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Jonas Sá faz uma viagem quente pela canção no disco 'Puber.'

Sem precisar se enquadrar na tradição da música brasileira, produtor lança álbum de canções

13 jun 2018
06h04
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Jonas Sá está nu. Metaforicamente, pelo menos, ele se despiu - de resto, é impossível saber em uma ligação telefônica. Com BLAM! BLAM!, seu segundo álbum solo, de 2015, o produtor se colocou a criar canções a partir de colagens sonoras e imagens de personagens reunidos em poesias adultas e sem autocensura. Uma salada mista de soul a pop, rock psicodélico à Tropicália.

Leu, à época, uma crítica na qual concordava com quase tudo - "de fato, tudo escrito ali era muito pertinente", conta -, mas algo pegou no nervo dele. Dizia o texto que Jonas Sá não era um cantor, "mas serve para as intenções".

O jornalista Antônio Carlos Miguel, autor do escrito, foi sucinto e mexeu com o músico. "Achei que tinha dado um salto e tanto entre Anormal (o primeiro disco, de 2007) para o BLAM! BLAM!", conta . O segundo disco, ele explica, trazia a linguagem de construir músicas a partir de pedaços, como um quebra-cabeças, tal qual é feito no rap. Sá citava, como referência para essa linguagens, álbuns dos norte-americanos Beck e Beastie Boys. "Cresci ouvindo esses caras", diz.

ouviu o conselho dado: "Percebi que talvez eu devesse fazer um disco mais para mim, para que meu canto pudesse existir". Daí vem o "nu" conceitual. Despido das roupagens mil em suas canções, Jonas Sá encontrou, em Puber. (Selo RISCO), o mais novo álbum, lançado no início desta semana, uma versão mais íntima de si, com canções que deixam os personagens fictícios para trás e entregam porções, em doses moderadas, de lembranças colecionadas ao longo dos seus 39 anos de vida.

A reinvenção artística se iniciou com uma busca pela própria história. Frequentou aulas do cantor uruguaio Eládio Perez Gonzalez, de 92 anos, alguém da tradição dos cantores dos anos dourados do rádio e, veja só, que dividiu os vocais com os pais dele, Ronaldo Tapajós e Tetê Sá, nos anos 1970.

"Depois que levei a sapecada, achei que (a crítica) tinha razão", brinca. Técnica desenvolvida, chamou para ser sua coaching vocal Laura Lavieri, dona de uma das vozes mais firmes da música independente nacional - ela é coprotagonista do disco de estreia de Marcelo Jeneci, chamado Feito Pra Acabar, de 2010, e tem um álbum solo de estreia prestes a sair).

"Queria que a técnica e o canto ficassem garantidos nesse disco." Com isso, sua voz alterna-se entre a doçura pop herdada de Lulu Santos aos gritos como se fosse um vocalista de banda de hardcore.

Produzido por Jonas Sá e pelo irmão e também músico Pedro Sá, Puber. tem um título nascido da palavra puberdade, aquela fase conhecida pela bomba de hormônios que nos transforma em jovens desengonçados e desproporcionais. Mas seu uso vem, prioritariamente, da expressão em espanhol, cujo sentido é usado para adultos com "tesão pela vida", explica . "É alguém que está sempre disposto a descobrir novas coisas, interessado em sexo. No fim, esse é um disco 'puber', mesmo."

ri, como adolescente, da própria ironia ao dar um título ao disco que tenha relação com a juventude. "É um contraste, né?", ele diz, "se você parar para prestar atenção, esse disco é chamado de Puber., mas ele só trata de temas que você vai pensar depois dos 30 anos".

De fato, o terceiro disco do músico carioca é a respeito das transformações vividas na "nova puberdade", a partir da virada dos 30 anos, ou, como ele diz, "quando a gente para de se importar com o que os outros vão dizer". Vive-se, apenas, já que na adolescência, as convenções sociais são como pesados sacos de batata carregados nas costas e difíceis de se livrar.

Mesmo quando remexe nas suas memórias mais quentes da juventude, o faz com a cabeça de quem viveu algumas décadas a mais. "Eu me lembro de nós dois nos vendendo pra cidade / Somos luzes da cidade abraçando a escuridão / Queimando beijos em um fumo nos lábios de uma tentação", canta ele, nostálgico, na primeira estrofe de Puberdade, um dos singles do álbum, lançado como clipe em maio.

Quentes e sexuais são os versos criados por , sim, e por isso é tão fácil escorregar e cair no equívoco de enxergar a obra dele (só) por essa óptica. Cronista dono de uma visão muito particular do mundo, ele retrata o cotidiano - e, com ele, a quentura entre os corpos, é claro.

E também tem um discurso político bem próprio, como na mesma Puberdade, no qual cita a intolerância no verso: "Falei do Chico Mendes e teu pai me expulsou". Também critica a "síndrome de machão" em Share The Drama e expõe a revolução particular causada pela paternidade em Kim. Canta o fim de um relacionamento, triste e de perder o chão com Isso Vai Passar.

Cada aspecto, minuciosamente, entrega quem é Jonas Sá por dentro da fantasia de produtor, daquele que atua nos discos dos outros, como nenhum outro álbum havia feito. Ele está nu, mesmo vestido - ou não.

Estadão Conteúdo

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