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Como a mostra de Rembrandt em SP revela a genialidade do pintor com gravuras de 400 anos e IA

Depois de uma temporada bem-sucedida no Rio, Belo Horizonte e Vitória, está em cartaz em São Paulo a exposição que reúne 69 desenhos originais de um dos maiores nomes da arte europeia; entrada é gratuita

8 ago 2026 - 12h12
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Há um olhar de admiração estampado no semblante das pessoas que observam, com esforço, as pequenas gravuras de Rembrandt (1606-1669) que acabam de desembarcar em São Paulo pela mostra Rembrandt - O Mestre da Luz e da Sombra. "Fico impressionada com o nível de detalhe, as expressões nos rostos das figuras", diz a assistente jurídica Sandra Coelho, encantada com o "privilégio" de ver de perto 69 artes originais do pintor holandês do século 17, um dos maiores nomes da arte europeia.

A exposição já passou por Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória, onde foi vista por mais de 235 mil pessoas, e fica até setembro na capital paulista. Situada no complexo Caixa Cultural, na Praça da Sé, atraiu mais de dois mil visitantes no fim de semana de estreia - a abertura foi em 29 de julho.

Estima-se que o autor tenha deixado cerca de 300 gravuras. Algumas delas já foram mostradas no País em 2002. Este conjunto de 69 unidades, contudo, está sendo apresentado aqui pela primeira vez.

Trata-se de uma coleção privada, pertencente a um único dono, mas que desde 2018 está emprestada a uma rede de museus públicos da Itália, sendo administrada pela The Art Co, empresa especializada na gestão de artes famosas. No ano passado, o curador do projeto, o italiano Luca Baroni, disse ao Estadão que trazer as obras para o Brasil só foi possível graças ao envolvimento de patrocinadores, por causa dos altos custos da operação.

Na gravura 'A Descida da Cruz' (1635), é possível detectar o próprio Rembrandt contemplando, aos pés da cruz, com alguma incredulidade, o corpo de Jesus Cristo
Na gravura 'A Descida da Cruz' (1635), é possível detectar o próprio Rembrandt contemplando, aos pés da cruz, com alguma incredulidade, o corpo de Jesus Cristo
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Nestas gravuras, Rembrandt usou principalmente a técnica água-forte, que consiste em desenhar, com traçado mais livre, sobre uma placa metálica coberta de tinta, que depois é exposta ao ácido para criar as linhas desejadas. Assim ele se distinguiu pela maneira como explorou o contraste da luz e da sombra na arte. O método também servia como espaço de experimentação para telas maiores. Ele se notabilizou por quadros como A Ronda Noturna (1642) e Tempestade no Mar da Galileia (1633).

'Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra' conta com gravuras originais do pintor holandês
'Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra' conta com gravuras originais do pintor holandês
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Como é a mostra de Rembrandt

A exibição é dividida em três núcleos temáticos: o pessoal, o divino e o humano. O primeiro, relacionado à sua vida íntima, reúne representações de sua mãe e o famoso Autorretrato com Saskia (1636), onde Rembrandt, de chapéu, aparece ao lado de sua mulher Saskia van Uylenburgh, oriunda de uma família de alto poder aquisitivo e que morreu tragicamente com cerca de 30 anos. A morte dela foi um golpe emocional e financeiro para o artista, que logo entraria em falência e teria seu ateliê e itens leiloados.

A segunda parte concentra-se nas imagens do Velho Testamento. Ressurreição de Lázaro (1632), O Apedrejamento de Santo Estêvão (1635, A Crucificação (1635) e A Decapitação de João Batista (1640) são alguns dos destaques. Cada nova observação revela detalhes antes despercebidos. Em A Descida da Cruz (1635), por exemplo, é possível detectar o próprio Rembrandt contemplando, aos pés da cruz, com alguma incredulidade, o corpo de Jesus Cristo.

A exibição de Rembrant é dividida em três núcleos temáticos: o pessoal, o divino e o humano
A exibição de Rembrant é dividida em três núcleos temáticos: o pessoal, o divino e o humano
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Já na terceira seção, há desenhos de figuras diversas, dos pobres aos ricos. Algumas artes foram encomendadas por personalidades como Jan Uytenbogaert, cobrador-chefe de impostos da Holanda, e Lieven Willems Coppenol, mestre da caligrafia, enquanto outras retratam anônimos, como O Persa (1632) e O Jogador de Cartas (1641).

"Entendemos que algumas dessas obras eram também uma forma de denunciar a situação social e política do momento. Os artistas não tinham o hábito de fazer isso e ele, muito sutilmente, fazia quando tinha a oportunidade", explica Suellen Rosa, coordenadora de mediação da exposição.

'Autorretrato com Saskia', gravura onde Rembrandt aparece ao lado da mulher
'Autorretrato com Saskia', gravura onde Rembrandt aparece ao lado da mulher
Foto: Francesco Pernigo/Divulgação / Estadão

Suellen destaca, também, o enorme cuidado que existe para preservar as peças. Elas chegaram emolduradas ao Brasil e exigem um protocolo rigoroso de temperatura e iluminação. "São tesouros de 400 anos", ela diz, indicando que as luzes são cuidadosamente posicionadas para proteger os desenhos e, ao mesmo tempo, tornar a experiência do público satisfatória, sem que existam reflexos indesejáveis.

Em algumas estampas, é possível identificar a assinatura de Rembrandt, um indício de que ele já compreendia, à época, o potencial comercial de seu trabalho.

Aos visitantes são oferecidas lupas para melhor visualização das gravuras, embora alguns prefiram usar o celular, não para sacar fotografias, e sim para utilizar o zoom e apreciar detalhes que escapam a olho nu. A mostra também dispõe de audioguia, conteúdos em braile e vídeos explicativos em Libras.

Holograma de Rembrandt é um dos destaques da ala tecnológica da exposição 'Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra'
Holograma de Rembrandt é um dos destaques da ala tecnológica da exposição 'Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra'
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Por fim, há uma ala tecnológica, feita com ajuda de inteligência artificial, na esteira das atrações imersivas sobre pintores famosos já montadas no País - Van Gogh, Da Vinci, Monet, entre outros. O público pode ver as gravuras ganharem movimentos em enormes projeções, além de um holograma em 3D mostrando o envelhecimento de Rembrandt à frente do cavalete.

"A proposta da sala imersiva é justamente evidenciar detalhes e permitir que o público descubra toda a riqueza e genialidade das obras", conta Marcelo Lages, diretor artístico da exposição. "Rembrandt nos ensina a observar o mundo ao nosso redor e a refletir sobre o legado que deixaremos para as próximas gerações", finaliza.

Rembrandt - O Mestre da Luz e da Sombra

  • Onde: Caixa Cultural São Paulo (Praça da Sé, 111 - Centro)
  • Período: 29 de julho a 27 de setembro de 2026
  • Horário: terça a domingo, das 9h às 18h
  • Ingressos: Entrada gratuita
Estadão
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