PUBLICIDADE

Benito di Paula derruba rótulos no disco de inéditas 'O Infalível Zen'

Ao lado do filho, Rodrigo Vellozo, cantor, compositor e instrumentista passeia por gêneros musicais e experimentações

25 nov 2021 05h10
ver comentários
Publicidade

Quando o disco Um Novo Samba chegou às prateleiras, em 1974, Benito di Paula enfrentou logo de cara uma questão que o perseguiria desde então: a necessidade de rotulá-lo. Músicas como Se Não For Amor e Retalhos de Cetim deram um nó na cabeça do mercado, nessa mistura de piano com batida forte. Era samba? Era romântica? Acabaram encaixando-o no samba-joia, um tipo mais romântico e que, até hoje, não se encaixa. Agora, Benito quebra as amarras e rótulos com o novo O Infalível Zen.

Lançamento deste domingo, 28, ao qual o Estadão teve acesso com antecedência, o novo disco faz um passeio pela sua carreira, trazendo todas as suas facetas como compositor, cantor e instrumentista. Há instrumental, samba, músicas de levada mais contemporânea e até forró. São músicas que não conseguiram ser gravadas e lançadas na época em que foram compostas por Benito, outras são trabalhos mais recentes.

"Olha, eu não queria fazer esse disco no começo", conta Benito di Paula, com sua sinceridade habitual, em entrevista por vídeo ao Estadão. "Eu disse 'chega, já tá bom'. Aí o Rodrigo (Vellozo, seu filho) insistiu, disse para a gente fazer junto. Eu acabei topando. Fui ao estúdio, toquei no piano. Hoje em dia, é uma coisa muito diferente". Rodrigo explica a insistência. "Acho que é importante. Tinha de ter um registro do lado ousado, criativo e sem limites do meu pai. Tem tudo a ver com o que se faz hoje", diz.

Faixa a faixa

Logo de cara, a música Dona Já da Baiana quebra qualquer expectativa que o ouvinte poderia ter: é um samba, com foco na voz de Benito, que troca o piano pelo violão - instrumento, aliás, que formou o artista quando, ainda jovem, dava aulas para jovens músicos. Além do domínio das cordas, ele mostra novamente como controla sua voz, que se mantém marcante, com graves que acentuam as tonalidades e emoções. Destaque ainda para a interessante faixa Improvation, em que toca um jazz improvisado no piano.

Outro momento que Benito mostra que não fica confortável navegando em um mesmo estilo é em Um Piano no Forró. Tomando Luiz Gonzaga como referência, um dos baluartes da música do friburguense e já homenageado no sucesso Sanfona Branca, Benito faz um forró sincopado pelo piano, mostrando que gêneros e influências podem, e devem, se misturar. O samba natural de sua voz, junto com o piano associado à música mais erudita, brinca com a melodia totalmente formada em cima do forró, com triângulo ao fundo.

"As músicas não estavam guardadas, elas estavam esperando a oportunidade de serem gravadas. É outra coisa. Música não se coloca na gaveta", explica ele sobre essas composições feitas "há algum tempo". Sobre Dona Já da Baiana, fica a questão: como foi ir do piano para o violão? "Tenho um aqui guardado, do meu pai, que comprou (na época) por 2,5 mil cruzeiros. É um violão legal. Mas o Rodrigo sugeriu tocar violão. Perguntei: 'Como?'", conta, aos risos. "Quando vou tocar violão, sempre falo: 'Yamandu (Costa, violonista), me desculpe'."

O Infalível Zen, que dá título ao álbum, traz a roupagem mais contemporânea que Rodrigo Vellozo tem proporcionado ao pai nos últimos anos, como foi na canção Aurora. Há uma imprevisibilidade maior nas notas e na melodia, brincando ainda mais com as possibilidades vocais do pai. O mesmo pode ser visto em Uma Onda no Tempo, canção de pegada de jazz, e Voz Calada. O tom grave de Benito se junta com os tons mais agudos de Rodrigo, fazendo disso uma boa mistura.

Parceria

Nos bastidores, ainda tem Romulo Fróes assinando a direção artística e trazendo mais do ar contemporâneo para O Infalível Zen. "É engraçado, eu não faço música com ninguém. Tenho poucos parceiros. O Chico Anysio, o Adoniran Barbosa e o Márcio Brandão", conta ainda Benito, que neste álbum assina duas composições com o filho, Voz Calada e Uma Flor. "Agora, Rodrigo chegou sugerindo fazer parceria com o Romulo Fróes, com o Rodrigo Campos. Nem sei direito como fazer. Mas fiz a música e mandei. Deu nisso."

Retalhos da vida de Benito também podem ser vistos em músicas como Aurora, em que homenageia a neta, e o belíssimo bolero Meu Retrato, uma homenagem a Nelson Gonçalves. Nela, inclusive, tem um recado alto e sonoro de Benito, logo no começo da canção, para quem ainda não entendeu que ele deu um basta nessa tentativa de colocá-lo em uma caixinha: "Tudo o que eu vivi valeu a pena. Eu me recordo de toda cena. Tudo se modificou. Se eu errei, foi do meu jeito".

Rodrigo Vellozo mostra maturidade musical

É impossível não mencionar Rodrigo Vellozo ao se falar sobre O Infalível Zen. Primeiramente, ele assina o álbum ao lado do pai - é um disco, assim, de dois criadores, de épocas diferentes, mas que conversam e se entendem. Mais do que isso: o público, nos últimos anos, pôde ver Rodrigo se formar nos palcos. Desde pequeno, ele participa dos shows de Benito di Paula. Com o tempo, foi ganhando mais espaço. No disco ao vivo, de 2009, fez uma apresentação marcante com a música Beleza Que É Você Mulher - álbum, aliás, que só existe novamente por insistência de Rodrigo.

No show mais recente realizado em São Paulo, dividiu o palco o tempo todo com o pai. Dois pianos, nenhum outro músico ao fundo. Na plateia, era visível a emoção do público não só com a qualidade desses dois músicos, como também pela relação de cumplicidade de pai e filho: quando Benito não sabia qual música tocar, Rodrigo o auxiliava; na interação com o público, o filho também fazia as vezes de intermediário de conversas e pedidos; e, principalmente, na hora que os dois tocavam ou cantavam juntos, se percebia uma harmonia rara em shows.

No novo trabalho, além de dividir faixas com Benito em O Infalível Zen, Uma Onda no Tempo, Aurora, Voz Calada e na derradeira Nel Mezzo del Cammin, também ganha independência em Uma Flor, com uma pegada de bolero, e na interessante Ao Mundo o Que Me Deu, com toques de guitarra. Além disso, vale dizer, Rodrigo está com um trabalho cada vez mais consistente na carreira solo: em 2020, lançou o álbum O Mestre-Sala da Minha Saudade, em homenagem o irmão, e filho de Benito, morto em 2019.

Trajetória

"Originalmente, não era o que a gente tinha planejado", conta Rodrigo, sobre O Infalível Zen ser assinado por ele e seu pai. "Mas o disco é uma coisa viva. Aconteceu dessa maneira. É a mesma coisa com a minha trajetória, tudo foi muito natural. Eu trabalho com meu pai desde muito pequeno. Nossos momentos de palco, de que a gente estava sentindo falta, são os que realmente fazem parte da nossa vida. Virou uma coisa natural. Desembocou nesse momento agora: esse show e esse novo disco que aconteceu assim, foi natural. Isso é bonito. Não planejamos ser exatamente dessa forma", acrescenta.

Estadão
Publicidade
Publicidade