Marcela Ceribelli faz sucesso com trabalho pela sobrevivência das mulheres e sem vontade de falar de si
A escritora e podcaster é criadora da plataforma Obvious, com conteúdo de comportamento voltado ao público feminino
Em um momento das redes sociais em que cada vez mais pessoas exibem a própria vida diariamente em troca de oportunidades comerciais, Marcela Ceribelli prefere caminhar em outra direção. Publicitária por formação, ela fundou a plataforma Obvious há dez anos com o intuito de criar conteúdos de comportamento e autoconhecimento que ajudassem as mulheres a conquistar a felicidade.
- Marcela Ceribelli é uma das participantes do Festival Fronteiras, evento que acontece nos dias 7 e 8 de março, em São Paulo, e que conta com apoio do Terra
Passada uma década, o perfil já tem 1,6 milhão de seguidores, uma audiência fiel, e Marcela enxerga que seu maior propósito atualmente é ajudar na sobrevivência das mulheres.
"Sou uma otimista em relação à equidade de gênero, mas sou tão otimista quanto não tenho pressa. Talvez não esteja aqui para ver, mas acredito. Dentro do que posso fazer, estou aqui semeando as minhas sementinhas. Quero que as mulheres foquem naquilo que vai nos tornar mais fortes e com mais ferramentas para, por exemplo, saber ir embora antes de sofrer uma violência física que pode acabar com a sua vida", diz Marcela.
"Que a gente entenda que toda agressão começou com uma relação de amor. E não é porque um dia foi amor que não vai vir a agressão. Então, como posso dar as ferramentas para que as mulheres enxerguem antes do pior?" -- Marcela Ceribelli
A podcaster e autora dos livros Sintomas – e o que mais aprendi quando o amor me decepcionou e Aurora: O Despertar da Mulher Exausta ainda completa: "Quando falo sobre desconstruir o amor romântico, estou trabalhando para as mulheres permanecerem vivas, porque cada dia tem uma nova notícia de que nos querem mortas. A evolução do meu trabalho talvez tenha sido reconhecer que a gente não está só lutando por felicidade, mas por sobrevivência."
Para conquistar esses objetivos, Marcela promove conversas, entrevista especialistas e abre diálogos em postagens nas redes sociais, no podcast Bom Dia, Obvious, nos livros que escreveu e também em eventos, como fará no Festival Fronteira, que acontece em São Paulo no próximo final de semana, nos dias 7 e 8, e irá reunir diversos artistas, comunicadores, escritores e pensadores para debater assuntos atuais.
Marcela Ceribelli irá coordenar a mesa O sonho da finitude: como lidar com a passagem do tempo, que contará também com Mirian Goldenberg, Mary Del Priore e Ediane Ribeiro. Ela diz ter ficado feliz de participar desse debate, pois escolheu como lema deste ano a frase: vai dar tempo.
A escritora quer "fazer as pazes com o tempo", procurando ter menos pressa, estar mais presente em cada momento e priorizar mais as relações pessoais no dia a dia. "Percebi que nunca vai sobrar tempo para as relações, porque o trabalho sempre vai atropelar. É uma necessidade básica, precisamos pagar as contas. Mas preciso priorizar as minhas relações e estar com pessoas que me nutrem do que há de melhor nessa vida. Não aguento mais ter relações baseadas apenas em digitar e em telas. Quero estar mais presente com as pessoas. Ao vivo e com a tela do celular para baixo."
Outro tópico abordado na conversa será a forma como a sociedade lida com o envelhecimento. Marcela diz ter exemplos em casa sobre como encarar o assunto: a mãe, a jornalista da Globo Renata Ceribelli, e a avó, Odete Ceribelli. "A sabedoria, acho que a minha mãe me permite dizer, vem completamente da minha avó. Minha avó é uma mulher de 94 anos com sonhos, desejos, planos e muita alegria de viver. Ela vive o presente. Minha mãe atravessou uma idade que é o marco dos 60, em que as mulheres passam a ser tratadas como invisíveis e cobradas de que servem pouco para a sociedade. Minha mãe vai lá e fala: 'Na minha vez, não. Vocês vão ter que entender que mulheres com 60 anos sentem prazer, continuam tendo uma vida hiperativa, com vontade e com libido, no sentido mais amplo da história."
Além das inspirações na mãe e na avó, Marcela também tem as experiências pessoais e familiares como um ponto de partida para o trabalho que realiza. "Nasci em laboratório. Tenho um irmão gêmeo homem. Desde que nasci, tive um par que estava nos mesmos contextos, com a mesma idade, na mesma escola e que era recebido pelos adultos da mesma maneira. Só o que diferenciava a mim e ao meu irmão era o gênero", conta ela, que é irmã do acrobata Rodrigo Ceribelli.
"Só fui começar a entender que a minha crítica era de gênero mais velha, mas a minha mãe falou outro dia: 'Nossa, Marcela, você me dava umas surras'. Porque, em um dado momento, meu irmão podia levar a namorada dele para dormir em casa. Fui até ela e falei: 'Meu namorado não vai dormir aqui, não?' Já era uma sementinha lá nos meus 16 anos do que iria me tornar hoje."
Com a experiência que adquiriu ao longo dos anos e as plataformas que construiu na internet e na literatura, Marcela quer levar esses questionamentos para o maior número de mulheres possível. "Durante muito tempo, as vozes femininas eram homens falando. Tem vivências nossas que só vão poder ser contadas por mulheres", conclui.
