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Nova safra de filmes mostra que o terror é o gênero mais adequado à era da covid-19

Enquanto o distanciamento social nos colocou em quarentena em nossas casas, cada vez mais isolados e solitários, olhamos para os estranhos com um pouco mais de cautela

7 ago 2020
05h10
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O primeiro elemento básico de um bom filme de terror é um lugar isolado. Qualquer local desabitado serve: cabana na floresta, motel vazio, meio do oceano, Detroit, apenas algum lugar em que ninguém possa ouvi-lo gritar. Preencha-o com possíveis vítimas, adicione um monstro e você tem tudo o que precisa para fazer as coisas darem errado durante a noite.

É por isso que o terror é o gênero cinematográfico mais adequado à era da covid-19, quando o isolamento se tornou não apenas um modo de vida, mas necessário para evitar mortes. O distanciamento social nos colocou em quarentena em nossas casas, cada vez mais isolados e solitários, olhamos para os estranhos com um pouco mais de cautela. Embora tenham sido feitos antes da pandemia, três novos filmes de terror ousados e arrepiantes, todos dirigidos por mulheres, têm um novo tipo de ressonância temática.

She Dies Tomorrow parece o mais profético, pois se trata de um contágio, um caso peculiar em que a repentina premonição de que uma mulher morrerá no dia seguinte se espalha, de uma pessoa para outra no mesmo espaço. O primeiro grande choque em Amulet ocorre quando um morcego escamoso emerge de um banheiro, uma imagem aterrorizante que não pode deixar de lembrar um dos mercados úmidos de Wuhan. E até o retrato íntimo de uma mulher mais velha e decadente, cuja filha quer colocá-la em um asilo, como em Relic, assume uma carga adicional, considerando que mais de 50 mil americanos morreram de covid-19 em tais instalações.

E, no entanto, a conexão mais forte entre esses filmes repletos de pavor é uma sensibilidade à natureza punitiva da solidão e aos aspectos sinistros do isolamento.

She Dies Tomorrow é muito diferente de filmes que também mostram vírus como Contágio e Epidemia, que de repente se tornaram populares novamente com os cientistas correndo contra o relógio para salvar o mundo. Amy Seimetz criou uma obra de atmosfera excêntrica e surpreendente com a vibração sussurrante de um disco indie sombrio. Seus primeiros 15 minutos retratam uma mulher chamada Amy (Kate Lyn Sheil) sozinha em sua casa, com foco em seus olhos e, então, vários closes demorados. Ela está convencida de sua morte iminente, mas parece estranhamente resignada.

Em imagens oníricas, Amy a filma ouvindo música, dançando, fazendo compras online, olhando para longe, tentando chorar, mas não conseguindo. Quando ela conta a sua amiga Jane (interpretada com requintada fragilidade por Jane Adams) que vai morrer no dia seguinte, não é levada a sério. Ninguém se conecta nesse filme. Todo mundo aparece em seu próprio mundo, como se não olhasse para a pessoa com quem conversa, mas mantivesse um olhar fixo.

Dois desses filmes de terror, que retratam o relacionamento tenso entre uma mulher mais velha e seu cuidador, falam dessa situação. Relic é um estudo de caráter matizado, um retrato de uma mente desordenada que sugere um terror sobrenatural. Em seu filme de estreia, a diretora Natalie Erika James nos mostra uma família cujos laços se desgastaram. A avó, Edna (Robyn Nevin), desapareceu e sua filha Kay (Emily Mortimer) e a neta (Bella Heathcote) a procuram. Kay cresceu longe da mãe e discute com a filha a respeito de colocar a matriarca em um asilo. Entre essas cenas familiares mundanas, há flashbacks de uma cabana na floresta que abriga uma figura solitária. A casa começa a funcionar como uma metáfora, tanto para os alicerces instáveis de seus relacionamentos quanto para a mente de Edna.

Natalie usa as ferramentas de filmes de terror (sequências ameaçadoras, movimentos de câmera, zumbindo de moscas), mas as enraíza no realismo. O resultado é um dos filmes mais emocionantes de esgotamento de memória, o raro filme de terror que evoca a sensível peça de Kenneth Lonergan, The Waverly Gallery, outro retrato de uma família que lida com a mente decadente de uma matriarca com Alzheimer.

Enquanto esses filmes se concentram em complexas relações entre mulheres, Amulet mergulha profundamente na dinâmica de gênero. Como os outros filmes, retrata várias personagens em isolamento, começando com longas cenas de um soldado solitário, Tomaz (Alec Secareanu), talvez sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático, vigiando a floresta. Então a ação avança rapidamente para o tempo pós-guerra, quando ele se cadastra para ajudar uma jovem reclusa, Magda (Carla Juri), a cuidar de sua mãe inválida.

Ninguém é exatamente quem parece ser. Nem o filme. Há muitas reviravoltas, mas o que começa como uma história em relação ao passado perturbado de um homem transforma-se ferozmente em uma história de vingança sobrenatural. Explora a questão de perdoar homens que fizeram coisas ruins. A divertida Imelda Staunton, que interpreta uma freira que apresenta Tomaz a Magda e sua mãe, aproveita a oportunidade para representar em um estilo gótico melodramático. Desde Darth Vader, ninguém disse "É o seu destino" com tanto peso. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Estadão
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