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Entenda por que os consoles de videogame estão em falta no mercado

Mesmo após as festas de fim de ano, jogadores continuam enfrentando cambistas, bots e uma imensa demanda na sua caçada aos dispositivos

16 fev 2021
05h10
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Desde o lançamento tão esperado em novembro, as novas gerações de consoles - Xbox Series X da Microsoft e PS5 da Sony - andam escassas. Nos últimos meses, jogadores inundaram centenas de milhares de lojas online, derrubaram sites, fizeram fila na porta das lojas e, com punhos em riste, expressaram toda a sua frustração quando os cambistas botavam as mãos nos dispositivos e depois os revendiam pelo dobro do preço.

Chris Vernon sentiu essa situação na pele. Num sábado de meados de dezembro, ele acelerou o mais rápido que pôde até uma loja da GameStop em Tennessee, nos Estados Unidos. Ele tinha passado semanas vasculhando a internet em busca de novos consoles PlayStation 5 e acabara de ouvir sobre a chegada de uma nova remessa numa loja próxima - era o único presente que seu filho de 10 anos, William, queria de Natal. O problema era que muitas outras crianças de todo o país também estavam pedindo novos consoles de videogame.

Vernon, que é apresentador de uma rádio esportiva americana e do podcast "The Ringer", chegou tarde demais. Esperou quatro horas na fila antes de ser informado de que as mercadorias tinham acabado. Voltou para casa, cabisbaixo, para contar as más notícias a William.

"O negócio está completamente caótico", disse Rupantar Guha, analista da GlobalData, uma empresa de análise na Grã-Bretanha.

A Microsoft e a Sony não forneceram os números totais de vendas dos aparelhos, que chegaram ao mercado durante uma onda de procura aos games impulsionada pela pandemia. Mas David Gibson, diretor de investimentos da Astris Advisory, empresa de consultoria financeira em Tóquio, estimou que a Sony vendeu pelo menos 6 milhões de PS5s até o final de 2020 e que a Microsoft vendeu 3 milhões de Xbox Series X e Series S.

"De muitas maneiras, as empresas não querem satisfazer a demanda logo de início. Elas querem abrir uma lacuna contínua entre a oferta e a demanda", disse Gibson. "Querem que haja agitação e empolgação por um bom período de tempo".

A escassez é coisa típica dos novos consoles, mas a pandemia de coronavírus exacerbou a situação com o fechamento das fábricas na China no início do ano passado. Então, a demanda por laptops e outros eletrônicos para trabalho remoto ocasionou uma escassez de chips e outras peças de computador. Chips com defeito também contribuíram para os problemas de abastecimento.

A Sony não quis comentar, referindo-se a um post de novembro no Twitter no qual a empresa mencionou a alta demanda. A Microsoft disse em comunicado que também viu uma grande demanda e que estava "trabalhando incansavelmente com nossos parceiros de fabricação e varejo para reabastecer o hardware do Xbox o mais rápido possível".

Mike Spencer, chefe de relações com investidores da Microsoft, disse em entrevista nesta semana que a empresa alcançou US$ 5 bilhões em receita de games num único trimestre pela primeira vez. A Microsoft vendeu todas as unidades do Xbox que possuía no último trimestre, disse ele, acrescentando que o fornecimento deve continuar limitado pelo menos até junho.

Os consumidores americanos gastaram US$ 7,7 bilhões em videogames no mês de dezembro, de acordo com o NPD Group, um aumento de 25% em relação ao ano anterior. As vendas de hardware somaram US$ 1,35 bilhão, o máximo para o mês de dezembro desde 2013, a última vez em que consoles de nova geração foram lançados. O Nintendo Switch, colocado à venda em 2017, superou as vendas do PlayStation e do Xbox no mês passado.

De cambistas a 'bots'

Um dos problemas mais irritantes nesse cenário todo são os cambistas. Alguns estão usando os chamados bots de compra - também conhecidos como "bots Grinch" - para abocanhar ofertas online mais rápido do que os humanos.

"Nenhum desses dispositivos está chegando aos clientes", diz o analista Guha. "Eles estão simplesmente desaparecendo em algum lugar no meio do caminho".

Grupos de cambistas online estão se vangloriando por terem comprado milhares de consoles, embora seus números possam estar exagerados. Em dezembro, o Walmart disse numa postagem em seu blog que bloqueou mais de 20 milhões de tentativas de bots de comprar PS5s num período de 30 minutos em novembro.

Os revendedores oferecem os consoles em locais como eBay e Facebook Marketplace por até US$ 1 mil, o dobro do preço de varejo. Guha disse que chegou a ver um PS5 anunciado por US$ 5 mil.

A Crep Chief Notify, empresa de revenda britânica usada por cambistas, disse ter mais de 5 mil clientes. O grupo cobra US$ 40 por mês por um pacote de ferramentas, conselhos sobre como revender itens e acesso a um servidor no Discord, um aplicativo de mensagens.

Max Heywood, estudante britânico de 19 anos que é um dos diretores da empresa, disse que a Crep Chief Notify não usou bots de compra, mas forneceu um software que monitora lojas online e notifica os usuários quando novos itens aparecem em estoque.

Bradley Gee, outro diretor-chefe da Crep, rebateu as críticas de que a empresa ajuda as pessoas a revenderem os consoles a preços mais altos.

"Para ser totalmente honesto, é uma questão básica de oferta e demanda", disse Gee. "Tem milhões de consoles disponíveis. Se você não conseguiu comprar, é uma pena".

Ele acrescentou: "Nós só ajudamos os membros a garanti-los. Aí eles podem fazer o que quiserem com o console".

Para vencer os cambistas, os compradores estão seguindo contas do Twitter que anunciam quando lojas como Target, Walmart e Best Buy recebem novas remessas. E um grupo de estudantes universitários percebeu um grande interesse numa extensão de navegador gratuita que eles criaram para notificar as pessoas quando as lojas digitais são reabastecidas.

Mais de 100 mil pessoas instalaram o OctoShop, uma extensão do Google Chrome feita por cinco alunos de escolas do Texas e da Pensilvânia. Rithwik Pattikonda, graduado em ciência da computação pela Universidade do Texas, disse que a ideia do assistente de compras surgiu durante a escassez de papel higiênico no início da pandemia. E se transformou numa ferramenta para passar na frente dos cambistas na corrida pelos consoles.

"O objetivo é dar poder às pessoas comuns", disse Pattikonda, de 20 anos. Ele acrescentou que vários milhares de pessoas disseram que o OctoShop as ajudou a obter um console.

Para muitos, porém, a busca continuou infrutífera.

Shannon-Leigh Bull, de Warwickshire, Inglaterra, vem tentando surpreender seu namorado com um novo PlayStation desde novembro.

"Às vezes, você espera mais de uma hora e, quando chega lá, esgotou", disse Bull, de 22 anos. "A sensação é de sonho destruído, porque você estava imaginando que realmente iria conseguir um videogame. Acho que vou desistir, nunca vou conseguir". / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Estadão
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