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'Coraline' ganha versão com ilustrações de Chris Riddell

Fábula de terror do britânico Neil Gaiman é lançada agora no Brasil pela Intrínseca em edição especial, com capa dura e pintura trilateral

29 jun 2020
06h11
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Nem bem o século 21 havia começado e o jornal britânico The Guardian não pensou duas vezes antes de eleger, em 2002, o recém-lançado Coraline como um dos mais importantes livros daquele período de cem anos. Os críticos se empolgaram com a primeira obra infantojuvenil do inglês Neil Gaiman, uma história com figuras misteriosas e cenários sinistros, que une terror e contos de fadas e ganha agora uma edição especial pela Intrínseca, com capa dura e pintura trilateral.

Gaiman é cultuado pelos fãs de HQ por ter criado Sandman (1988), épico em que costura mitologia grega clássica, lendas urbanas modernas e fantasia dark. Com isso, ajudou a moldar a noção de quadrinhos adultos no mercado americano e deu origem ao selo Vertigo, especializado em histórias de terror e fantasia maduras, da tradicional editora DC.

Coraline, no entanto, ocupa um lugar de destaque em sua carreira. Com uma trama aparentemente infantil, mas muito sofisticada, traz uma linguagem elaborada para contar a história de uma menina que se muda com os pais para uma estranha casa. Lá, entre várias portas, há uma cuja passagem foi bloqueada por um muro de tijolos. Certa noite, Coraline (que os vizinhos insistem em chamar de Caroline) percebe um ser passando pela porta. Seguindo-o, ela descobre outro pai e outra mãe, que a querem para sempre.

Por causa de seu surrealismo e de sua trama baseada em uma realidade alternativa, Coraline é frequentemente comparada a Alice no País das Maravilhas, clássico de Lewis Carroll. "É verdade, mas me inspirei também em outras histórias que ouvi há muitos anos", comentou Gaiman em entrevista ao Estadão em 2004. "Há uma, por exemplo, de Lucy Clifford, sobre crianças que atormentam todo mundo e nunca escutam os avisos da mãe, até o dia em que elas são assombradas por uma figura diabólica que vai assumir o papel da mãe. Esse tom de distúrbio me fascina muito."

Por se tratar de uma obra de exceção em sua carreira, Gaiman trabalhou durante cerca de dez anos na criação de Coraline. "Não foi um projeto encomendado, por isso utilizei meu próprio tempo livre", explicou ele, cuidadoso na escolha das situações e até mesmo das palavras. "Crianças são, normalmente, um público facilmente dispersivo; assim, tentei criar uma história em que elas espontaneamente dissessem: 'Oh, que terrível!'."

Gaiman pretendia escrever sobre o mau comportamento, mas também sobre coragem. Segundo ele, era preciso balancear as passagens que provocassem medo com as que fizessem as crianças vibrarem. "Minhas filhas foram os principais termômetros das minhas expectativas", comentou o escritor que, quando iniciou a jornada, Holly, a primogênita, era pequena - e, ao final da escrita, a atenção era reservada à caçula, Maddy.

As leituras seguintes foram dadas pelos ilustradores das diferentes edições de Coraline e a lançada agora no Brasil (que saiu originalmente em 2012) conta com um traço especial, o de Chris Riddell, um dos mais conhecidos ilustradores do Reino Unido, autor dos celebrados cartuns políticos do jornal dominical The Observer, veículo associado ao The Guardian.

As linhas de Riddell são aparentemente simples, mas capazes de abarcar as altas doses de tensão da história e também o componente lúdico de cada ideia. Sua parceria com Gaiman já garantiu outras joias como The Sleeper and the Spindle (2013), um conto de fadas moderno e audacioso ao mostrar como o beijo de uma rainha (espécie de Branca de Neve) é capaz de despertar uma princesa enfeitiçada (a conhecida Bela Adormecida).

Em Coraline (título, aliás, nascido a partir de um erro de digitação - Gaiman pretendia escrever "Caroline"), a parceria contou com cumplicidade. "Neil é um escritor maravilhosamente visual, influenciado, acredito, por quadrinhos. Cria ótimas pistas visuais que são perfeitas para um ilustrador interpretar. Ele instintivamente libera espaço para a imaginação dos ilustradores correr livremente", disse Riddell ao Estadão, em entrevista realizada por e-mail - na verdade, como gosta de fazer, o ilustrador escreveu as respostas à mão, mantendo o estilo de escrita dos cartuns, e ainda assinou com um autorretrato.

Riddell afirma que, como ilustrador, o momento mais desafiador de seu trabalho é quando lê as palavras de um escritor e busca respostas visuais para elas. "As melhores colaborações acontecem quando os desenhistas têm autonomia para expressar sua visão - é por isso que gosto de trabalhar com Neil."

Na aventura para ilustrar Coraline, o desenhista de 58 anos (que nasceu na Cidade do Cabo, na África do Sul) guarda uma momento particular: "A imagem mais icônica, e a que mais gostei, foi a ilustração da Outra Mãe com seus olhos esbugalhados - uma visão maravilhosamente assustadora."

Riddell defende a criação de obras com tramas cada vez mais profundas para o público infantojuvenil e também infantil. "Os livros de algumas crianças são abertamente políticos porque as fábulas são ótimos veículos para questões acessíveis. Outras histórias, particularmente as fantasiosas, podem ser mais oblíquas em suas mensagens. Neil sabe como provocar o pensamento e a imaginação com seu trabalho", observa.

Seus cartuns políticos fazem sucesso, especialmente um em que mostrava Donald Trump usando fraldas. "Às vezes, brinco que a única coisa boa sobre o atual estado do mundo é o de ser um momento perfeito para um cartunista político - há tanto material. Para evitar ficar gritando diante do rádio pela manhã, diante de tanta notícia ruim, comecei a fazer um desenho por dia e a publicá-lo nas mídias sociais."

E o momento exige atenção, acredita Riddell. "Minha única responsabilidade é ser o mais sincero possível em meu trabalho político. As fake news são um vírus que confunde a verdade, a clareza e normalmente são usadas pelos que estão no poder para ocultar seus crimes. Por isso, é importante retratar esse abuso e ainda zombar dele."

Riddell considera irônico o fato de que as caricaturas mais gostosas de fazer são as que retratam as piores figuras políticas. "No momento, o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, e o presidente dos EUA, Donald Trump, são meus favoritos e também são as figuras que mais desprezo. Não vou lamentar quando eles deixarem o poder, apesar de ter me divertido ao desenhar o absurdo penteado de cada um deles."

CORALINE

Autor: Neil Gaiman

Tradução: Bruna Beber

Editora: Intrínseca (224 págs., R$ 49,90 versão impressa,

R$ 34,90 e-book)

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