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Fenômeno internacional, Anna Netrebko estreia no Brasil em noite mágica

Considerada por muitos como a maior soprano do mundo, a russa Anna Netrebko, no auge de sua carreira, se apresentou com o tenor Yusif Eyvazov, na Sala São Paulo

7 ago 2018
21h05
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Puccini sabia das coisas. No dueto do primeiro ato de Madama Butterfly, logo após Cio-Cio San e Pinkerton trocarem as primeiras declarações de amor, o compositor deixa a orquestra tocando sozinha, em um breve silêncio a ser rompido por um pedido da jovem: "Queira-me bem", ela diz, hesitante. A frase não dura mais do que alguns segundos; mas, cantada com o misto de delicadeza, inocência e sensualidade, como foi pela soprano russa Anna Netrebko em seu concerto na noite de segunda, 6, na Sala São Paulo, desvenda ao público sentimentos de amor, desejo, medo e insegurança de forma tão intensa que é como se os estivéssemos conhecendo pela primeira vez.

É por momentos assim, por mais fugidios que possam parecer (e parte da graça é que eles de fato são), que vivem os aficionados por ópera. E não foram poucos os oferecidos por Netrebko no concerto que marcou a sua estreia brasileira, acompanhada de seu marido, o tenor do Azerbaijão Yusif Eyvazov, e de uma sólida Orquestra Acadêmica do Mozarteum Brasileiro regida por Jader Bignamini - deixando bem claro o que faz dela um fenômeno do canto lírico internacional, para muitos a maior soprano da atualidade.

O primeiro número da noite, o dueto do Otelo, de Verdi, já deu a pista do que seria a apresentação. Eyvazov é pura força e efeito (como na nota prolongada em E lucevan le stelle, ária da Tosca, ou na apropriação de maneirismos de antigos tenores em passagens como a ária Un Di all'Azzurro Spazio, de Andrea Chénier, de Giordano). Netrebko, por sua vez, não é apenas uma voz que, à medida que amadurece, permanece brilhante nos agudos e sólida nas regiões médias e graves: a cada papel, ela evoca uma atmosfera diferente, explorando coloridos diversos, da gravidade de árias como Pace, pace mio dio, La Mamma morta ou Vissi d'Arte, cantadas por mulheres ameaçadas em momentos de grande tensão, ao lirismo descompromissado da canção O Beijo, de Luigi Arditi.

Vê-la ao vivo é, por isso mesmo, testemunhar um espetáculo deslumbrante. O que não esconde o fato de que, em especial na segunda parte, o programa caracterizou-se pela falta de substância na seleção do repertório. No tema "o espírito do amor" cabe boa parte do repertório do século 19. Mas as escolhas dentro desse universo nem sempre funcionam. O trecho sobre os toreadores da suíte Carmen, de Bizet, por exemplo, dificilmente serve de introdução ideal para as árias de Tosca, cujo clima dramático por sua vez é logo implodido pela czarda de Kálmán (apesar da dança improvisada pela soprano ter levado o público à loucura). Da mesma forma, incluir Granada ao lado do dolorido intermezzo da Manon Lescaut só reforçou a estranheza da presença da célebre canção de Agustín Lara no programa.

E o que dizer da versão para O Sole Mio com que a noite se encerrou? Há duas respostas possíveis. A primeira: a ausência de outras grandes árias deixou no final, mesmo após duas horas e tanto de música, um gostinho de quero mais; a segunda: não há dúvida que, entre cena e canto, Netrebko consegue com qualquer música trazer abaixo um teatro. Em ambos os casos, não é pouca coisa.

Estadão Conteúdo

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