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Crítica: Silvia Machete reconstrói a própria alma na neblina de 'Rhonda'

Ao falar de um desamor real que a dilacera, Silvia atinge o ponto da sonoridade simples e invernal em que a sinceridade vale mais

13 jul 2020
05h11
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Dos álbuns que saem como necessidades, urgentes e doídos, Rhonda, da cantora Silvia Machete, tem uma fala e uma ambientação acústica que o torna um dos mais sensíveis e bem desenhados projetos lançados nesse urgente e doloroso ano de 2020. Talvez esteja aí o alvo em que Silvia tenha acertado sem mirar quando tirou das feridas abertas por uma paixão que se foi o material para suas canções. Quando fala de si, ela atinge muita gente, ocupando um vazio invernal de quarentena que recebe com reconforto o que ela diz, da forma como diz. Ao contrário de seus outros álbuns, e contrapondo-se mais explicitamente à sua fase cabarística de Extravaganza, de 2010, Silvia se coloca sobre uma base sonora mínima, vaporosa e flutuante, que mesmo seca parece preencher tudo, produzida pela bateria de Vitor Cabral, pelo baixo de Alberto Continentino, pelo teclado de Eduardo Lima, o Dudinha, e pela guitarra de João Erbetta, todos sabendo exatamente onde precisavam fazer o todo chegar.

É curioso o som noturno e suspenso sair de um eixo de banda que poderia levá-la para campos tão diferentes. Mais precisamente, para o rock. Mas aí entram as mãos dos produtores, essas figuras que podem fazer uma mesma canção ser tantas outras, com as mesmas notas e a mesma letra, dizendo coisas tão diferentes. Alberto Continentino e Dudinha assumiram essa função. Vê-los todos tocar em um vídeo no YouTube de With No One Else Around, em uma sessão de estúdio, mostra que não há mistérios, tudo é muito relaxado, leve, e que o mesmo que o groove faz pela voz a voz devolve ao groove quando todos estão em sintonia. Silvia encontra o melhor assento de sua voz, fazendo até estranhá-la agora em Tropical Extravaganza, como se lá ela estivesse no lugar errado, tentando cantar uma euforia que não era sua.

Mas aí entra o coração da cantora, esse figura que pode fazer uma mesma canção, com a mesma letra e as mesmas notas, ser tantas outras. Elis Regina dizia que o que canta não é a voz. Ela está ali, passando por um sistema anatômico complexo, para apenas produzir o som, a nota, o efeito. E isso, na lógica de Elis, não era nada. Quem canta em Rhonda é uma lembrança, uma tristeza, uma boa história não vivida ou aquilo que sobrou da mulher que acabou de viver a despaixão em a toda sua violência, sem que nada tenha restado sob seu controle a não ser o instante que vira música. Silvia Machete canta todas as canções em inglês, as que fez sozinha ou em parcerias, e mais a regravação de With No One Else Around, que Tim Maia lançou em 1976. Um inglês que ela fala bem por ter vivido nos Estados Unidos e que praticamente se escolheu para abrigar as melodias desde que as primeiras letras chegaram. O que ela diz sobre isso, sobre o fato de cantar em inglês, é algo bem interessante, reforçando mais uma vez a frase de Elis: "A voz vem completamente diferente quando se canta em inglês. As canções ficam diferentes. Sinto que canto melhor nesse idioma."

Os fantasmas parecem atormentá-la em Forget to Forget, quando Silvia resolve fugir da noite e correr para longe daquele que é, ou que deveria ser, "apenas um caso de amor". Soon, letra que o português Tomas Cunha fez para uma música de Continentino pensando em Silvia, é para os seus dias de combustão. Uma possível tradução: "Fogo, seu nome em chamas. Um beco solitário ecoa o sol nascente. Desejo, desejo flamejante. Seu nome ainda queima na minha boca." Messy Eater, uma parceria de Silvia com Continentino e o norte-americano Nick Jones, é a entrega funky e carnal. Cactus, uma quase balada sessentona, e Lips, a abertura com o clamor pedindo os lábios em suas mãos e o amor em seus bolsos. Há cores novas em Cactus e Great Mistake, parcerias com o guitarrista Emerson Villani, um grande músico de São Paulo que começou sua estrada tocando com a Patife Band, nos anos 80. Um som de guitarra mais puro, de menos efeito e mais ataque, menos espacial, mais terreno.

Silvia vinha na entrevista falando tudo com um fio de voz que parecia prestes a se romper, até que uma pergunta não muito usual em uma conversa sobre o lançamento de um disco se fez necessária. "Você está triste?" Silvia então diz que sim, chora um pouco e lembra do amor que se foi com lucidez. "Eu tive a maturidade para ver a beleza daquela situação". Não é preciso matar a memória daquele que partiu, um desejo tão injusto quanto inútil. Ela prefere guardá-lo. "Um amigo me disse que a melhor coisa que uma pessoa pode fazer por outra é inspirá-la.

Foi inspirada que Silvia saiu do Rio de Janeiro para morar em São Paulo e, um tempo depois, na Califórnia, antes de voltar a São Paulo mais uma vez. Aos 44 anos, ela passou pelo circo, fez performances nas ruas de Paris, se apresentou em Portugal, morou em Nova York e em São Francisco. Fez trabalhos com Erasmo Carlos, Hyldon, Rubinho Jacobina e Edu Krieger e levou o prêmio de melhor show de 2010 pela APCA.

Cria de palcos, em shows como os da turnê iniciada em 2015, quando se apresentou ao lado de Eduardo Dussek, no espetáculo Dussek veste Machete, e de todos os discos lançados desde 2006, quando estreou com Bomb of Love - Música Safada para Corações Românticos, Silvia sente não ter uma casa para se apresentar no momento. "Não quero ser egoísta, mas isso, não ter como fazer show, racha o meu coração." E olha que suas canções nem precisam disso, o palco, para chegar onde deveriam.

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