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Peter Dinklage dá vida ao clássico 'Cyrano' em versão musical

Ator de 52 anos que ganhou vários prêmios por seu desempenho na série 'Game of Thrones'

5 jan 2022 20h10
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Peter Dinklage não se considera muito um cantor, e a luta de espadas está fora de sua área de especialização. Mas a oportunidade de dominar essas habilidades é exatamente o que o atraiu no novo musical Cyrano, que Dinklage protagoniza como um cantor em batalhas poéticas. "Preciso me sentir intimidado", disse. "Qualquer coisa que me assusta atrai meu interesse."

O ator de 52 anos abordou o material pela primeira vez em um musical no teatro escrito e dirigido por Erica Schmidt, esposa de Dinklage, com canções escritas por membros da banda The National. Depois de uma estreia na off-Broadway no final de 2019, o Cyrano de Schmidt foi transformado em um filme luxuoso dirigido por Joe Wright Desejo e Reparação, que traz o personagem-título cortejando secretamente seu verdadeiro amor, Roxanne (Haley Bennett), através de cartas enviadas pelo apaixonado soldado Christian (Kelvin Harrison Jr.).

Claro, isso levanta uma questão muito contemporânea: Cyrano de Bergerac inventou os perfis falsos? Embora o novo filme mantenha o cenário da peça de Edmond Rostand de 1897 na qual foi baseado, Dinklage detecta muitos paralelos modernos. "É exatamente o que estamos fazendo hoje com os encontros online, onde você assume um perfil que não é necessariamente fiel a quem você é", disse. "Todos nós fingimos ser outras pessoas em vários níveis."

Mas poucos fingem melhor que Dinklage, quatro vezes vencedor do Emmy, que interpretou o dissimulado de baixa estatura Tyrion Lannister por oito temporadas de Game of Thrones, culminando com seu final polêmico em maio de 2019. "Game of Thrones não era uma série de TV na verdade - era a minha vida", disse Dinklage. "Minha família ficava na Irlanda seis meses por ano, por quase 10 anos. Você cria raízes, minha filha estava indo à escola lá. Ela desenvolveu um sotaque irlandês porque ficava com crianças irlandesas o dia todo."

Seguem os principais trechos da entrevista:

Eu sei que sua esposa, Erica, estava bastante adiantada na adaptação de <CF737>Cyrano</CF> antes de você lê-la e decidir fazer parte. O que te convenceu?

Sim, ela foi contratada para escrever uma adaptação de Cyrano, e ela teve a grande ideia de reduzir ao essencial, substituindo os longos monólogos sobre amor por canções de amor. O mais importante para mim foi que finalmente consegui me conectar com a história porque ela se livrou do atributo mais famoso de Cyrano, que é o nariz obviamente falso no rosto do belo ator.

Eu sou um ator, já usei próteses antes, mas a pretensão disso não combinava comigo. Eu sempre pensei: "Por que isso? Você pode tirar no final da apresentação." E então Erica o removeu e eu pensei que tinha que fazer esse papel porque agora é sobre um cara que não sabe o que fazer diante do amor, que não tem nada a culpar além de si mesmo.

O que quer dizer com isso?

Acho que Cyrano é apaixonado pelo amor, e muitos de nós somos, mas não temos ideia do que seja. Eu sempre penso, e se Cyrano realmente conseguisse o que queria? Ele e Roxanne começariam a irritar um ao outro? Porque ele a mantém em um pedestal, é por isso que ele a ama? Eu acho que muitas pessoas fazem isso. Elas não querem chegar muito perto. Elas querem conhecer as coisas boas sem as ruins.

Você se lembra de quando conheceu Erica?

Claro. Já faz cerca de 18 anos. Estávamos todos na casa de um amigo e alguém disse: "Eles estão conduzindo os elefantes pelo túnel Queens-Midtown." O circo estava na cidade e estava nevando, e eles estavam levando os elefantes para passear por Manhattan, uma longa fila deles. Era como algo saído de um filme lindo, fantástico, do fim do mundo, louco e romântico. Está vendo? Sempre penso em filmes. Essa foi a noite em que nos conhecemos, a noite em que os elefantes caminharam por Manhattan.

Você foi capaz de superar sua tendência de se atormentar com o amor?

Eu não acho que você faça isso. Acho que outras pessoas fazem isso com você. Se alguém já teve a sorte de experimentar o amor, ele simplesmente toma conta de você. Você não controla como se sente, mas pode escolher o que fazer com isso.

O que é parte do problema com Cyrano, que pode se sentir indigno de amor.

Fui criado como católico irlandês, então me sinto totalmente indigno de tudo. É disso que espero que este filme esteja falando, aquele sentimento de indignidade por que todos nós passamos. Quando você conhece alguém que você ama, de repente essa pessoa é tão importante e poderosa que, claro, o seu pensamento é: "Eu não sou digno disso, porque eu seria? Isso é muito maior do que eu".

Como foi ser famoso no auge da febre de Game of Thrones?

É uma miríade de reações diferentes que recebo diariamente. As pessoas têm boas intenções, mas quando você está andando na rua com seu filho e as pessoas tiram sua foto sem perguntar... eu começo a pensar melhor e então paro, porque pega mal um ator reclamar disso. Todo mundo fica tipo: "você tem uma vida ótima. O que há de errado em tirar uma foto sua? Você é um artista, isso é meu direito".

Mas não é sobre isso. É mais sobre pensar no nível humano, eu não sou um animal de zoológico. Eu sou uma pessoa. Digamos que eu esteja tendo um dia muito ruim ou acabei de desligar o telefone e você está bem na minha cara. Devo sorrir para você? E por que você não está realmente se comunicando comigo? Na maioria das vezes, as pessoas tiram fotos sem pedir, e às vezes quando eu respondo, mesmo que gentilmente, elas não dizem nada porque ficam quase surpresas por eu estar falando com elas. É realmente selvagem. Se você é fã do que eu faço, por que me retribuiria com isso?

Por que acha que as pessoas agem dessa maneira?

Eu acho que muitas pessoas estão totalmente distantes umas das outras. Os telefones com câmera se tornaram como dedos, uma extensão delas mesmas, e elas nem mesmo pensam nisso, porque é assim que todo mundo vive. Atores muito mais famosos do que eu podem andar pela Broadway se eles se esconderem corretamente, mas eu não consigo fazer isso, então pode ser difícil. Mudei-me para a cidade de Nova York para ficar anônimo: "Quem se importa? Ninguém olha duas vezes". E agora, por causa da tecnologia, todo mundo olha.

George R.R. Martin queria que Game of Thrones continuasse por mais duas temporadas. Você acha que deveria ou era a hora certa para acabar?

Foi a hora certa. Nem mais nem menos. Mas eu acho que a razão de haver alguma reação negativa sobre o final é porque eles estavam com raiva de nós por termos terminado com eles. Estávamos saindo do ar e eles não sabiam mais o que fazer com suas noites de domingo. Eles queriam mais, então reagiram contra isso.

Tínhamos que terminar naquele momento, porque a série era muito boa em quebrar noções preconcebidas: os vilões se tornavam heróis e os heróis se tornavam vilões. Se você conhece sua história, quando acompanha o progresso dos tiranos, eles não começam como tiranos. Estou falando sobre - alerta de spoiler - o que aconteceu no final de Game of Thrones com aquela mudança no personagem. É gradual, e adorei como o poder corrompeu essas pessoas. O que acontece com a sua bússola moral quando você experimenta o poder? Seres humanos são personagens complicados, sabe? TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Estadão
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