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O Ramones da sci-fi: saudades de John Carpenter

Ao assistir ao ‘Duna’, senti saudades de John Carpenter.

30 out 2021 07h00
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“Dark Star – A Spaced Out Odissey”, de 1974, dirigido por ninguém menos do que John Carpenter
“Dark Star – A Spaced Out Odissey”, de 1974, dirigido por ninguém menos do que John Carpenter
Foto: USC / Divulgação

Aparentemente, boa parte da galáxia já assistiu ao novo “Duna”. Que bom, assim eu não preciso entrar em detalhes sobre toda a obsessiva jornada cultural do livro de Frank Herbert no Ocidente.

Haja débito cármico: desde seu lançamento, em 1965, essa história vem gastando dinheiro e massa encefálica de muita gente por aí, de David Lynch a Alejandro Jodorowsky, sem falar em executivos, críticos, fãs, etc. Será que, agora, finalmente exorcizaremos esse espírito obsessor?

Claro, a adaptação de Denis Villeneuve é tudo aquilo que, atualmente, se espera de um filme desse tipo: épico e super bem produzido. Mas, num certo momento, você não sabe se está assistindo a “Game of Thrones”, “Foundation”, “Star Wars” ou a qualquer outro. Às vezes, até os atores são os mesmos.

Como diria Byung-Chul Han, talvez isso seja resultado da Sociedade do Cansaço. Ou (alguns de nós, privilegiados) estão simplesmente empanturrados de tanto escapismo.

De qualquer forma, é certo que “Duna” reforça uma certa fadiga de obras de sci-fi grandiosas. Não é culpa do livro. Nem do diretor. A culpa é do excesso de oferta.

Por um lado, esse cenário lembra um pouco o mito da luta entre punk e rock progressivo, que a imprensa cultural espalhou nos anos 1980: quando o virtuosismo técnico e a complexidade imperavam, surgiu a necessidade de cultuar a simplicidade, o improviso, a precariedade e o “faça por si mesmo”.

Por outro lado, a Internet está cheia de amadorismo, circulando numa velocidade incrível — o que também cansa.

Essa é uma encruzilhada cultural, criada pela velocidade de produção e consumo de informação.

O filme de Villeneuve deve ser bom. Mas não deu tempo de perceber. Eram muitas emoções surgindo sucessivamente.

É preciso ser diligente para quebrar a compulsão pela próxima sensação grandiosa. É preciso ter disciplina para aceitar pausar, rever, reler e repensar. Hoje em dia, é como tentar ver a paisagem enquanto se nada contra a correnteza. Difícil, mas possível.

De qualquer forma, quem seriam os Ramones da ficção científica? Ora, se você me conhece há algum tempo, talvez já saiba a resposta: “Dark Star – A Spaced Out Odissey”, de 1974, dirigido por ninguém menos do que John Carpenter. É o meu filme de sci-fi favorito. O melhor? Certamente, não. Nem precisa ser.

Trata-se da história de quatro hippies barbudões, lixeiros do espaço, que convivem há 3 anos, numa nave. Se você sofreu no isolamento da pandemia, imagine essa situação. Para eles, o espaço é burocrático: um trabalho, não uma aventura tecnológica contra um império.

Até mesmo o computador de bordo é temperamental. Mais para Bartleby do que para Hal 9000. Em “Dark Star”, a máquina é pura lógica, pura empáfia discursiva: não basta puxar a tomada, é preciso debater, convencê-la a colaborar. Ela é tão eficiente que se torna uma ameaça à maluca, desorganizada e fedorenta tripulação humana. “Por favor, desarme essa bomba”. “Prefiro não”.

John Carpenter anda focado na sua carreira de músico, fazendo trilhas sonoras para filmes de suspense. Faz falta. Se é para ser obcecado com Duna, imagine o que seria uma versão do livro dirigida por ele. Alguém teria um alien-bolha como animal de estimação?

(*) Eduf é cientista social, publica na internet desde 1996. Escreve, produz podcasts e desenvolve websites.

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