0

Sim, vamos ter uma temporada do Oscar. Mas como vai ser?

Estamos nos aproximando do fim de um ano desastroso para o cinema, um ano em que o calendário de lançamentos se derreteu diante de nossos olhos e as salas ficaram em apuros por causa de uma pandemia que continua violenta

16 out 2020
09h10
  • separator
  • 0
  • comentários
  • separator

Ganhar um Oscar é uma grande conquista. Mas, em 2021, fazer a cerimônia do Oscar pode ser um feito ainda maior.

Estamos nos aproximando do fim de um ano desastroso para o cinema, um ano em que o calendário de lançamentos se derreteu diante de nossos olhos e as salas ficaram em apuros por causa de uma pandemia que continua violenta. Não é exatamente o tema ideal para um musical de Hollywood, mas a temporada do Oscar começou mesmo assim, embora com novas regras que permitem a estreia em serviço de streaming e uma cerimônia que foi adiada em dois meses após sua data normal, para 25 de abril.

Até lá, quem será indicado, escolhido ou vacinado? Seria uma tarefa árdua prever todos esses três resultados, então vamos ficar só com o Oscar. Aqui estão quatro maneiras pelas quais eu espero que o sagrado tapete vermelho de Hollywood aconteça mesmo durante o período mais incomum de nossas vidas:

1. Os filmes de grande orçamento serão poucos

Diante da diminuição da audiência, a ABC encorajou a academia a fazer ajustes de categoria que permitirão que sejam apresentados mais blockbusters. Ainda assim, com a bilheteria reduzida desde março, os verdadeiros sucessos serão poucos e espaçados entre si.

Grandes candidatos como West Side Story e Duna já foram transferidos para 2021, e até mesmo alguns dos títulos mais esperados, como The French Dispatch, de Wes Anderson, optaram por ficar de fora da temporada, em vez de se contentar com uma estreia digital. Até agora, a Universal está se apegando a um lançamento nas salas no dia de Natal para seu faroeste de Tom Hanks, News of the World, de Paul Greengrass, diretor de Capitão Phillips, mas outro grande lançamento marcado para este fim de ano, Mulher Maravilha 1984, só deve sair em 2021.

Toda essa escassez de grandes estúdios pode abrir uma brecha para Soul, da Pixar, que foi retirado do calendário das salas de cinema e redirecionado para uma estreia na Disney+ em dezembro. Com o campo de aspirantes a blockbusters reduzido, Soul pode entrar sorrateiramente e se tornar a primeira animação indicada para melhor filme desde Toy Story 3, em 2011.

2. As principais categorias podem estar mais diversificadas do que nunca

A academia recentemente introduziu novas diretrizes de diversidade destinadas a encorajar uma representação mais equitativa atrás e na frente das câmeras. Embora as diretrizes não estejam definidas para entrar em vigor até 2024, os indicados deste ano já podem cumprir as metas.

A categoria de melhor diretor, muito criticada por sua falta de indicadas do sexo feminino, tem várias opções fortes este ano. Participantes como Chloé Zhao, que dirigiu o drama de estrada com Frances McDormand Nomadland (que será lançado em dezembro), e Regina King, uma recente vencedora na categoria atriz coadjuvante que se colocou atrás das câmeras para adaptar a peça One Night in Miami... ( também em dezembro), podem até se tornar as primeiras mulheres negras a serem indicadas ao Oscar de melhor diretor.

E não deve acontecer uma reedição do #OscarsSoWhite nas quatro categorias de atuação, graças a uma forte lista de dramas protagonizados por negros. Além de One Night in Miami... e do drama de Spike Lee no Vietnã Destacamento Blood, que poderão produzir vários indicados nas categorias masculinas, há três filmes espetaculares que são focados em cantoras negras e que podem entrar na corrida para melhor atriz: A Voz Suprema do Blues, estrelado por Viola Davis; The United States vs. Billie Holiday, com Andra Day na pele da cantora de jazz; e Respect, com Jennifer Hudson interpretando Aretha Franklin.

3. A Netflix vai ganhar mais terreno

Não espere uma lista completa de títulos de distribuidores como A24, Neon e Searchlight: como ir ao cinema ainda é uma ideia arriscada durante a pandemia e como os calendários de produção estão meio parados, estúdios menores optaram por ficar de prontidão.

Entre os títulos ainda a serem lançados, a A24 vai promover o comovente drama de imigrantes Minari, que antes da pandemia ganhou aplausos no Festival de Cinema de Sundance, em janeiro, mas C'mon C'mon, com Joaquin Phoenix, até então programado para estrear no fim de 2020, só chegará às telas no ano que vem. Da mesma maneira, Nomadland, da Searchlight, e o romance Ammonite de Kate Winslet e Saoirse Ronan, da Neon, serão a principal esperança de seus distribuidores para conquistar várias indicações, mesmo que outras opções atraentes possam ser mantidas na reserva para 2021.

Enquanto isso, a Netflix, sem as restrições das salas de cinema, tentará engolir ainda mais indicações de melhor filme do que as três que conseguiu no ano passado. Além de Destacamento Blood e A Voz Suprema do Blues (trazendo uma atuação digna de Oscar de Chadwick Boseman), a Netflix vai promover Mank, um conto hollywoodiano em preto e branco de David Fincher, e o drama histórico de Aaron Sorkin, The Trial of the Chicago 7, que a Paramount vendeu para o serviço de streaming. A Netflix também terá The Prom (um musical de Ryan Murphy estrelado por Meryl Streep), Pieces of a Woman (com uma performance angustiante de Vanessa Kirby de The Crown) e Hillbilly Elegy (adaptação do livro de JD Vance estrelada por Amy Adams e Glenn Close) em jogo para as indicações de melhor ator e atriz.

Em outras palavras, a maré está boa para os serviços de streaming. Os eleitores da velha guarda do Oscar que tentaram erguer um baluarte contra sua incursão talvez tenham que hastear a bandeira branca. Além das muitas possibilidades de prêmios para a Netflix, os streamers Amazon (One Night in Miami...), Apple TV+ (Cherry, On the Rocks, Boys State) e Hulu (Palm Springs) vão tentar tirar proveito de uma paisagem que se inclinou radicalmente a seu favor este ano.

4. Nada será como antes

A temporada do Oscar geralmente é uma aventura selvagem e confusa, composta de ovações desordenadas, festas estrondosas e regadas a champanhe e conexões emocionais cara a cara que fazem tudo valer a pena.

Nem preciso dizer que ninguém vai conseguir nada disso com o Zoom.

O circuito de premiação acabará se adaptando à realidade dos membros da academia em casa, mas é mais difícil rastrear o barômetro do frisson quando não se podem medir os aplausos e as bilheterias de maneira conclusiva. Eu me lembro bem do momento em que toda a sala prendeu a respiração em Sundance quando o enredo deu uma guinada no drama de Anthony Hopkins, The Father (marcado para dezembro), mas será que vai acontecer a mesma coisa agora que os eleitores da academia estarão assistindo ao filme sozinhos, com o cachorro no colo e a luz do sol entrando pela janela da sala?

Claro que faz tempo que os eleitores do Oscar fazem uso de telas caseiras, mas estas geralmente eram contrabalançadas por planos de exibição presenciais tão robustos que foi assim que muitas campanhas do Oscar saíram vencedoras: A Forma da Água jamais teria vencido sem a contagiante paixão de Guillermo del Toro pelo filme, como evidenciado nas perguntas e respostas após a exibição.

Sem qualquer uma das referências habituais, nenhum candidato pode ser descartado antes do fim: nem filmes prestes a estrear como Ammonite e French Exit, que ganharam críticas polarizadas em festivais, mas ainda apresentam atuações impressionantes de Winslet e Michelle Pfeiffer, nem mesmo Tenet, que foi recebido de maneira ainda mais fulminante do que o último indicado a melhor filme de Christopher Nolan, Dunkirk, mas que, durante um período, foi o único filme sobre o qual alguém estava falando alguma coisa.

A cerimônia certamente será diferente. Ninguém sabe como este país assolado pela pandemia estará se saindo no fim de abril, mas tapetes vermelhos e salões de baile lotados provavelmente terão que se modificar para permitir que um grupo menor se reúna com mais distanciamento.

A transmissão do Oscar seguirá o exemplo do Emmy, onde os apresentadores apareceram no palco, mas os indicados, vestidos em roupas de alta-costura, apareceram em suas salas de estar? E será que uma cerimônia desconexa como esta se beneficiaria de um anfitrião forte, embora o Oscar recentemente tenha ficado bem sem esse tipo de figura?

Bom, vamos acabar descobrindo. Deste ponto de vista distante, apenas uma coisa é certa: se o Oscar sempre reflete o ano em que foram votados - para o bem e para o mal - ainda vamos sentir mais umas pancadas.

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Veja também:

Kate Winslet lamenta ter trabalhado com Polanski e Allen
Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade