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Sundance 2022: 'The Territory' mostra luta do povo Uru-eu-wau-wau para proteger a floresta amazônica

Documentário do americano Alex Pritz, produzido por Darren Aronofsky, fala com ativistas e líderes indígenas, mas também com os invasores

25 jan 2022 10h10
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Antes de cada filme no Sundance Festival, que está sendo realizado virtualmente até dia 30, um vídeo faz o reconhecimento do território, ou seja, explica que Park City, Utah, onde normalmente se realiza o evento, está localizada em antigas terras das nações Shoshone, Paiute, Goshute e Ute. Os reconhecimentos de território tornaram-se uma prática comum em festivais nos Estados Unidos e no Canadá.

No caso do filme The Territory, que participa da competição internacional de documentários em Sundance, a vinheta ganha especial ressonância. O filme dirigido pelo americano Alex Pritz fala da luta do povo indígena Uru-eu-wau-wau, no Estado de Rondônia, e de ativistas como Neidinha Suruí para proteger a terra indígena e a floresta da invasão por grileiros.

Pritz fez o reconhecimento de território de Nova York, onde está baseado, antes da coletiva de imprensa virtual na tarde de hoje. O diretor, que costuma falar em seu trabalho da relação do homem com o mundo natural, interessou-se pelos Uru-eu-wau-wau quando os Estados Unidos viviam a diminuição das proteções ambientais no governo de Donald Trump. "Quando vi o que estava acontecendo nas eleições de 2018 no Brasil, percebi que as populações indígenas na Amazônia passariam por dificuldades com a vitória de Jair Bolsonaro", disse Pritz.

Conversando com o produtor Gabriel Uchida e com Neidinha, ele decidiu fazer um filme sobre os Uru-eu-wau-wau. "Não é o fim do mundo, mas é quase o fim do mundo. Só vai deixar de ser se todas as pessoas se envolverem", disse Neidinha Suruí. O filme, que foi adquirido pela National Geographic, tem entre seus produtores o diretor Darren Aronofsky (Mãe! e Noé, entre outros). "Minha companhia sempre está procurando novas vozes que possamos ajudar, especialmente sobre causas ambientais e ciências", disse Aronofsky, que contou ter outros projetos na Amazônia. "Nós queremos o envolvimento de cineastas locais para que eles compartilhem suas histórias."

A participação dos ativistas foi fundamental para modelar a história. Foram eles que sugeriram, por exemplo, que em vez de entrevistas apenas com quem luta pela Amazônia, Pritz fosse atrás também dos invasores. "Quem comete os crimes nunca fala. E agora, como estão se sentindo protegidos pelo governo, têm orgulho de fazer o que fazem e de falar", disse o diretor, que comparou a situação à dos pioneiros que ocuparam o território americano, matando os povos originários ou expulsando-os de suas terras. "Queria mostrar a questão do Destino Manifesto de maneira emocional, para que todos entendessem", disse.

Tanto Neidinha quanto Bitate Uru-eu-wau-wau, o jovem líder de seu povo, que usa a tecnologia para expor os crimes contra o território indígena, sabem que correm riscos. Durante as filmagens, Ari Uru-eu-wau-wau, que fazia parte da brigada de monitoramento, foi assassinado. "A gente teve muita dificuldade de chegar a um território perigoso ao extremo, quando foi filmar dentro do mato. Um conflito podia acontecer", disse Bitate Uru-eu-wau-wau.

O produtor Gabriel Uchida já esteve em diversos continentes e em áreas de conflito. "A Amazônia é um dos lugares mais perigosos do mundo, por isso tínhamos um protocolo de segurança bastante rígido", explicou. Pritz afirmou que sua prioridade era manter a segurança de sua equipe e, principalmente, da comunidade. "No fim das contas, eu moro em Nova York. O nível de risco deles é totalmente diferente."

Aronofsky, que demonstrou seu interesse pelo ambientalismo em filmes como Noé e Mãe!, contou ter recebido recentemente uma ligação de Adam McKay, diretor de Não Olhe para Cima, que fez sucesso na Netflix desde seu lançamento em dezembro. "Ele me disse que tirando eu, ele e Paul Schrader (com No Coração da Escuridão), quase nenhum cineasta de ficção está falando do principal assunto de hoje: a crise climática. Fiquei chocado que sejamos tão poucos. É o maior desafio da nossa espécie e do nosso planeta. Não sei como fugir dessa história sendo cineasta."

Para Neidinha Suruí, a esperança é a de que as pessoas compreendam a situação e se insiram na solução. "Vivemos uma perseguição, é um dos piores momentos do nosso país. Espero que nosso filme faça com que as pessoas reflitam, contribuam. E que, na eleição de 2022, o filme sirva para a gente fazer uma mudança no Brasil."

Estadão
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