0

Crítica: Em 'Gil', Rodrigo Pederneiras parte da música para criar, e sua assinatura é clara

Novo espetáculo do Grupo Corpo explora os movimentos individuais dos bailarinos

14 ago 2019
03h11
  • separator
  • 0
  • comentários

Com os braços batendo no peito e nas costas, os bailarinos do Grupo Corpo saúdam Xangô, orixá de Gilberto Gil, que assina a trilha sonora da nova obra da companhia mineira. Batizado com seu nome, Gil faz uma homenagem, organizando um compilado de suas influências diversas.

A multiplicidade do compositor se reflete na trilha, intensamente pautada por referências ao seu repertório, que, num golpe de memória para a plateia, aparecem retrabalhadas, mas reconhecíveis, e misturadas de um tanto de invencionismo.

Esse invencionismo é importante, porque aquilo que mantém a novidade nos trabalhos do Grupo Corpo é de ordem temática e musical. A partir de uma ideia e um convite, vem a trilha original, e dela surge a movimentação, que é complementada pelos elementos cênicos.

Aqui, esses elementos arriscam ser o melhor da obra - o vistoso fundo e piso contínuos, em amarelo, da cenografia de Paulo Pederneiras, e o figurino de Freusa Zechmeister cobrindo o corpo todo de uma malha preta, sobreposta de apliques gráficos e coloridos.

Essa aposta num visual tão chamativo mostra que a dança do Corpo aguenta o impacto. Rodrigo Pederneiras parte da música para criar, e sua movimentação carrega uma assinatura clara, tanto no repertório de movimentos, quanto em suas combinações.

Em Gil, ele explora mais os movimentos individuais dos bailarinos: não vemos seus duos nem grandes exercícios de partnering. A obra é quase como um conjunto de solos, e de solos em conjunto, que nos sugerem o paralelo entre o acúmulo do grupo e a simplicidade do indivíduo.

Essa mudança, até inesperada, na forma parece efeito da trilha sonora. Inconstante e até brusca, ela sobrepõe referências, processos e estilos, mas flerta com um easy listening, em curiosa simplicidade. Esse contraste espelha a multiplicidade que marca a trajetória do homenageado, mas sem aprofundamento e sem peso.

O todo insiste no aspecto leve, ilustrado pelos sorrisos largos com que Gil se dança. Um apelo à descomplicação, como se dissesse "relaxa e dança", fazendo da cena uma festa, ensolarada e estimulante.

O melhor desse programa, no entanto, é que ele se completa com a remontagem de Sete ou Oito Peças para um Balé, de 1994. A tradição do Corpo de apresentar programas com duas obras inicialmente serviu para mostrar o primeiro sucesso, Maria Maria (1976), acompanhado das novas produções. Agora, serve para vermos o novo acompanhado de um repertório consistente e que se sustenta ao passar dos anos.

Em Sete ou Oito Peças, a coreografia dá forma ao tempo da música. A ótima trilha sonora de Philip Glass em parceria com o Uakti consegue misturar os desdobramentos matemáticos do trabalho do compositor americano com o experimentalismo completamente distinto do grupo mineiro, carregado de brasilidade.

Esse universo em que a estrutura da música se faz e se refaz (e se refazendo se transforma) é replicado na coreografia. O efeito é parecido com o de uma corda de instrumento, que se agita, transforma o espaço, e volta a um estado de continuidade, tal qual as insistentes passagens dos bailarinos de um lado ao outro do palco.

Separadas por 25 anos de trabalho contínuo, juntas, as duas obras discutem a importância da afirmação e da reinvenção: sem afirmação não há identidade, mas sem reinvenção é fácil perder o interesse. Equilibrando as doses, o Grupo Corpo continua prendendo a atenção, entre aquilo que é fundamental rever e a expectativa pelo que ainda será feito.

Gil

Teatro Alfa. R. Bento Branco de Andrade Filho, 722. Tel.: 5693-4000. 4ª à 6ª, 20h30. Sáb., 20h. Dom., 18h. R$ 75 / R$ 190. Até 18/8

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade