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Por que a franquia 'Halloween' ainda faz sucesso mesmo com filmes ruins?

Bilheteria do 12º filme da interminável série pode ser surpreendente, mas há uma explicação

27 out 2021 16h12
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A espantosa arrecadação no fim de semana de estreia de Halloween Kills: O Terror Continua, o 12º filme da interminável franquia Halloween, pode ter surpreendido alguns observadores - afinal, o público ainda está hesitante com a ideia de ir ao cinema e as críticas para esta sequência não foram das melhores.

E eles não estão errados: o filme realmente é uma bagunça, uma tentativa desajeitada de fundir horror puro, comédia incidental e temas socialmente relevantes. Mas, assim como você não pode matar Michael Myers, o psicopata sempre empunhando uma faca no centro da história, você não pode matar Halloween, que sobreviveu a outras franquias de terror da mesma época, como Sexta Feira 13 (dormente desde 2009) e A Hora do Pesadelo (desde 2010).

Mas o que essa série tem que a faz tão duradoura? O que faz com que os fãs - e eu me incluo entre eles - sempre voltem, garantindo à série mais uma segunda chance, plenamente conscientes da inevitabilidade da decepção? Uma retrospectiva dos primeiros cinco filmes da série (disponíveis em Blu-ray nas novas edições de colecionador da Shout Factory, mas também em streaming nas principais plataformas) fornece algumas respostas.

É impossível exagerar o impacto do Halloween de John Carpenter em 1978, um filme agora tratado como texto sagrado entre os aficionados do terror - e por um bom motivo. O thriller foi inovador, literalmente desde o primeiro frame: abre com uma longa sequência na qual vemos um assassinato brutal através dos olhos do assassino. É fácil entender o que os imitadores do filme pegaram daí: o enquadramento do ponto de vista da respiração pesada, a nudez gratuita, a moralização lasciva (a vítima é morta após uma noite de sexo casual). Poucos se preocuparam em replicar a magia técnica de Carpenter - aquela cena introdutória de quatro minutos, claramente inspirada na abertura de A Marca da Maldade de Orson Welles, funciona como uma tomada ininterrupta - muito menos em usá-la tão engenhosamente quanto Halloween: para adiar pelo maior tempo possível o momento de choque quando Carpenter finalmente revela que o assassino é Michael Myers, aos 6 anos de idade, que matou sua própria irmã.

Em total contraste com os filmes de terror que gerou - e até mesmo com suas próprias sequências - só uma única gota de sangue é derramada em Halloween. Carpenter e sua corroterista e produtora, Debra Hill, passam grande parte da primeira hora do filme criando personagens distintos e memoráveis, particularmente a vítima final de Myers, a babá e leitora inveterada Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e seu psiquiatra e antagonista, o Dr. Loomis (Donald Pleasence).

Então, em vez de se deleitar com vísceras e sangue, a ênfase do filme original está no suspense, no terror, na atmosfera. A direção elegante de Carpenter faz uso criativo do espaço negativo e da escuridão (especialmente ao mover a fantasmagórica máscara branca de Michael para dentro e para fora dos espaços noturnos do diretor de fotografia, Dean Cundey) e de primeiros planos e planos de fundo, que muitas vezes revelam a presença do assassino ao espectador antes que ele seja visto por suas vítimas. Carpenter também manipula com maestria o ritmo, que sobe e desce em ondas durante o primeiro e segundo atos, acumulando pavor e medo, antes de passar para as cenas finais, implacavelmente assustadoras.

Halloween foi uma sensação comercial, arrecadando cerca de US $ 47 milhões com um orçamento de US $ 325.000. Esse tremendo retorno sobre o investimento gerou uma série de imitações rápidas e baratas - afinal, a lógica era: você não precisava de estrelas nem grandes valores de produção, só uns jovens desconhecidos e bonitos e um cara com uma faca na mão. Nenhum dos sucessores foi mais franco nem mais bem-sucedido do que a série Sexta-feira 13. Seus criadores não conseguiam replicar o talento estilístico de Carpenter, então investiram em cenas de assassinato intrincadas e em litros e litros de sangue.

Sexta-feira 13 e sua primeira sequência já tinham ido e vindo quando Halloween 2 chegou aos cinemas, em outubro de 1981, mas a influência da série é profundamente sentida nesse filme. Embora Carpenter e Hill o tenham escrito e produzido (com as funções de direção transferidas para Rick Rosenthal), a violência é muito mais extrema e a contagem de corpos é maior, assim como o volume de sustos de pular da cadeira - um claro sinal de que os cineastas não acreditavam que o público tivesse paciência para as construções mais lentas do original.

Mas Halloween ainda tem momentos de terror visceral que rivalizam com o primeiro filme e composições que são de tirar o fôlego em sua engenhosidade. Na melhor das hipóteses, esses filmes conseguem atingir medos primordiais: de ser perseguido, de correr para sobreviver, de perceber, tarde demais, que não há saída. É por isso que a cena de Laurie aparentemente presa num armário no primeiro filme se alojou tão firmemente em nossas memórias coletivas. É por isso que a perseguição no porão da sequência tem uma eficácia parecida. Ao longo da série, os personagens e os diálogos voltam à ideia do "bicho-papão", uma força implacável do mal que você não consegue eliminar. Halloween opera no nosso subconsciente porque está enraizado nos medos da infância. (Os medos de Sexta-feira 13 são preocupações de adolescentes: ser pego fazendo sexo ou usando drogas, ou as duas coisas ao mesmo tempo).

A disposição de correr riscos, pelo menos no início, é mais pronunciada nos filmes seguintes. A primeira sequência termina, com alguma sorte, talvez, com a morte de Michael Myers; no ano seguinte, Carpenter e Hill produziram Halloween 3 - Regresso Alucinante, uma tentativa de reformular a série como uma antologia de terror, contando uma história completamente diferente, sob um estilo completamente diferente. O enredo sobre um plano maligno para assassinar milhares de crianças por meio de máscaras de Halloween assassinas está mais próximo da ficção científica dos anos 1950 (ou, pelo menos, dos temas do gênero nos anos 70, como o remake de Vampiros de Almas [Invasion of the Body Snatchers]) do que qualquer coisa que vinha acontecendo no terror da década de 1980 - e, como resultado, o público rejeitou a tentativa de repensar o Halloween.

Olhando em retrospecto, esta foi a última vez que a série tentou abrir novos caminhos, em vez de seguir as tendências da época. Mas talvez seja a outra explicação para a longevidade de Halloween: sua maleabilidade. Quando o produtor Moustapha Akkad ressuscitou a série, em 1988, com Halloween 4 - O Retorno de Michael Myers, ele deu aos fãs o que eles queriam - mais do mesmo - por meio desse filme e sua sequência logo um ano depois, Halloween 5: A Vingança de Michael Myers, tudo parecia muito mais com as sequências de Sexta-feira 13 do que com qualquer coisa que Carpenter e Hill tivessem feito. Ambos os filmes têm momentos de medo genuíno e um punhado de atuações impressionantes, mas dão a impressão de que a série estava reagindo às tendências em vez de defini-las, um padrão que continuou nas edições seguintes: Halloween H20: 20 Anos Depois (1998), muito influenciado por Pânico, e o horror extremo do remake da história original de Rob Zombie (2007).

Esses esforços para repensar, reformular e fazer o reboot daquele exercício original e comparativamente simples de suspense falharam e tiveram sucesso quase na mesma medida. Mas, mesmo assim, vamos gastar o dinheiro dos ingressos, não importa quão amargo seja o falatório, não importa quão terríveis sejam as críticas, porque crescemos com esses filmes.

Parte disso é nostalgia pura e simples: os filmes Halloween nos lembram das fitas de vídeo contrabandeadas para dentro da festa do pijama, de amigos assustando uns aos outros até tarde da noite, depois que os pais iam dormir. A série provavelmente nunca mais voltará a esse auge, e nós sabemos disso. Mas continuaremos acompanhando, como fãs obstinados de um time de beisebol que não ganha um campeonato em décadas, mas que ainda consegue vencer um grande jogo de vez em quando. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times

Estadão
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