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Spike Lee e o campo de batalha da história americana

Em meio a uma calamidade global, diretor lança 'Destacamento Blood', filme que revisita a Guerra do Vietnã; Ele fala sobre o isolamento social, desigualdade social e a importância dos trabalhadores essenciais para a cidade de Nova York

26 mai 2020
10h10
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É engraçado conversar com Spike Lee via Zoom. Ele parece distante, confinado em uma caixa dentro de outra caixa na tela do seu computador, mas nada disso parece diminuí-lo.

Talvez seja o estilo - a combinação boné de beisebol e óculos - ou talvez o olhar dele. Lee tem olhado diretamente para a lente da câmera há mais de 30 anos. Pensando nos personagens mais famosos dele - Mars Blackmon, do longa-metragem Ela quer tudo (1986) e de uma série de comerciais da Nike com Michael Jordan; ou Mookie, de Faça a Coisa Certa - vemos que eles nos confrontam diretamente. Essa é a posição preferida de Lee: encarando olho no olho, destemido. E funciona. Mesmo em uma videoconferência com o sinal de vídeo travando um pouco, o homem é inconfundível.

Ele se mantém isolado em casa, em Manhattan, desde março, quando a pandemia do coronavírus fechou boa parte de Nova York. Seu único contato com o mundo exterior ocorre na bicicleta que ganhou de presente, pintada em laranja e azul em homenagem ao seu amado time de basquete, New York Knicks, sobre a qual ele passeia sozinho por cerca de 5 ou 7 quilômetros todas as manhãs, usando máscara e capacete. À noite, ele janta com a mulher, Tonya, e os dois filhos, Satchel e Jackson, enquanto os vizinhos começam a aplaudir e bater panelas como parte das homenagens em toda a cidade aos sobrecarregados funcionários de saúde.

Enquanto negro americano de 63 anos, Lee faz parte de um grupo de alto risco de mortalidade em decorrência do vírus. Ele tem medo? "Pode apostar que sim!" disse ele, sentado em um sofá sob um cartaz antigo do filme biográfico The Jackie Robinson Story (1950). "É por isso que não boto meu rabo preto para fora de casa!"

Lee se encontra em um momento estranho e singular da carreira. Passou quase quatro décadas e mais de 30 filmes acertando as contas com os brutais e irregulares contornos da história. Agora, em meio a uma calamidade global, e com um novo filme, Destacamento Blood, que revisita a Guerra do Vietnã, ele é novamente uma testemunha - mais velho, mais contemplativo e tão insaciável quanto sempre, apesar de ser dono de um dos legados mais sólidos do cinema americano.

"No dia seguinte à premiação do Oscar, embarquei em um avião e viajei à Tailândia", disse ele, referindo-se a uma das locações de filmagem de Destacamento Blood, com estreia prevista para 12 de junho na Netflix. Tonya levou a estatueta para casa - foi a primeira vez que ganhou um Oscar nas categorias principais, por melhor roteiro adaptado, com o filme Infiltrado na Klan (2018) -, onde agora faz par com o Oscar honorário que ele recebeu em 2015. "Voltei ao trabalho imediatamente."

Ele tem plena consciência do fato de muitos não disporem do luxo de manter o autoisolamento como faz com a família. Boa parte dos filmes dele é habitada por personagens trabalhadores como os que ele conheceu na infância, no Brooklyn - entregadores de pizza, professores e cabeleireiros negros - cuja valorização ele defende, pedindo que sejam objeto da mesma empatia estendida ao demais. E ele tem observado enquanto eles arriscam suas vidas em benefício do restante de nós.

"As pessoas fazendo o trabalho sujo - quem trabalha nos mercados, nas cozinhas, nos correios - não podem se dar o luxo de ficar em casa", disse ele. "Estão arriscando suas vidas diariamente apenas para trabalhar. Só espero que aqueles que desmereciam essas pessoas possam mudar de mentalidade, pois são esses trabalhadores que mantiveram a cidade viva."

Como forma de homenagear os trabalhadores essenciais de Nova York, Lee fez um curta-metragem, New York, New York, que estreou esse mês na CNN. Rodado ao longo de um mês e usando a icônica balada de Frank Sinatra como trilha sonora, o filme captura os cartões postais da cidade, estranhamente vazios. Mas termina em um tom de otimismo: os funcionários dos hospitais chegam usando equipamento de proteção individual como se fossem a cavalaria.

"Teremos ótimas histórias a respeito desse momento - romances, músicas, documentários, poemas, filmes - um grande esquema de divisão do trabalho em casa!" disse ele. "E espero que as pessoas digam a verdade. Não faltam heróis verdadeiros", prosseguiu ele, acrescentando, "basta contar a verdade, e o resultado será cativante".

Se os trabalhadores na linha de frente são os heróis dessa história, está claro quem seria o vilão aos olhos de Lee. O diretor, um frequente crítico e antagonista de Donald Trump desde os anos 1980, lamentou a "patética falta de capacidade de liderança" do presidente, destacando em especial suas delirantes declarações públicas a respeito de tratamentos inusitados contra o vírus.

"Dizer às pessoas para que usem luz ultravioleta? Beber desinfetante e sei lá mais o quê?" disse Lee, rindo. Estreitou os olhos, como se ainda não conseguisse acreditar. "Tem gente que vai parar no hospital por acreditar" nessas coisas, disse ele. "Ele só pode estar de brincadeira!"

Trump é uma figura importante em Destacamento Blood, história de ação e aventura a respeito de quatro negros veteranos que voltam ao Vietnã mais de 40 anos após a guerra. Um dos personagens principais, Paul, interpretado por Delroy Lindo, que há muito trabalha com Lee, é um eleitor de Trump que passa boa parte do filme usando um boné vermelho com o slogan Make America Great Again.

Ainda que a defesa do presidente nas palavras de Paul surpreenda alguns, Lee tem um histórico de personagens negros complexos retratados sem solapar suas matizes. As pesquisas de boca de urna mostram que, mesmo com a maior parte do eleitorado negro escolhendo Hillary Clinton na eleição presidencial de 2016, 13% dos homens negros votaram em Trump.

"Minha mãe me ensinou desde pequeno que os negros não são um grupo monolítico", disse Lee. "Para tornar a história mais dramática, pensei, 'O que poderíamos fazer de extremo com um dos personagens?'"

"No começo, foi um problema para mim", reconheceu Lindo, para quem Trump era "a antítese de tudo em que acredito". Ele prosseguiu, "Tentei convencer Spike a desistir da ideia: 'Não podemos pensar num personagem que seja simplesmente conservador?' Mas acho que há negros muito insatisfeitos com o sistema, por realmente não se sentirem representados nele, e estariam prontos para acreditar que alguém como Trump poderia ajudá-los".

Os quatro veteranos do filme - interpretados por Lindo, Clarke Peters, Isiah Whitlock Jr. e Norm Lewis - se identificam coletivamente como "destacamento blood", termo que usaram na guerra. Em uma trama que homenageia O Tesouro de Sierra Madre (1948), A Ponte do Rio Kwai (1957) e Apocalypse Now (1979), os membros do destacamento partem em uma missão para recuperar o corpo do seu ex-comandante, Stormin' Norman (Chadwick Boseman), enterrado perto de um tesouro secreto.

O drama que se segue - entre os homens e entre o grupo e seus rivais no Vietnã contemporâneo - é uma parábola moderna a respeito da depravação da guerra e das falsas promessas do individualismo americano.

"Todos nós, e a humanidade como um todo, temos que aprender a pensar além de nós mesmos", disse Lee. "Se a pandemia nos mostrou algo, é a necessidade de ajudarmos uns aos outros. Não podemos voltar à vida que levávamos a.c., antes do corona, com uma grande desigualdade entre ricos e pobres."

Lee, nascido em Atlanta em 1957, o mais velho de seis filhos, cresceu assistindo reportagens da Guerra do Vietnã na televisão. Suas lembranças mais marcantes são de seus heróis quando denunciaram o conflito, incluindo Martin Luther King Jr. e Muhammad Ali, que perdeu o título mundial dos pesos-pesados por recusar o recrutamento para as forças armadas.

O filme incorpora imagens de arquivo de ambos. Uma montagem de abertura também mostra trechos de Angela Davis, Malcolm X e Kwame Ture, cujo movimento black power teve sua ascensão no fim da década de 1960, coincidindo com os anos mais turbulentos da guerra.

A confusão entre os limites da história e a estória é característica de Lee. Infiltrado na Klan terminava com imagens da violência racista em Charlottesville, Virgínia, em 2017, saltando do terror fictício para o terror real. Lee usou uma técnica semelhante na abertura do seu épico, Malcolm X (1992), com falas incendiárias de Denzel Washington interpretando X, sobrepostas ao vídeo de Rodney King sendo espancado por policiais.

"O elemento consistente em seus filmes é a ideia segundo a qual o passado não é apenas algo que ficou para trás, mas algo ligado ao presente", disse Kevin Willmott, corroteirista de Infiltrado na Klan e Destacamento Blood em parceria com Lee. "Acho que ele acredita que nosso país foi prejudicado por filmes que maquiam a história, e nós, enquanto minorias, temos a responsabilidade de contar a verdade de acordo com a nossa perspectiva."

Com Destacamento Blood, Lee viu uma oportunidade de explorar um lado da experiência dos negros no Vietnã que não foi mostrada no cinema, apesar dos muitos clássicos produzidos a respeito da guerra. O roteiro original, intitulado The Last Tour [Último turno de serviço] e escrito por Danny Bilson e Paul De Meo, era uma história de soldados brancos. Lee e Willmott começaram a adaptação em 2017, após a suposta desistência do diretor original, Oliver Stone.

Os dois se mostraram particularmente interessados na psicologia dos soldados negros que lutaram em um país estrangeiro por liberdades que não tinham em casa, tema que Lee explorou em seu filme a respeito da 2.ª Guerra Mundial, Milagre em Sta. Anna (2008). Em Destacamento Blood, vemos como essa dissonância cognitiva se tornou refratária com o tempo, quando os membros do destacamento, parte do percentual desproporcionalmente alto de negros americanos que serviram na guerra, relembram suas trajetórias e tentam avaliar o estrago.

"Tudo que eles tinham era um ao outro, e disso vieram uma união e uma irmandade verdadeiras", disse Willmott.

Lee acrescentou flashbacks, incluindo uma sequência na qual Stormin' Norman faz um discurso a respeito de Crispus Attucks, um negro que se tornou a primeira baixa americana da Guerra Revolucionária. Outra sequência, inspirada em relatos reais de veteranos negros, mostra o momento em que os membros do destacamento ficam sabendo do assassinato de Martin Luther King Jr.

"Os soldados negros não aceitaram aquilo", disse Lee. "Ficaram com ganas de atirar, e o alvo não seria o Viet Cong!"

Pensando no exemplo de Attucks, que confrontou os soldados britânicos no Massacre de Boston, Lee começou a pensar em voz alta a respeito do significado do patriotismo.

"Sempre acreditamos na promessa daquilo que nosso país pode ser; somos muito patrióticos", disse ele. "Mas, para mim, o patriotismo vem do poder de dizer a verdade. Denunciar as injustiças desse país é um ato de patriotismo. É isso que significa ser americano."

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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