade das exportações do município, segundo a Revista Cultivar.

Vinicius cresceu ouvindo moda de viola, imerso em uma cultura muitas vezes reduzida ao rótulo de regionalismo. Entretanto, sua formação musical também passa pelo hip hop: "Tô nessa cultura há mais de 15 anos, mas é o meu primeiro disco solo", diz. Entre as referências, lembra o movimento que marcou a década de 1990: "O próprio Chico Science, a Nação Zumbi, o Otto, o mestre Ambrósio, Mundo Livre S.A. fizeram muito bem lá, nos anos 90".

Artista independente, Vinicius fala sem romantismo sobre a distância entre seu trabalho e os grandes números da indústria. "Sou um artista independente do interior de São Paulo, né? Sem grandes números nas redes sociais, sem grandes números no Spotify também", afirma. Ainda assim, o disco fez barulho na cena — tanto que foi reconhecido com a indicação.

Uma batida de três por quatro

Desse caldeirão de inspirações nasceu o Regional Beat. Vinicius começou a desenvolver o movimento em 2023, ao produzir batidas com viola caipira e trechos de música regional. Para o artista, a proposta ultrapassa os limites de seu trabalho: "Esse movimento é uma parada que é maior do que o Matuto S.A. só".

Conciliar as estruturas rítmicas da música caipira e do rap foi o principal desafio. Segundo o artista, os dois gêneros costumam seguir compassos diferentes. "A maioria das músicas caipiras — não é uma regra —, mas elas têm uma divisão rítmica de três por quatro. O rap, também não é uma regra, mas é basicamente feito numa divisão de quatro por quatro." Encaixar os trechos de viola nas batidas de rap exigiu uma série de experimentações.

A tonalidade também exigiu ajustes. "Majoritariamente, as músicas caipiras têm uma tonalidade de tom maior. O rap é um tom menor também", explica. Entre recortes de gravações e experimentações com a viola, o grupo construiu uma identidade sonora própria.

Recentemente, o movimento ganhou expressão no audiovisual. O documentário Regional Beat: Uma Antena Parabólica Fincada na Terra Vermelha foi exibido em escolas do interior e da zona rural e também teve sessões em São Paulo, na USP de Piracicaba e na Unesp de Franca. Ao explicar a proposta, Vinicius estabelece um paralelo com o Manguebeat e contrapõe a imagem da antena fincada na lama àquela fincada na terra vermelha do interior.

https://www.youtube.com/watch?v=SkuK-VHw4G8

A surpresa da indicação

Vinicius se inscreveu no Grammy por meio da Symphonic Brasil, distribuidora do disco. Sua principal aposta era a categoria de Artista Revelação, que considerava mais acessível por oferecer mais vagas e reunir nomes em início de carreira. Como segunda opção, inscreveu o disco na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa.

O músico conta que acompanhava a transmissão no YouTube quando os indicados a Artista Revelação foram anunciados, mas seu nome não apareceu na lista. "Eu pensei: 'pô, que pena', fiquei triste. Falei: pô, acho que não é esse momento então, talvez, né?", lembra. Passada a frustração inicial, decidiu conferir, por curiosidade, a outra categoria em que havia inscrito o disco. "Eu olhei pelo celular, cara. Foi engraçado", conta.

Nesta edição, a categoria de interpretação urbana em língua portuguesa passou a premiar álbuns, e foi para ela que o trabalho de Vinicius foi remanejado. "Antes era uma categoria de faixa... agora ela se tornou uma categoria de um álbum. E aí eles até realocaram o meu álbum para essa categoria e ficou lá inscrito", explica.

No celular, Vinicius leu a lista nome por nome, em ordem alfabética. O nome dele era o último. Em casa, ao lado da esposa, Camila, Vinicius reagiu à descoberta com um grito. "Eu dei um berro", lembra, ao contar o momento em que confirmou a indicação.

https://www.youtube.com/watch?v=9Y6DI8W73Dk

Las Vegas, vinil e o próximo disco

A indicação não parou o trabalho. Enquanto a viagem a Las Vegas se aproxima, Vinicius já pensa no que vem depois de Terra Vermelha. Os planos também avançam para além da premiação. Segundo o artista, já há músicas novas e participações encaminhadas para 2027, e o segundo álbum deve chegar até 2028. Enquanto isso, ele segue levando o repertório de Terra Vermelha aos palcos.

Na disputa pelo Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa do Grammy Latino, Ajulliacosta, Budah, Don L e Emicida enfrentam um concorrente à altura — talvez não em números, mas, sem dúvida, em identidade. Terra Vermelha: Do interior pro interior nasceu no interior paulista, com a viola caipira no centro da batida, e leva para Las Vegas um Brasil profundo que costuma ficar fora dos holofotes. Em 12 de novembro, a categoria será decidida na MGM Grand Garden Arena, e Matuto S.A. chega como um nome que vale a pena acompanhar.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra