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Jay Roach fala sobre dirigir 'O Escândalo'

Charlize Theron fez questão de incluir diretor no filme sobre assédio sexual que estreia esta semana

16 jan 2020
07h10
atualizado às 10h42
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LOS ANGELES - O debate sobre a presença de mais mulheres na frente e atrás das câmeras continua a todo vapor em Hollywood. Elas podem ter conquistado um recorde de 31% das indicações ao Oscar este ano, por exemplo, mas nenhuma diretora foi indicada em sua categoria. Dos nove longas concorrentes à estatueta de melhor filme, apenas um, Adoráveis Mulheres, é sobre mulheres. Há um sobre um casal se divorciando (História de um Casamento) e um sobre duas famílias de classes sociais diferentes (Parasita). Nos outros todas as personagens femininas são coadjuvantes - bem coadjuvantes mesmo, quando não totalmente ausentes. Mas há algum esforço para mudar a situação. Diretoras como Ava DuVernay têm sido mentoras de cineastas do sexo feminino. Nicole Kidman prometeu ser dirigida por uma mulher pelo menos a cada 18 meses. E muitas atrizes se tornaram produtoras para criar conteúdo com mais protagonistas femininas e dar mais oportunidades a mulheres em geral.

Jay Roach, diretor de 'O Escândalo'
Jay Roach, diretor de 'O Escândalo'
Foto: Mario Anzuoni / Reuters

É o caso de Charlize Theron, com sua Denver and Delilah. Quando o roteiro de O Escândalo, sobre os casos de assédio sexual contra o CEO da Fox News, Roger Ailes, chegou à sua produtora, ela não pestanejou — mesmo que tivesse sido escrito por um homem, Charles Randolph. Theron conversou sobre o roteiro com seu amigo, o diretor Jay Roach, e decidiu que ele seria a melhor pessoa para dirigir o filme, que estreia nesta quinta-feira (16) no Brasil e concorre a três Oscar (melhor atriz para Theron, coadjuvante para Margot Robbie e maquiagem). "Jay Roach obviamente não é uma mulher - ninguém é perfeito", disse Theron em entrevista em Los Angeles. "Apoio muito a presença feminina no set. Tínhamos mais mulheres que homens. E apoio as cineastas mulheres. Mas nenhuma transformação vai acontecer se os homens não forem incluídos nesta conversa."

Roach disse ao Estado que chegou a perguntar à amiga se ela não preferia contratar uma mulher. "Eu disse: Ok, mas só se você for nossa parceira nisso. E ela foi. Foi uma guerreira", disse o diretor. A ideia de escrever sobre o escândalo envolvendo o todo-poderoso chefão da Fox News, acusado por algumas das principais âncoras do canal, como Megyn Kelly (Theron) e Gretchen Carlson (Kidman), de assédio sexual, surgiu para Charles Randolph na época em que estava acontecendo — Ailes pediu demissão em 2016. "Eu tive muitas conversas com mulheres e sabia como o problema era comum", disse o roteirista. "Então para mim pareceu que era hora de todos nós contarmos essa história, homens, mulheres, jovens e velhos. Escrevi antes de estourar o escândalo de Harvey Weinstein (em outubro de 2017). Não sabia se alguém ia prestar atenção. E no fim, com o #MeToo e o Time's Up, muita gente acabou prestando atenção."

O processo de escrever e depois filmar a história de assédio sexual foi um aprendizado para Randolph, Roach e também John Lithgow, que faz Roger Ailes. Uma das cenas mais fortes do filme é Ailes pede a Kayla (Margot Robbie), uma personagem que é uma combinação de várias mulheres, que levante sua saia pouco a pouco. "Acho que o instinto masculino é minimizar: 'Ah, o que tem demais em mostrar as pernas?'. Os homens não costumam entender como esse tipo de experiência pode ser devastador e completamente transformar a vida de uma mulher", disse Randolph. "O dia em que filmamos esta cena foi muito sensível para todos nós. Jay (Roach), eu e a maior parte dos homens da equipe vimos pela primeira vez nos olhos das mulheres no set o quanto elas estavam abaladas." John Lithgow, que se disse casado com uma feminista de carteirinha, acredita que a cena é a chance de colocar os homens dentro do escritório ou do quarto de hotel em que o assédio e o abuso acontecem. "Nós nunca vamos além da porta fechada. Esta é uma chance de se aproximar da experiência."

Roach reagiu apaixonadamente à noção de que uma mulher poderia simplesmente dizer não ao assédio e deixar a sala. "Não vamos colocar a culpa na vítima. Em geral, essas mulheres não tinham poder para enfrentar uma situação dessas no trabalho e recusar ou denunciar o homem", afirmou. "Muita gente depende do emprego, afinal. E não só. Ela eram coagidas. Houve o caso de uma repórter que tinha um futuro brilhante pela frente como correspondente de guerra. Ela sofreu assédio. Não fez uma reclamação na Fox News nem nada. Seu agente mencionou de passagem para alguém numa conversa, ela foi demitida no dia seguinte e nunca mais conseguiu um trabalho na televisão. Algo assim acontecer é errado e ponto final."

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Estadão
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