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Jack White: "O rock'n'roll continua se movimentando"

Músico traz o Raconteurs ao Brasil em novembro e analisa o estado do rock and roll contemporâneo

12 set 2019
10h11
atualizado às 11h10
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Jack White carrega consigo muitas faces, mas em uma entrevista como a que ele concedeu ao Estado há uma semana, é possível captar nas suas palavras que suas faces não são fruto de preciosismo, falsidade ou mentiras. Pelo contrário, há no seu tom de voz um profundo amor pela música - aspecto que o ajudou a se transformar em um dos músicos mais admirados do mundo pop do século 21.

Ele tem data para pisar no Brasil: dia 15 de novembro, um de seus projetos, o Raconteurs, divide o palco do Popload Festival com Patti Smith, Hot Chip, Khruangbin, Little Simz e outros artistas, no Memorial da América Latina.

O Raconteurs é a face mais roqueira de Jack White: um quarteto, formado também por Brendan Benson, Patrick Keeler e Jack Lawrence
O Raconteurs é a face mais roqueira de Jack White: um quarteto, formado também por Brendan Benson, Patrick Keeler e Jack Lawrence
Foto: Reprodução Facebook

É arriscado dizer, mas talvez seja possível que, hoje em dia, o Raconteurs é a face mais roqueira de Jack White: um quarteto, formado também por Brendan Benson (cultuado músico americano com seis álbuns solo na carteira), Patrick Keeler e Jack Lawrence, os quatro vértices do quadrado do rock and roll, vocais, guitarra, baixo e bateria. Os passeios por outros instrumentos apenas acentuam a formação básica da banda e os seus planos para o gênero.

White é confrontado com a pergunta de se "o rock and roll vai sobreviver mais um ano" desde a virada do milênio, quando o White Stripes liderava o revival do rock de garagem que invadiu das maiores rádios FM do mundo até os menores clubes escondidos, do Lower East Side à Pompeia.

Mas ele é bem-humorado sobre o assunto: "Keith Richards me disse uma vez que sempre tenta achar uma nova resposta para aquela mesma velha pergunta. É parte do trabalho".

Help Us Stranger, o primeiro álbum do Raconteurs em 11 anos, lançado em junho de 2019, foi direto para o #1 da Billboard nos EUA. Feito admirável para uma banda que passou tanto tempo em um hiato amigável, mas especialmente para um lançamento como esse: sem parcerias com grandes gravadoras, o disco foi lançado pela Third Man Records, icônica casa-gravadora-estúdio de Jack White, e a maior parte das vendas do álbum provém do material físico, em vinil.

Se o álbum provavelmente não se tornará um clássico do gênero, alguns momentos dão frescor à vibe setentista da banda. Em Bored and Razed, uma máquina do tempo abastecida com a guitarra marcante de White traz o Led Zeppelin para o século 21. Help Me Stranger se encaixa mais na linha dos seus trabalhos solo recentes, ao misturar excentricidade na produção com truques antigos (como palminhas e um refrão fácil de memorizar). Shine The Light On Me é uma balada de piano potencializada pela entrega vibrante do vocalista, e What's Yours Is Mine surge de um riff que poderia ser do Dead Weather (outra das bandas do músico), passeando por tons grunge.

De Nashville, onde vive, Jack White respondeu às seguintes questões sobre o Raconteurs, rock and roll e Amazônia.

Quando bandas ficam juntas por muito tempo elas podem se envolver em brigas internas, os egos aparecem, etc. O Raconteurs ficou afastado durante um período longo demais para que essas coisas entrassem no caminho?

Estamos mais velhos e mais sábios, nunca passamos por nada traumático na banda. Alguns grupos, ainda adolescentes, começam a vender milhões de discos e de repente têm de aprender a ser homens de negócios. Também temos o luxo de estar tocando desde quando tínhamos 20 e poucos anos, agora estamos mais velhos e temos gratidão por tudo. Conseguimos ser gratos por ter algo legal a nosso favor. É uma perspectiva boa.

Como a dinâmica da banda está funcionando no palco?

É demais, é realmente legal. É uma mistura de quatro personalidades diferentes. Esse fato ajuda, porque se fôssemos todos iguais as coisas seriam mais difíceis, eu acho.

A turnê já fez diversos shows nos EUA, o que você tira da reação dos fãs? Algo te surpreendeu?

Tem sido demais. A reação dos fãs é incrível. Onde quer que a gente vá, são muitos adolescentes e jovens adultos que realmente amam o rock and roll. Voltando, 10 anos depois, pensamos que nossos fãs estariam na meia idade a essa altura, mas não, há muitos jovens. É demais ver uma nova geração entrando nessa onda.

O que é fazer turnês para você, agora, já com mais de 20 anos de trabalho nas costas? Você tem algum ritual entre os shows?

Existe uma tentação de cair em tolices, como se esconder no hotel 24 horas por dia, ou ser alguém que sai para comer 5 vezes por dia, as pessoas vão atrás de álcool e drogas, então é uma tentativa de evitar cair nessas armadilhas, se manter espontâneo e criativo. Tem que se lembrar de que você também está ali para criar, e não apenas para satisfazer os desejos de passar o tempo. É uma grande oportunidade para ser criativo, no palco, e dividir com as pessoas. Então é uma constante se lembrar disso, eu acho.

É um processo fácil?

Você aprende com o passar do tempo, tocando em shows, com outras pessoas. Todos os dias. Nunca parei de aprender e nunca quis parar. É demais estar nessa posição de não chegar a um plateau, não se manter estático. Isso mantém o cara interessado. Alguns artistas ao longo dos anos já têm seus palcos exatamente montados para eles, tudo está do jeito certinho, o pessoal do som ajeita tudo e eles apenas aparecem. Eu quero a luta, o tempo todo.

Os críticos têm comentado como vocês entram de maneira leve na política, especialmente na última faixa do novo álbum, mas a banda nunca foi uma banda engajada. No mundo em que vivemos hoje, você sente a necessidade de falar sobre isso?

Um pouco. Eu não quero falar o nome de Donald Trump em voz alta, porque de alguma maneira faz ele soar mais poderoso. O ego dele gosta, mesmo de atenção negativa. Então é bom não mencioná-lo pelo nome, porque ele vai desaparecer em algum momento, e nós olharemos envergonhados para esse momento. Acho que é preciso mirar para uma atemporalidade para lidar com música. Às vezes me sinto forte o suficiente para mencionar, aí falo de imigração, numa canção como Icky Thump, do White Stripes, de 12 anos atrás. Acaba sendo algo que as pessoas ainda comentam hoje em dia, então é curioso. De vez em quando, eu farei isso.

Falando sobre a canção Somedays (I Don't Feel Like Trying), escrita na maior parte pelo Brendan, você disse que tenta não escrever sobre momentos ruins para não ficar revivendo eles no futuro. Há músicas do seu catálogo que você evita por isso?

Eu tento não escrever dessa forma. Somedays é na maior parte do Brendan, mas nas músicas que escrevi ao longo do tempo tento, na maior parte, criar personagens imaginários. De vez em quando há uma inspiração de algo na vida real, e boas coisas podem vir dessa empreitada, mas eu não quero ser tão específico sobre isso, num estilo Taylor Swift. Todo mundo sabe sobre o que é, por que você está dizendo aquelas coisas. E 10 anos depois, como é que você vai cantar aquelas palavras? Não faz mais sentido. Eu tento evitar esse tipo de coisa.

É, pode ser uma grande bagunça.

Claro. As pessoas não entendem que quando saem com um compositor, podem ser uma influência e terão que lidar com isso para o resto da sua vida (risos), sempre que tocar aquela música.

Você também já disse que o sentimento desse ano, com o álbum novo, é parecido com o do White Stripes no começo, ou seja: as pessoas ainda vão se importar com o rock and roll esse ano?

Sempre fico surpreso com o quanto o rock and roll continua se movimentando, se segurando, se mantendo interessante para as pessoas conforme os anos avançam. Muitas vezes, desde que começou nos anos 1950, ele foi declarado morto, mas ele ainda se move. Os instrumentos evoluem: baterias, guitarras, o piano. Essas são coisas muito básicas com as quais as pessoas se importam muito, e elas provavelmente nunca vão embora. Estão muito enraizadas. Então, algumas vezes, as pessoas vão romper as coisas, fazer músicas com sintetizador, e então voltar para os instrumentos acústicos. São fases. Numa banda, gosto de começar do zero a cada projeto, sair, dar entrevistas, falar com pessoas, tocar em clubes pequenos antes do lançamento. É demais. Sinto que estou começando do zero a cada projeto, seja com o Dead Weather, com o White Stripes, com o meu projeto solo. É algo muito inspirador deixar isso acontecer.

As pessoas te perguntam sobre um fundo nostálgico da sua música desde o começo da sua carreira.

Quando as pessoas ouvem algo que elas não gostam, a maioria apenas ignora. Quando gostam, querem descobrir por que elas gostam daquilo. Ah, é porque soa como AC/DC, ou como The Hollies, ou como Devo… há sempre uma tentativa de encontrar uma comparação para explicar o gosto. É ok. Eu nunca sentei e tentei emular alguma coisa. Nunca quis fazer nenhuma banda minha soar como o The Kinks. Nunca fui assim. Escrevo canções e algumas delas soam como outras coisas mais antigas, sejam pelas ideias, pelos instrumentos, pela atitude, mas são acidentes felizes. Eu não ligo quando me dizem que algo que fiz soa como uma canção do Deep Purple. Se alguém consegue tirar algo daquilo, super. Fico feliz.

Essa é uma questão para você há muito tempo, não é? Como você as pessoas lidando com ela hoje em dia?

A música nos últimos 10 anos, por causa da internet, tem sido um lugar muito frágil. É um ambiente meio assustado com a ideia do que vai ser daqui a 3 meses, daqui a um ano. O que vai acontecer com a indústria. Pensei nisso com a Third Man Records. Não importa o que aconteça com a indústria da música, porque esse vai ser o meu mundo. Agora, temos a nossa própria fábrica de discos. Basicamente, podemos gravar as músicas, fazer o disco físico e ninguém pode nos parar. Esse é um lugar bom. Nem todo mundo tem o luxo de criar um mundinho próprio, então o que as outras gravadoras fazem é ficar bastante cautelosas. Obviamente, agora a indústria da música é streaming e vinil, esses são os dois meios que vão durar na próxima década. Isso aconteceu muitas vezes no passado. Quando a jukebox se tornou popular, quando os discos de 45 rotações se tornaram populares, as pessoas tentaram descobrir como fazer eles soarem, acertar as frequências, o volume, etc, porque é um novo formato, as canções tinham que ter menos de 3 minutos. Essas coisas vão ditando o que acontece na cultura pop, é muito interessante. O jeito que as pessoas digerem a música agora leva para algo como Old Town Road, do Lil Nas X, ser atraente e se tornar um hit gigantesco. O que se pode aprender disso? Foi uma casualidade ou foi algo que as pessoas podem escutar e investir nesse caminho?

Responder às mesmas perguntas te incomoda de algum jeito?

Eu tento me colocar também no lugar das pessoas que me perguntam as coisas. Se elas forem muito profundas, esotéricas ou específicas, as pessoas não vão se interessar. Então tem que manter num lugar em que as pessoas queiram saber coisas sobre artistas e música e etc. Keith Richards me disse uma vez: "Eu sempre tento achar uma nova resposta para aquela mesma velha pergunta". É parte do trabalho.

Como a Third Man Records é parte dessa discussão toda?

Nós lançamos o álbum do Raconteurs e foi o #1 nos Estados Unidos. Fizemos sozinhos, não teve parceria com nenhuma gravadora grande, foi até meio chocante. Mas acho que é porque criamos o nosso próprio mundo, do mesmo jeito que o Tool e outras bandas. As pessoas embarcam.

Você sabe por qual motivo seus fãs são atraídos pelo disco físico?

Acho que desde o primeiro dia a gravadora foi comprometida com o vinil, e tivemos um papel grande de trazer o vinil de volta para as massas, então sempre foi parte dos nossos lançamentos. Não me surpreende que essa seja a maior parte das nossas vendas. As pessoas não compram mais álbuns digitais, tem o Spotify. Quem realmente ama a música quer possuir aquilo, então acaba comprando o vinil.

Você tem dois filhos, agora já adolescentes. Como isso afeta o seu trabalho?

Isso afeta tudo que o você faz. Eu penso sobre eles primeiro, em tudo. Como artista, muda tudo para o resto da sua vida, o jeito que olho para a vida é completamente diferente. Agora você começa a olhar a vida através dos olhos deles também, é uma nova perspectiva. Provavelmente a melhor coisa que me aconteceu como compositor foi ter filhos.

Você tem uma ligação pessoal com a Amazônia, ao ter se casado lá e feito um show histórico em Manaus. Você tem lido sobre os incêndios?

Eu leio, sim. Parece muito triste. Não sei os detalhes, mas sei que todo ano existem queimadas lá, às vezes até natural, começam com raios e tal. É triste ouvir que as pessoas estão provavelmente explorando aquilo. Mas ao mesmo tempo, quem somos nós para dizer ao Brasil o que fazer? É o seu país, o seu meio ambiente, eu confio em vocês para dizer a nós o que fazer, o que podemos fazer. É bobo quando os Estados Unidos dizem, por exemplo, que um país não pode ter armas nucleares. Por que não? Nós temos. Quem somos nós para dizer? Nós amamos essa floresta tropical, então não toquem nela? Claro, tem o lance do oxigênio e tal, mas é o país de vocês. Eu espero que vocês encontrem uma boa solução.

É uma questão muito complicada. O que você lembra daquele show de Manaus?

Foi maravilhoso. Falaram para a gente que havia uma multidão do lado de fora assistindo, então fomos lá para fora. Queria que tivéssemos um microfone para tocar um pouco mais alto, tivemos que mandar as pessoas pararem de falar (risos). Mas foi um dos momentos mais maravilhosos da minha vida.

Ouças as novas canções do Raconteurs:

Popload Festival 2019, no Memorial da América Latina

AV. AURO SOARES DE MOURA ANDRADE, 664, TEL. 3823-4600. 6ª (15/11). INÍCIO: 11H. A PARTIR DE R$ 290

Estadão
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