'Pai do Ano' tem Michael Keaton em atuação impecável e se equilibrando entre o drama e a comédia
Filme em cartaz nos cinemas, no entanto, erra de foco, deixando a potência da trama de Mila Kunis como coadjuvante
Vamos direto ao ponto: Pai do Ano é um bom filme. Michael Keaton está excelente, entregando uma performance que equilibra comédia e drama com a maestria de quem sabe exatamente o que está fazendo. O problema? O roteiro escolheu seguir o personagem errado.
A premissa é funcional: Andy Goodrich (Keaton) vê sua vida virar do avesso quando a esposa Naomi se interna em uma clínica de reabilitação por 90 dias, deixando-o sozinho com gêmeos de nove anos. Sem a menor aptidão para ser pai presente e ainda lidando com dívidas em sua galeria de arte, Andy se vê obrigado a pedir ajuda para Grace (Mila Kunis), sua filha de um casamento anterior. É aí que as coisas ficam interessantes — e onde filme deveria ter mudado de foco.
Grace é, de longe, a personagem mais fascinante desta história. Ela carrega o peso de ter sido a filha negligenciada, aquela que ficou para trás quando o pai decidiu recomeçar a vida com uma nova família. Quando Andy volta pedindo ajuda, todos aqueles ressentimentos e mágoas antigas ressurgem. Esse material é ouro dramático, o tipo de conflito emocional complexo que merecia estar no centro da narrativa. Em vez disso, Grace funciona principalmente como suporte para a jornada de crescimento do pai.
Drama competente
A diretora Hallie Meyers-Shyer conduz tudo com competência, evitando exageros melodramáticos e permitindo que a transformação de Andy aconteça de forma gradual e crível. Não há discursos salvadores ou epifanias repentinas. É apenas um homem lentamente percebendo o quanto esteve ausente e tentando, tardiamente, consertar as coisas. Uma abordagem honesta que funciona, especialmente com Keaton trazendo nuances e carisma ao personagem.
O elenco coadjuvante contribui para criar uma atmosfera acolhedora, e visualmente o filme tem aquele acabamento polido típico de dramas familiares contemporâneos. Há momentos genuinamente tocantes na reconstrução da relação entre pai e filha, especialmente quando Keaton e Kunis dividem a tela e a química entre eles transparece.
Mas é impossível não sentir frustração. Enquanto acompanhamos Andy aprendendo lições básicas sobre paternidade e responsabilidade — coisas que deveria ter aprendido décadas atrás —, Grace permanece nas margens, sua história mais rica sendo usada principalmente para catalisar o desenvolvimento dele. O filme sobre a filha que teve que se criar sozinha, que precisou lidar com o abandono emocional e agora precisa decidir se abre espaço novamente para esse pai ausente, esse filme fica apenas sugerido.
Pai do Ano funciona como um drama familiar sincero, com boas atuações e mensagens reconfortantes sobre segundas chances e reconstrução de vínculos. Para quem busca um filme agradável sobre dinâmicas familiares modernas, com Michael Keaton fazendo o que faz de melhor, é uma escolha acertada. Mas fica aquela sensação incômoda de que o verdadeiro filme — o de Grace — ficou esquecido em segundo plano, assim como ela mesma foi na infância.