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Rick Bonadio, o homem por trás dos Mamonas Assassinas  Foto: Arquivo pessoal

Rick Bonadio, o homem por trás dos Mamonas Assassinas, relembra tragédia: 'Tenho sequelas emocionais até hoje'

Em entrevista exclusiva ao Terra, produtor musical falou da amizade com o grupo, fama, dinheiro e legado

Imagem: Arquivo pessoal
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2 mar 2026 - 04h57
Rick Bonadio em seu primeiro estúdio, na zona Norte de São Paulo
Rick Bonadio em seu primeiro estúdio, na zona Norte de São Paulo
Foto: Reprodução | Instagram

No universo da música, poucos nomes conseguem atravessar as décadas com relevância e resultados expressivos. Em solo brasileiro, Rick Bonadio, de 56 anos, é um bom exemplo de produtor musical que se consolidou no mercado por sua capacidade de revelar talentos.

  • Essa reportagem faz parte do especial Mamonas Assassinas - 30 anos de saudade, que traz histórias e relembra momentos do grupo que conquistou o Brasil

Responsável por produzir nomes como Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr., Rouge, CPM 22, Titãs, entre outros, o profissional se tornou um mito da indústria fonográfica. Não é à toa que sua empresa recebeu o nome de Midas Music, em alusão ao mito grego que narra a história de um rei que tinha o famoso “toque de ouro”: tudo que tocava virava ouro.

Mas nem sempre Rick Bonadio foi essa criatura titânica. Ele começou a ganhar projeção nacional quando lançou os Mamonas Assassinas, nos início dos anos 1990. Na época, era tão jovem quanto os músicos da banda e não tinha o repertório profissional que detém hoje. O primeiro e único álbum da banda foi produzido em seu “estúdio de fundo de quintal”, como ele chama, e o impacto que isso teve em sua vida é gigante. “Eu sou uma pessoa antes e depois dos Mamonas”, falou o produtor.

“Mudou completamente a minha vida, porque, de repente, eu fiquei conhecido. De repente, eu conheci as pessoas do mercado da televisão, os apresentadores, os diretores e as pessoas do rádio. Eu conheci as pessoas do show business. Se não fossem os Mamonas, eu não estaria aqui hoje" --Rick Bonadio em entrevista ao Terra

A origem dos Mamonas Assassinas

Da direita para esquerda: Bonadio posa com Dinho e outros músicos na juventude
Da direita para esquerda: Bonadio posa com Dinho e outros músicos na juventude
Foto: Arquivo pessoal

Rick iniciou mesmo na música nos anos 1980, cantando rap, mas foi no início dos anos 1990 que começou a construir seu lugar ao sol como produtor. Na mesma época, abriu a Bonadio Produções, o dito estúdio de quintal. Com pouca aparelhagem técnica, costumava trabalhar com artistas independentes e também gravava jingles. Foi nesse cenário que conheceu a banda Utopia, que no futuro virariam os Mamonas.

“Eu tinha um estúdio ali no pé da Serra da Cantareira. Era um estúdio muito básico, muito simples. Foi no começo da minha carreira como produtor e eu colocava anúncio em um jornal gratuito dizendo que gravava artistas independentes em geral. Eles viram o meu anúncio e vieram até o estúdio como Utopia para fazer um disco comigo, e eu acabei fechando com eles. A gente ficou brother, éramos amigos. Eram caras muito divertidos, alto-astral e tinham um som legal, mas estavam fazendo um rock meio fora da época. Eles teriam acontecido nos anos 1980, mas isso já tinha passado, e eu falava isso para eles.”

“Eles eram uns caras superdivertidos, supercarismáticos, mas não vi nada demais na banda. Era uma banda de moleques de Guarulhos, não tinha grandes coisas" -- Rick Bonadio

O primeiro álbum da banda Utopia foi pago e chegou a ser lançado, mas não foi um sucesso. A grande virada começou a acontecer para os meninos da banda e para Rick Bonadio quando o vocalista Dinho decidiu gravar algumas canções para cantar, de brincadeira, em um churrasco. As faixas eram nada mais, nada menos que Robocop Gay e Pelados em Santos. “Ele gravou de um jeito brega, bem Reginaldo Rossi, assim, e foi nesse momento que, quando eu ouvi, eu acho que tudo aconteceu. Foi um clique que deu na minha cabeça. Eu ouvi e falei: ‘Meu, se a gente pegasse isso e misturasse com o rock do Utopia? Talvez dê certo’. Eu chamei eles e falei que, assim, eu conseguiria uma gravadora. Eles ficaram meio resistentes, mas, no final, deu muito certo.”

“Eles sempre foram os Mamonas Assassinas como pessoas, mas, musicalmente, eles precisavam de um empurrãozinho, e creio que foi isso que aconteceu", analisou o produtor.

'A gente foi atropelado pelo sucesso'

Segundo Bonadio, o quinteto Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec, Sérgio e Samuel Reoli queria tocar "rock sério" e não colocava muita fé no estilo mais divertido. Porém, depois que resolveram embarcar nessa ideia "fora da caixa", começaram a produzir novas faixas e, por causa da mudança estrutural que o grupo estava passando, um novo nome para a banda foi solicitado.

Muitas sugestões foram avaliadas até chegar a Mamonas Assassinas. Ainda nesse processo de transição e produção, o grupo foi oferecido à Sony Music e à EMI, duas empresas de renome na indústria da música. Enquanto o primeiro selo os recusou, o segundo fechou contrato e, daí em diante, segundo o próprio Rick Bonadio, o grupo explodiu. “A gente, realmente, foi atropelado pelo sucesso. Eu tinha praticamente a mesma idade deles, não tinha experiência. Eu não era conhecido, não era esse cara experiente que sou. Então, tudo foi surpresa. Acho que o que posso dizer é que tudo foi aprendizado e surpresa no tempo que a gente teve essa vivência. Inclusive financeiramente, a gente ganhou uma grana enorme. Nem imaginava que ia ganhar tanto dinheiro naquela idade, naquela época, fazendo aquilo.”

Fechar [x]
Especial 30 Anos

Mamonas Assassinas

 

A trajetória meteórica do grupo que mudou o humor na música brasileira e se tornou um fenômeno imortal.

[Jaqueta de integrante]
[Grupo Mamonas Assassinas]

Atenção, Creuzebek!

A banda de Guarulhos conquistou o Brasil em apenas 7 meses de sucesso estrondoso. Ouça a introdução clássica clicando no ícone ao lado.

3Mi
Discos Vendidos
182
Dias de Turnê
10
Músicas no Top 1
1995
Lançamento

A Formação

[Dinho]
Dinho
Vocalista
[Bento Hinoto]
Bento Hinoto
Guitarra
[Sérgio Reoli]
Sérgio Reoli
Bateria
[Samuel Reoli]
Samuel Reoli
Baixo
[Júlio Rasec]
Júlio Rasec
Teclados

Assista aos Hits

Pelados em Santos
Vira-Vira
Robocop Gay
Sabão Crá-Crá
Jumento Celestino

Linha do Tempo

UTOPIA

A banda começou com um som sério e progressivo antes da virada cômica.

EXPLOSÃO

Saíram do anonimato para as maiores audiências da TV brasileira em meses.

Dicionário

Creuzebek

Codinome do produtor Rick Bonadio.

Brasília Amarela

O maior símbolo visual da banda.

Quando o produtor fala de ganhar dinheiro, ele não está sendo modesto ou eufemista. Em 12 horas, mais de 25 mil exemplares do álbum dos Mamonas Assassinas, que ganhou nome homônimo ao da banda, foram vendidos. Em 100 dias, mais de 1 milhão de cópias. A obra ainda bateu recorde mundial como o disco que mais vendeu em menos tempo, com mais de 3 milhões em menos de um ano. Além disso, também bateu o recorde de disco musical de estreia mais vendido da história da indústria brasileira.

“Eles tinham o cachê mais alto do Brasil, e isso aconteceu em dois meses" -- Rick Bonadio

Em ascensão meteórica, os Mamonas rapidamente passaram a ser a banda número um do País. “Chegamos a cobrar US$ 100 mil por show”, disse Rick sobre o cachê. “Naquela época, tudo era dolarizado. Eu não sei por quê. A gente chegou a fazer oito shows em uma semana. Se você pensar assim, que é um cachê muito alto, o show dos Mamonas hoje custaria pelo menos R$ 1 milhão. Era um negócio absurdo.”

O sucesso dos Mamonas Assassinas foi tão grande que o grupo era disputado por emissoras de televisão e de rádio. “Era difícil. Eu tinha que dizer não para a Globo”, relembrou Rick, que também recordou que, mesmo em ascensão e quebrando diversos recordes, ainda assim houve quem rejeitasse a banda. “A MTV, por exemplo, ignorou os Mamonas. Só depois que eles estouraram muito é que tiveram que engolir. Eles nem ganharam o prêmio de revelação naquele ano. Tipo, como assim? Quem foi mais revelação que eles?”, questionou.

'Eu tenho sequelas emocionais até hoje'

Rick Bonadio
Rick Bonadio
Foto: Reprodução | Instagram

Com cerca de nove meses de carreira, no auge do sucesso e durante a turnê do álbum de estreia, os Mamonas Assassinas foram vítimas de um acidente aéreo no dia 2 de março de 1996. Eles tinham acabado de encerrar a parte nacional do circuito de apresentações e fariam sua estreia em Portugal, mas não chegaram pisar fora do Brasil. No dia, Rick Bonadio lembra que estava em casa quando foi avisado de que a aeronave havia saído do radar. Logo depois, chegou a confirmação de que não havia sobreviventes. “Foi um sofrimento enorme, muito difícil, porque eu era muito jovem e, assim, eram meus amigos.”

Segundo ele, a perda deixou marcas profundas. Apenas alguns anos depois, entendeu o que, de fato, havia passado. “Fiquei um tempo doente e tenho sequelas emocionais até hoje. Não foi uma coisa fácil. Tive transtorno pós-traumático, que, na época, eu nem sabia. Tive vários problemas, mas pensava: ‘Tenho que continuar, eu quero fazer outro artista’. Não tinha muita possibilidade de ficar parado. Por mais que a gente tivesse ganhado dinheiro, não tinha resolvido as coisas. Tinha muitos planos, muitos sonhos.”

Além do TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), o produtor também teve muitos problemas com viagens depois do episódio. A maturidade ajudou a lidar com muitas questões, mas para outras ele não nega que precisou de apoio médico. “Tinha pânico de avião. Mas também tinha pânico de andar de carro. Tive síndrome do pânico seríssima. A depressão fazia parte da situação, eu acredito, mas tive crises de ansiedade também. Na época, não existiam esses nomes, eu só fui saber que tive isso há uns 10 anos, quando estava resolvendo algumas questões e a psiquiatra me explicou que isso era por causa do trauma”.

Relatório Técnico

Reconstituição da queda do avião

Análise passo a passo a manobra de arremetida e colisão; clique no botão abaixo para ver a simulação

Voo: PT-LSD
Impacto: 23:16h
 
 
 
 
Serra da Cantareira

Análise do Radar

Inicie a simulação para observar o comportamento da aeronave PT-LSD nos momentos finais.

23:02 • A CHEGADA

Tempo fechado em Guarulhos. Condições meteorológicas desfavoráveis para pouso visual.

23:05 • ARREMETIDA

O piloto decide arremeter por falta de visibilidade. O avião ganha altitude novamente.

23:14 • ERRO DE CURVA

A torre solicita curva à direita, mas a aeronave curva à esquerda, em direção à Serra.

23:16 • COLISÃO

Impacto no Morro do Chapéu. Fim da trajetória da banda Mamonas Assassinas.

 

Depois da morte dos Mamonas, para além das questões emocionais, Rick Bonadio também enfrentou um dilema profissional: “Sem eles, eu voltei à estaca zero”, disse o produtor musical. E, naquela situação, tudo o que ele não queria era ser considerado um “one hit wonder” -- pessoa de um sucesso só. Ele estava determinado a acontecer. “Era só nisso que eu pensava. Depois de um tempo, fui fazer outra banda.”

“Fiz uma banda que se chamava Lagoa, que não deu em nada. Depois veio o Chorão. Ele me entregou uma fita e falou: ‘Ó, meu, estou procurando você, porque o que você fez com os caras [Mamonas], foi f***. Você tem que fazer isso com a minha banda também’. Lembro claramente disso. Eu os contratei para produzir o Charlie Brown. Depois fui contratado na Virgin Records, pela EMI, e levei a banda. Graças a Deus, foi um grande sucesso.”

‘Mamonas seriam cancelados hoje em dia’

Rick Bonadio
Rick Bonadio
Foto: Reprodução | Instagram

Após 30 anos do trágico acidente aéreo, para além das sequelas emocionais, Rick também guarda boas memórias de tempos que não voltam, a experiência valiosa no mercado que adquiriu e, mais importante do que isso, gratidão. “Trabalhar com os Mamonas me ensinou tudo. Depois deles, peguei as manhas. Porque, quando a gente erra, a gente aprende, mas, quando acerta nesse nível, aprende muito mais.”

Ao longo dos anos, Rick Bonadio até tentou usar sua expertise para emplacar algo similar ao grupo, mas, segundo ele, foi uma conjunção de fatores muito específica que fez da banda o fenômeno que foi: personalidade, química com o produtor e o tempo em que estavam, os anos 1990. O showman acredita que esse 'alinhamento cósmico' permitiu que tudo acontecesse da forma que foi: meteórica. Hoje, com o avanço do discurso politicamente correto e com o advento das redes sociais, ele não vê isso se repetindo. Pelo contrário, pensa que, se estivessem vivos ou tentassem fazer sucesso no mercado atual, talvez os rapazes dos Mamonas Assassinas não tivessem a mesma sorte ou tanta recepção do público.

“Os Mamonas não funcionariam hoje. Eles seriam cancelados, impedidos, banidos, como tantos outros que já tentei fazer e tiveram problemas. Atualmente, temos um problema que acaba com a qualidade musical, que é o policiamento artístico. Ou você faz arte ou se enquadra. No momento em que você se enquadra, a música, o cinema e tudo passam a funcionar em torno de um discurso X. Aí você não tem mais qualidade, porque ela vem da experimentação, de tentar um monte de coisas erradas. É aí que, às vezes, sai algo muito bom. Só que hoje ninguém pode errar, porque está proibido. Os Mamonas não teriam chance hoje", analisou.

Fonte: Portal Terra
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