0

Em EP de estreia, dupla CTRL+N quer debater diversidade sexual através do pop

Duo independente formado pelos amigos Nigel Anderson e Haroldo França lança 'Grita', com seis músicas feitas "para quem pensa fora da caixa"

4 out 2018
17h05
  • separator
  • comentários

Enquanto alguns artistas brasileiros do pop continuam prendendo suas produções a fórmulas gringas ou gêneros como o funk, o brega e o sertanejo, novos nomes da cena independente começam a surgir com propostas e identidades sonoras que prometem revitalizar esse mercado. É o caso do CTRL+N, dupla formada por Haroldo França e Nigel Anderson, que estourou na internet em junho deste ano com o single 'Eu Prefiro' e lançou seu EP de estreia, 'Grita', na última sexta (28). "As pessoas do universo gay às vezes estão dentro de uma bolha, sem contato algum com o outro lado do mundo LGBT. Uma das propostas desse trabalho é disseminar o pensamento sobre essas questões exteriores", conta Haroldo, em entrevista ao Estadão.

Ao longo de seis faixas, a dupla de amigos paraenses aborda papéis de gênero, estereótipos de masculinidade, relações de poder no sexo e até o universo dos encontros de aplicativos, ao mesmo tempo em que não deixa os assuntos pesarem o clima da música. 'Play', que abre o EP, fala sobre a pluralidade de uma festa com "bichas pretas, bichas magras, meninos trans e travestis", enquanto mescla elementos eletrônicos e inusitados em uma estrutura pop. Encontrar exatamente esse equilíbrio entre a militância e a diversão, eles contam, é uma constante no processo criativo da dupla: "Estamos trabalhando muito com alegria, apesar de os assuntos terem consequências trágicas. Queremos trazer as pessoas para a festa de forma leve e com um convite à reflexão. Isso não tira o caráter de manifesto político da música".

Amigos desde a infância em Belém, Nigel e Haroldo explicam que a colaboração criativa para o CTRL+N começou meio que por acaso, como parte de uma brincadeira com um amigo fã de Beyoncé que inspirou o refrão de 'Eu Prefiro'. Desde o lançamento, a música viralizou e se tornou uma febre online, ganhando inclusive o apoio orgânico de nomes como Daniela Mercury, Anitta e Liniker. Hoje, ela já contabiliza mais de 200 mil visualizações entre plataformas como o Youtube e o Facebook.

Nada mal para amigos que produzem tudo sozinhos, desvendando tutoriais online dentro de um armário à prova de som, batizado carinhosamente de Nárnia. "As músicas partem das nossas inquietações, do que vimos acontecendo e do que vivemos. A gente tem algo muito forte contra os padrões de beleza. 'Play' é meio que uma cutucadinha nessa questão. Se você só brinca com um tipo de pessoa, só se depara com um padrão toda vez que sai de casa, é porque tem algo errado", explicam.

Além de 'Eu Prefiro' e 'Afeminada', ambas divulgadas anteriormente, 'Grita' também traz faixas como 'Armário', que fala sobre um relacionamento "assumido" e foi inspirada na notícia de uma travesti assassinada pelo namorado; e 'Pornô', sobre "expectativas irreais" durante o sexo: "Essa música tem muito a ver com a educação sexual, que [os gays] não têm. Se para os heterossexuais já é uma questão difícil, para nós é mais ainda. Acabamos aprendendo em filmes pornográficos, que normalmente são muito calcados em estereótipos nocivos e protocolos que, sabemos, não são verdade no mundo real", explica Haroldo.

No sábado (6), a dupla se apresenta às 19h30 no palco do SESC Santo Amaro, que marca também o primeiro show de lançamento do EP. Para Nigel e Haroldo, a música produzida pelo CTRL+N não chega a ter fronteiras de gênero ou orientação sexual, e a esperança dos dois é a de que o material chegue ao máximo de pessoas possíveis: "Nossa expectativa é que os ouvintes pensem no que a letra diz, mas ao mesmo tempo tenham vontade de rebolar e dançar. Nossa música também é expandida para o público heterossexual que quer pensar fora da caixa e sair da zona de conforto".

Estadão

compartilhe

comente

  • comentários
publicidade
publicidade