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Análise: Sérgio Ricardo foi um artista múltiplo, de engajamento político e amoroso

São dele, por exemplo, as trilhas sonoras de clássicos como 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' e 'O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro', ambos de Glauber Rocha

14 jan 2021
05h10
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Se um dia existiu artista múltiplo, este foi Sérgio Ricardo. Nascido em Marília, interior de São Paulo, com o nome civil de João Mansur Lutfi, foi músico, ator, cineasta e polemista.

São dele, por exemplo, as trilhas sonoras de clássicos como Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, ambos de Glauber Rocha, entre muitas outras colaborações como "trilheiro" de cinema.

Por estas participações em obras de viés político, Sérgio Ricardo é tido como compositor engajado, autor exclusivo de "músicas de protesto", como se dizia. Engano. Ou, pelo menos, engano parcial. Se é verdade que o compositor se preocupou com a política e procurou expressar esse sentimento em suas obras, também não se pode esquecer sua participação na bossa nova, mais voltada para o amor, o sorriso e a flor do que para as obscenas contradições sociais do país. Sérgio é autor, por exemplo, da belíssima e romântica Folha de Papel, cujo engajamento, digamos, é apenas amoroso.

Como polemista, talvez nenhum ato seu se compare à participação no Festival da Música Popular Brasileira de 1967. Nele, Sérgio Ricardo apresentou seu Beto Bom de Bola, cuja letra falava da ascensão e queda de um ídolo do futebol inspirado em Garrincha. A composição, de melodia e harmonia um tanto assimétricas, não agradou ao público, que passou a vaiar. Sérgio bem que tentou interpretar a música, mas nem mesmo ele conseguia ouvir o que estava tocando e cantando. Irritado, quebrou o violão e jogou-o em cima da indócil plateia.

A performance marcou a história dos festivais da canção. E também a própria trajetória do compositor. Anos mais tarde, no princípio da década de 1990, escreveu uma autobiografia precoce com o título de Quem Quebrou Meu Violão. O livro, bastante interessante, mas marcado por certo ressentimento, usa o incidente como metáfora do fim das utopias de uma geração.

As raízes do modo de Sérgio Ricardo ver o Brasil e o mundo devem ser buscadas em uma época e sua formação. Com trajetória forjada no Centro Popular de Cultura da UNE e nas lutas políticas dos anos 1960, suas ideias só poderiam ser progressistas e combativas. Apesar de sua presença um tanto lateral no romantismo cool da bossa nova, era mesmo nas lutas sociais que Sérgio encontrava seu hábitat natural e expressão de sua generosidade.

Foi assim também quando resolveu fazer cinema. Era lógico que lá chegasse, sendo irmão do mitológico Dib Lutfi, inventivo fotógrafo e maior câmera do Cinema Novo. Sua estreia se deu em 1961 com o curta O Menino da Calça Branca, filme de corte poético, mas do qual a crítica social não é ausente.

Em seu longa-metragem Esse Mundo É Meu, de 1963, visualizam-se os méritos e o didatismo de um certo modo do fazer cinematográfico no Brasil. Em 1974, com Alceu Valença e Geraldo Azevedo, realiza o alegórico e anárquico A Noite do Espantalho.

Ano passado, lançou Bandeira de Retalhos, produto de sua própria experiência de vida. Morador do Morro do Vidigal há muitos anos, Sérgio Ricardo havia testemunhado em 1977 uma tentativa de desocupação e a reação da comunidade, em pleno regime militar.

O filme encena um clássico triângulo amoroso, cujo vértice é a bela Tiana (Kizi Vaz), em meio à luta pela moradia. Pessoas da comunidade e da ONG Nós do Morro atuam no longa e contracenam com atores como Antônio Pitanga, Babu Santana, Bemvindo Sequeira e Osmar Prado.

Com a morte do artista, aos 88 anos, Bandeira de Retalhos passa a ser uma espécie de testamento. Une duas pontas da vida, a do jovem contestador dos anos 1960 e a do idoso ainda inconformado com a permanência das injustiças sociais. Trajetória de grande coerência, uma raridade entre nós.

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Estadão
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