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'Reação do público é maior recompensa após todo o trabalho', diz Quentin Tarantino

Em entrevista, diretor de 'Era uma Vez em...Hollywood' discute indústria, spoilers e referências do filme

14 ago 2019
03h11
atualizado às 09h44
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CANNES - Quentin Tarantino era um garotinho em 1969, mas aquele período ficou marcado em sua memória. Em seu novo filme, Era uma Vez em... Hollywood, o cineasta americano faz uma homenagem à cidade dos sonhos que é Los Angeles, num período de virada na indústria: o sistema dos estúdios estava dando lugar aos diretores-autores como Francis Ford Coppola, Stanley Kubrick e Roman Polanski. Para trás, estavam ficando astros que encarnavam o ideal masculino de John Wayne e afins, como Rick Dalton, personagem de Leonardo DiCaprio no filme, que sofre com a dificuldade de se ver caindo na obsolescência, como seu dublê inseparável, Cliff Booth (Brad Pitt).

Da sua casa, Dalton observa com inveja o casal do momento, que vive ao lado: Polanski (Rafal Zawierucha, que mal aparece) e sua mulher, a luminosa atriz Sharon Tate (Margot Robbie).

1969 foi um ano de virada na cidade e na cultura americana em geral também pela atuação de membros da Família Manson, um culto liderado por Charles Manson que aterrorizou a cidade e matou Tate, grávida de oito meses, e três de seus amigos, em 8 de agosto daquele ano. Antes mesmo de rodar o projeto, Tarantino foi criticado tanto por usar como personagem Polanski, condenado por estupro de menor nos Estados Unidos anos mais tarde, quanto por abordar um evento tão trágico - seus filmes são conhecidos por amalgamar violência e humor. Quando foi indagado sobre isso na coletiva de imprensa durante o Festival de Cannes, onde o filme passou na competição, mostrou-se impaciente. No dia seguinte, mais calmo, conversou com jornais e revistas internacionais, incluindo o Estado:

Em uma das cenas do filme, Sharon Tate vai ao cinema sozinha assistir a seu próprio filme. Você já viu seu próprio filme numa sessão normal de cinema, sem ser pré-estreia?

Eu trabalho muito duro nos meus filmes. Mas o que realmente vale a pena no fim das contas, até porque meus filmes provocam umas risadas, é que o público reaja. Essa é praticamente a recompensa por todo o trabalho. Quando estou montando, eu ouço risadas e gritos sufocados, tudo na minha imaginação. Mas não sei se o filme vai funcionar até assistir com as pessoas. Sessões em festivais e pré-estreias podem ser bem divertidas, mas nada supera ver com um bando de pessoas que podia ter feito qualquer coisa naquele dia e que decidiu gastar seu suado dinheirinho para comprar um ingresso e ver seu filme.

Você tem uma lista de calamidades da história mundial que gostaria de corrigir?

Acho que aqui termina minha trilogia das calamidades.

Durante o Festival de Cannes, você entrou na guerra dos spoilers.

Os críticos sempre guardaram alguns aspectos chave do filme para não estragar as surpresas, mas hoje tudo é spoiler.

Mas eu não disse que tudo era spoiler. Meu sentimento é: Tomar cuidado com spoilers torna a vida dos críticos mais difícil?

Talvez, mas é o seu trabalho. Fazer filmes também é difícil, mas é o meu trabalho. Sinceramente, eu seria capaz de escrever uma crítica de Taxi Driver sem entrar nos detalhes do clímax. O crítico Roger Ebert era da opinião é que dizer que o filme tem uma surpresa no final já é um spoiler. A questão é que quem viu o filme em Cannes teve o privilégio de assistir sem saber disso. Então os leitores também têm o direito de ver de maneira semelhante. Só isso que estou pedindo. Tem muitas outras coisas do filme para discutir.

Há muitas discussões hoje sobre a representação das mulheres e das minorias no cinema. Em geral, todos estamos pensando mais nisso. Acha que esse debate entrou no seu processo de alguma maneira?

Não lidei com isso neste filme. Eu me esforcei bastante para não deixar críticas sociais afetarem meu trabalho. Porque não é meu papel. Meu papel é ignorar isso para poder fazer o que faço.

Acredita que o discurso mudou muito desde o lançamento de Pulp Fiction, 25 anos atrás.

Sem dúvida, vivemos tempos muito diferentes dos anos 1990.

De que maneira?

Você sabe.

Qual foi seu ponto de entrada no filme? Foi a história real ou a ficção? As duas coisas sempre coexistem em sua cabeça desde o princípio?

Em dado momento, tudo se junta, mas a primeira fagulha narrativa apareceu uns nove anos atrás. Estava fazendo um filme com um ator mais velho. Ele tinha esse dublê com quem trabalhou por muito tempo. E não tínhamos nada para o dublê. Mas tinha uma cena que ele podia ter feito. Então o ator veio me falar dele, sem pressão e tal. "Eu trabalho com ele há 20 anos, vai ser bacana", ele disse. O dublê veio, e a dinâmica dos dois era muito interessante. Dava para perceber que antes os dois devem ter sido muito parecidos. Mas esse tempo tinha passado. Ele parecia mais velho e mais gorducho que o ator. Uma coisa curiosa é que o dublê claramente não trabalhava para mim, mas para o ator. Achei que tinha ali um relacionamento interessante, desses dois caras convivendo muito tempo. Que se um dia fizesse um filme sobre Hollywood, podia ser bacana ter dois personagens assim.

Muitos fãs de outros países podem não saber em detalhes que 1969, o ano em que o filme se passa, foi um ponto de ruptura para Hollywood. Acha que eles deveriam saber de algo antes de assistir ao filme?

Não acho que seja importante. Quem tiver o desejo de ir atrás disso vai ter uma bela recompensa. Mas pode ser que o filme desperte isso no espectador. Eu acho que Era uma Vez em... Hollywood, como outros filmes meus, especialmente Jackie Brown, têm um ar mais europeu que americano. Então acho que estrangeiros podem se sentir melhor com o ritmo do filme. Quanto às referências culturais, pode ser difícil. É como se fosse um filme de ficção científica que se passa num universo alternativo, cheio de nomes inventados. Mas acredito que o filme funcione mesmo assim.

Estadão
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