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Venda de games sobe, mas produção sofre com atrasos

Isolamento social faz com público procure cada vez mais games e transmissões de partidas, mas atrapalha criação de novos jogos; atrasos e filas de certificação podem afetar lançamentos, enquanto estúdios que estavam em crise ficam sem saída

10 mai 2020
05h11
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Os primeiros dias de isolamento social por conta do coronavírus pareciam ser tudo o que a indústria dos games pediu aos céus. Com muita gente inquieta e entediada em casa, os jogos contemporâneos - por vezes com mais de 100 horas de duração - se tornaram o meio perfeito para quem buscava uma distração permanente. Lançado no início de março, o jogo de tiro Doom Eternal teve a melhor estreia da série, iniciada em 1994.

Quase idílico, o jogo de simulação com animais fofos da Nintendo, Animal Crossing, virou um hit na quarentena, vendendo mais de 13 milhões de cópias em seis semanas.

Não é só: sem esportes tradicionais no ar, canais por assinatura agora mostram partidas de videogame. Já o Twitch, site especializado em transmissões de jogos, teve 3 bilhões de horas de vídeo visualizados em um único trimestre - um recorde, segundo a plataforma Streamlabs."O setor de jogos é uma das áreas para as quais as pessoas estão olhando e dedicando o tempo que usariam com outras atividades em um mundo normal", disse Mat Piscatella, analista da consultoria NPD Group, que acompanha o mercado de games nos EUA. "As vendas de jogos que estão sendo lançados estão quebrando recordes e mais recordes."

The Last of Us II, um dos mais aguardados da temporada, teve o lançamento adiado por conta do coronavírus
The Last of Us II, um dos mais aguardados da temporada, teve o lançamento adiado por conta do coronavírus
Foto: Divulgação / Estadão

Atrasos e incertezas

Mas quem acredita que esta pode ser uma era dourada dos games está enganado. Com uma crise de duração e intensidade ainda imprevisível, as empresas que criam jogos estão preocupadas se serão capazes de manter o ritmo de lançamentos. Afinal, escritórios e fábricas estão fechados e os designers de jogos estão em suas casas, com filhos disputando a atenção. De quebra, é preciso dizer que 2020 tinha tudo para ser um ano intenso para os games, por conta do lançamento dos novos consoles PlayStation 5 e Xbox Series X.

Fabricante do PlayStation e responsável por dezenas de títulos, a Sony disse que iria atrasar o lançamento de um dos jogos mais esperados dos últimos anos. Previsto inicialmente para 29 de maio, a aventura pós-apocalíptica The Last of Us: Part II agora chegará ao mercado em 19 de junho. Responsável pelo game, a Naughty Dog disse que o atraso ocorreu devido aos desafios de imprimir, enviar e vender as cópias físicas dos jogos.

A gigante japonesa não está sozinha. A Amazon, que pretende atacar o mundo dos games, adiou o jogo online New World para agosto, enquanto tenta trabalhar remotamente para "alcançar a qualidade desejada", disse a empresa. A japonesa Square Enix teve de adiar uma grande atualização para o seu jogo online "Final Fantasy XIV". A Microsoft, responsável pelo console Xbox e por outros títulos, adiou o lançamento do RPG Wasteland 3 de 19 de maio para 28 de agosto, com "desafios logísticos" entre as explicações.

Outras empresas acharam mais fácil se adaptar. A francesa Ubisoft, responsável por títulos como Far Cry e Assassin's Creed, tem 17 mil funcionários em 55 estúdios diferentes, espalhados pelo mundo. A empresa redistribuiu seus grupos de trabalho, uma vez que diferentes países têm regimes diversos para as ordens de confinamento.

"Mudamos parte de nosso trabalho de garantia de qualidade e testes da Índia para a China, enquanto nosso estúdio em Pune estava passando a trabalhar em casa", disse Yves Guillemot, presidente executivo da francesa. "Também aprendemos muito com nossos estúdios na China, que tiveram que lidar com isso primeiro e compartilharam suas experiências conosco".

Forrest Dowling, presidente do Molasses Flood, um estúdio independente com sede em Boston, disse que ainda espera lançar seu novo jogo Drake Hollow, em junho. Como o jogo é apenas digital, a empresa de Dowling tem mais flexibilidade. "Estamos analisando a situação a cada semana", disse ele.

Além disso, existem alguns aspectos do desenvolvimento de jogos que não podem ser realizados em casa. É o caso da captura de gestos, um processo caro no qual um ator fica em um palco sonoro e imita os movimentos dos personagens, com uma série de sensores plugados em seu corpo. Essas ações são filmadas e transformadas em animações que podem ser usadas nos jogos pelos desenvolvedores.

Sem agenda

Eventos cancelados ou atrasados também lançaram obstáculos no caminho dos lançamentos. Dowling havia planejado revelar Drake Hollow à imprensa na GDC, evento anual que aconteceria em março, em São Francisco, mas foi cancelado. As grandes fabricantes de jogos ainda estão se esforçando para descobrir os planos de substituição para a E3, a convenção de videogame realizada em junho, na qual os maiores lançamentos são anunciados.

Os desenvolvedores que dependiam desses eventos para fechar acordos de marketing ou encontrar financiamento para seus jogos, agora enfrentam consequências desastrosas. Jukka Laakso, diretor executivo do estúdio finlandês Rival Games, escreveu em um blog no dia 10 de abril que estava fechando a empresa. O estúdio já estava em crise, disse ele, mas a pandemia "interrompeu todas as chances que tínhamos e nos deixou perdidos no escuro, sem saída".

Outro grande obstáculo logístico para o setor dos videogames em 2020 será obter a certificação, um processo exigido pelos principais fabricantes de consoles: Nintendo, Microsoft e Sony. Antes que qualquer desenvolvedor possa lançar um jogo, essas empresas querem garantir que não haja falhas. Mas os testadores de certificação dessas empresas agora estão trabalhando remotamente, o que levanta questões sobre segurança e produtividade. Os desenvolvedores temem que, com tudo demorando mais do que o normal, uma enorme fila de espera possa surgir.

Possível

Se as medidas globais de quarentena continuarem depois de junho, atrasos para muitos dos lançamento de jogos podem ser inevitáveis. A exceção pode ficar com jogos lançados anualmente, como os jogos de tiro Call of Duty, que a Activision lança todos os anos, desde 2005. Ou títulos esportivos como o game de futebol FIFA, da EA, que sempre chega às lojas entre agosto e setembro.

Outros desenvolvedores estão tentando seguir como podem, entre reuniões online e pausas para ajudar os filhos com a lição de casa. Durante os primeiros dias da quarentena, a motivação do estúdio belga Larian Studios estava alta. Mas conforme as pessoas avançaram no isolamento, trabalhando em horários específicos ou incomuns, as dificuldades de comunicação e produtividade surgiram.

"Começamos a passar mais dias só nos comunicando, tentando resolver problemas e orientando as pessoas", disse Swen Vincke, presidente do estúdio. Segundo ele, a empresa está operando com 70% de sua produtividade normal e espera conseguir entregar uma versão para testes de seu novo jogo, Baldur's Gate 3, ainda este ano. "O desenvolvimento está em andamento", disse Vincke. "Estamos só diminuindo o ritmo." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Estadão
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