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Eventos marcam 1.700 anos de vida judaica na Alemanha

23 fev 2021
10h29
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Ao longo de 2021, diversidade cultural será celebrada com teatro, dança, mostras, discussões e comida kosher. "Queremos contrapor algo de positivo ao passado tantas vezes difícil e trágico", diz organizador.No século 4º, o imperador Constantino recebeu em Roma uma requisição do conselho da capital da província Colonia Claudia Ara Agrippinensium. Uma ponte precisava ser consertada, mas na época o dinheiro andava curto na localidade às margens do rio Reno.

Um judeu chamado Isaac se prontificara a ajudar. Para tal, contudo, ele precisava ter um posto no conselho municipal, o que só era possível por decreto imperial. Assim, no ano 321, Constantino escreveu: "Por lei de âmbito imperial permitimos que judeus sejam convocados para todos os conselhos municipais."

Enviado de volta à futura cidade de Colônia, no oeste alemão, o documento se tornou a primeira prova da presença judaica na Europa ao norte dos Alpes, ou como formula Andrei Kovacs, a confirmação de que "havia uma coexistência de diferentes religiões". Ele é o diretor da associação 321-2021: 1.700 Jahre Jüdisches Leben in Deutschland (321-2021: 1.700 Anos de Vida Judaica na Alemanha) e um dos organizadores do ano de jubileu.

O músico e empresário de 46 anos considera importante, especialmente nos dias de hoje, "tornar visível a vida judaica". Originário de uma família de judeus húngaros, seus avós sobreviveram ao gueto de Budapeste e ao campo de concentração de Bergen-Belsen.

"O antijudaísmo e o antissemitismo provavelmente existem há mais de 1.700 anos", reconhece. "Mas queremos também mostrar que mulheres e homens judeus contribuíram para a sociedade nos anos em comum. Hoje há várias iniciativas fantásticas para criar encontros entre judeus e não judeus em nossa sociedade."

Eventos para não iniciados

As comemorações do jubileu foram abertas neste domingo (21/02) com um ato festivo. Em homenagem ao decreto de Constantino, os eventos incluem uma mostra itinerante que poderá ser visitada tanto em Colônia quanto em outras cidades do estado da Renânia do Norte-Vestfália e em Berlim.

Em torno de polos temáticos como "Direito e injustiça", "Vida e convivência", "Religião e história intelectual" ou "Rostos, histórias e sentimentos", será possível vivenciar a história quotidiana e intelectual do judaísmo na Alemanha. Um podcast intitulado #2021JLID - Jüdisches Leben in Deutschland (Vida judaica na Alemanha) ilustra semanalmente a diversidade desse encontro de culturas.

"Nossa estratégia é ousar uma nova abordagem. Com eventos acessíveis aos não iniciados, queremos atingir a faixa mais ampla possível da sociedade, além de possibilitar uma aproximação fácil à cultura judaica", explica Andrei Kovacs.

Assim, no ano temático haverá, por exemplo, um teatro de bonecos explicando de forma lúdica os feriados judaicos, o festival de dança e performance Israel Ist real (Israel é real), degustação de culinária kosher, assim como um Verão Cultural Judaico. Devido à pandemia de covid-19, a programação transcorre tanto de forma analógica quanto digital. Em caso de lockdown, haverá sempre alternativas online.

Confrontando feridas abertas

Como explica Kovac, 1.700 Anos de Vida Judaica na Alemanha é intencionalmente planejado como um evento que não só olha para o passado. A perseguição antissemita e o Holocausto certamente são partes integrantes, porém não devem estar em primeiro plano no ano de jubileu, pois "queremos contrapor algo de positivo ao passado tantas vezes difícil e trágico".

Um dos pontos altos, para o organizador, é o projeto Sukkot XXL, em que se procurará apresentar de forma simples o feriado judaico do Sucot, a Festa dos Tabernáculos ou das Cabanas: "Pretendemos, juntos, construir e decorar um tabernáculo, ou sucá. A ideia é passar muito tempo dentro dela, lá comer juntos, beber, nos divertir, rir, discutir. Desse modo, queremos confrontar quaisquer possíveis misticismos, preconceitos ou fantasmas."

O arcebispado de Colônia contribuirá para o ano festivo com a discussão de esculturas antissemíticas como o assim chamado "Judensau" ("Porco Judeu") na catedral da cidade. O rabino coloniano Yechiel Brukner reivindica uma abordagem radical: "Seria estupendo se se decidisse, de forma corajosa e revolucionária: chega de imagens antijudaicas na catedral."

Em outras igrejas da Alemanha já se realizaram discussões sobre estátuas de escárnio semelhantes, mas até hoje nenhuma foi retirada. Movimentar o debate pode ajudar a trazer à luz preconceitos arraigados.

"Espero que neste ano consigamos tornar visíveis justamente essas 'feridas abertas', e estimular discussões importantes como essa", torce Kovacs. Mas no ano de jubileu quem estará em foco, acima de tudo, será a beleza e a convivência das religiões.

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