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'Pássaros de Verão' expõe guerra de clãs por causa de droga, que põe em risco uma cultura

Filme de Ciro Guerra e Cristina Gallegos foca em grupo indígena da Colômbia seduzido e arrasado pelo capitalismo

22 ago 2019
03h11
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Há tempos que os críticos mais espertos vêm chamando a atenção para a vitalidade e diversidade do cinema colombiano, um dos melhores da América Latina. Mas foi preciso que Ciro Guerra fosse indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro por O Abraço da Serpente para que o mundo todo se rendesse à evidência. O Oscar da categoria agora contempla o melhor filme 'internacional'.

A visibilidade da Academia permitiu que Ciro Guerra e sua parceira, a produtora e aqui codiretora Cristina Gallegos, fizessem a sequência Pássaros de Verão, que estreia nesta quinta, 22, nos cinemas brasileiros. Numa iniciativa que vale destacar, Ademar de Oliveira não apenas está lançando Pássaros como traz de volta O Abraço da Serpente no Itaú Augusta, permitindo ao público avaliar a força do cinema colombiano e de seu agora mais internacionalmente conhecido artista, Ciro Guerra.

O mundo indígena, a cosmogonia dos primitivos habitantes da América seguem movendo o cineasta, mas agora tudo muda. O Abraço, em suntuoso preto e branco, abordava os povos da floresta. Pássaros, com suas cores elaboradas, passa-se na desolada região desértica do norte da Colômbia, próxima à fronteira com a Venezuela, nos anos 1960. É aí, entre o mar e a floresta, que vivem os wayuu. Numa entrevista por telefone, Guerra conta que, embora seu filme seja ficção, os fatos são reais.

"Os wayuu sempre foram contrabandistas, faz parte de sua história. Até hoje traficam combustível na fronteira, mas o que nos interessou, a Cristina e a mim, foi a guerra de clãs, ou famílias, movida pela droga. De cara, o cantador informa que a luta fratricida destroçou o mundo wayuu e provocou muita destruição. Quando começamos a pesquisar para contar essa história, vários elementos se somaram." Amor, ódio, mitologia, destino.

Numa entrevista por telefone, Cristina Gallegos admite. "Como produtora, continuo comandando a parte logística. Como codiretora, participo cada vez mais da dramaturgia e da conceituação, mas a parte visual é coisa de Ciro (Guerra)." E ele: "O tema da droga tem alimentado o cinema de gênero, o que nos levou à riquíssima tradição dos gângsteres, de Hollywood. Se você analisar, verá que esse cinema floresceu em momentos críticos da história dos EUA. Na Europa, os filmes de gângsteres nunca tiveram a mesma representatividade, porque lá a evolução foi diferente. Nos EUA, tudo foi muito mais rápido, como na Colômbia. Evoluímos de uma sociedade agrária, rural, para o mundo urbano, num período muito curto, em torno de 15 anos no filme. Nossa ideia foi usar a tradição de gângsteres para colocar na tela a natureza brutal e selvagem do capitalismo".

A Colômbia e o narcotráfico na era pré-Pablo Escobar. Um filmaço. "Quando começamos a pesquisar as disputas de território e de drogas no mundo wayuu, o que imediatamente chamou a atenção foi a conexão dessa cultura com o mundo grego", reflete Ciro Guerra. "A fatalidade do destino. Os wayuu são o grupo indígena dominante na Colômbia. Possuem uma consciência muito forte da tragédia, que é comunicada por meio de canções tradicionais. São a sua literatura. Como na Grécia antiga, os wayuu acreditam na figura do mensageiro e que os deuses se comunicam com os homens por meio de sonhos, onde os pássaros adquirem uma simbologia toda particular. Foi impressionante mostrar o filme para a comunidade. Eles viam nos pássaros significados que ultrapassavam o que havíamos tentado criar."

Na fábula sangrenta de Pássaros de Verão, a história de amor de Rapayet e Zaida coincide com o início da exploração de maconha para abastecer o mercado norte-americano. Isso catapulta uma família de indígenas a um mundo quase inimaginável de riqueza e poder, mas a ganância provoca uma espiral de violência que termina por tudo destruir. Algumas coisas chamam muito a atenção.

O empoderamento feminino está no centro da trama, mas Ciro Guerra diz que não tem nada a ver com o impacto de movimentos como o #MeToo. "Começamos nosso filme muito antes dos acontecimentos dos últimos dois ou três anos em Hollywood, e a verdade é que nossa matriarca é profundamente enraizada na cultura wayuu, na qual as mulheres são poderosas."

O filme foi construído de forma a integrar atores nativos com profissionais. "Era muito importante trazer esse elemento de verdade a nossa ficção. Ao mesmo tempo, sabíamos que teríamos de ter profissionais nos papéis decisivos do casal e da matriarca. Chegamos a pensar em termos dois casais, um adolescente e outro mais maduro, mas, quando escolhemos Natalia Reyes para ser Zaida e vimos que ela poderia fazer tanto a garota de 15 como a mulher de 30, isso terminou mudando nosso conceito do elenco.

Natalia foi a matriz e, em função dela, trouxemos José (Acosta, que faz Rapayet) e Carmina (Martinez, a matriarca). O nome dessa última, Ursula, é nossa homenagem a Gabriel García Márquez, porque a dimensão mítica de Cem Anos de Solidão foi fundamental para o tipo de universo que queríamos criar."

Estadão
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