Crítica do Filme

Carol Almeida

Filmes de época, particularmente aqueles que recortam e emolduram parte da vida de um personagem real, costumam exigir algo de abdicação dos diretores. Afinal, quando a proposta é também servir à História com "h" maiúsculo, é natural que se tome distância dos delírios autorais em nome da aproximação com uma paisagem humana registrada em documentos. Para qualquer diretor mais apegado à sua imagem no espelho, é fácil fazer desse registro um épico de violinos e gruas infindáveis. Mas Félix Lope de Vega (1562 - 1635) não é um herói de espada em punho ou nobres batalhas.

O poeta espanhol, tal como ele é visto no filme que leva seu nome, é apenas um rapaz sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do exterior. No cinema, o nascimento de Lope, o poeta, exige uma aproximação menos rebuscada e mais trivialmente humana. E o brasileiro Andrucha Waddington faz isso com uma discreta elegância.

Lope, filme que estreou em Veneza, já entrou no circuito comercial da Espanha, teve sua primeira exibição no Brasil no Festival do Rio, passou pela Mostra de São Paulo e agora chega às salas comerciais. O fato de ser uma superprodução espanhola (com co-produção da brasileira Conspiração Filmes) dirigida por um brasileiro e estrelada por espanhóis, brasileiros e um argentino no papel-título, é informação suficiente para motivar, no mínimo, uma inclinação para a curiosidade. Levando-se em conta ainda que o personagem é constantemente comparado ao protagonista do filme Shakespeare Apaixonado, a publicidade fica ainda mais interessante.

Retirando todos esses elementos extratrama, Lope é, na verdade, um filme sem grandes ambições e, por isso mesmo, sustenta uma narrativa leve sem ser comédia, e por vezes intensa sem ser dramática. Waddington acerta ao deixar a câmera passeando por Alberto Ammann, o já citado ator argentino, residente na Espanha. O rapaz que interpreta o poeta de versos inflamados e uma desenfreada inclinação para conquistar mulheres com a lábia de sua pena, é visto aqui em seus primeiros versos. Ou seja, o Lope do filme de Waddington é um artista em formação e carrega todo aquele comportamento volátil no que há de mais intempestivo - e apaixonante - nesses dias de construção de identidade.

Ammann vai bem, obrigado, como um pós-adolescente que, de cara, nos é apresentado como conquistador de carteirinha, uma espécie que, sai geração, entra geração, não deixa de povoar o imaginário feminino dos lindos intelectuais barbudos de corredores universitários, diretórios acadêmicos e sofás de livrarias. Sua história parte do momento em que ele se despede da mãe, interpretada por Sonia Braga numa participação bem especial (leia-se, bem rápida) na história. Com a morte da matriarca, dá-se a partida de Lope por sua independência, financeira, afetiva e artística.

Fora do exército, para o qual ele havia se alistado, o poeta começa então a criar laços com Jerónimo Velázquez, dono de um teatro, e sua filha Elena, uma de suas primeiras conquistas. Velázquez é interpretado por um veterano da TV espanhola, Juan Diego. O personagem é crucial para explicar como se deu o teatro de vanguarda assinado pelo artista que, em seus primeiros anos, é conhecido por sua subversão (ainda que o filme pontue sua inextricável ligação com elementos religiosos).

Já Elena ganha os contornos magros e alvos de Pilar López de Ayala. Começa uma relação de arroubos e beijos calorosos, até que você percebe que o sempre muito atento Lope não fecha suas portas para outras moças, tais como a jovem casta Isabel (Leonor Watling). As duas são apenas uma pequena mostra da intensa carreira amoroso do artista, só não tão produtivo com as mulheres como foi com os versos. Até hoje, Lope é reconhecido como um dos mais prolíficos poetas de todos os tempos: a ele são atribuídos três mil sonetos, três novelas, nove poemas épicos e, acreditem, 1800 peças de teatro.

É certo que, assim como em seus filmes anteriores, Waddington usa planos abertos para criar os momentos de respiração do filme. Mas fica claro que seu foco está mesmo no rosto dos personagens, na construção de uma história guiada mais por uma direção de atores que qualquer outro elemento externo. Faz com isso um longa honesto em suas intenções e disposto a conquistar corações afeitos a métricas românticas.