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'Henfil' e 'Maria Callas' entre as estreias de cinema da semana

Entram em cartaz nos cinemas brasileiros, ainda, filmes nacionais como 'O Beijo no Asfalto' e 'Rasga Coração'; veja os trailers

6 dez 2018
06h11
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Chegam aos cinemas brasileiros esta semana os documentários Henfil e Maria Callas - Em Suas Próprias Palavras. O Ódio Que Você Semeia, Rasga Coração e O Beijo no Asfalto também estão entre as estreias de cinema da semana.

DOCUMENTÁRIO

Henfil, num filme à medida de seu gênio

Quem assistir ao belo filme de Angela Zoé sobre o cartunista, jornalista e ativista brasileiro Henrique de Souza Filho, o Henfil, arrisca-se a tomar um choque. Henfil - também o título do documentário - não foi apenas um oponente feroz da ditadura militar. Foi um cara muito inteligente e criativo. Angela não dispensa as entrevistas - Jaguar, Ziraldo, Lucas Mendes, Sérgio Cabral, etc. "Mas eu não queria fazer um filme engessado, queria trazer o Henfil para a nova geração, que não o conhece."

Sua sacada foi fazer com que um grupo de jovens, dentro do filme, crie os quadrinhos, os cartuns que vão revelar o personagem. Só isso já faz de Henfil um documentário que não se assemelha a nenhum outro do cinema brasileiro recente. E tem mais - "Em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, sugerimos às pessoas que cheguem um pouco antes da sessão, porque criamos um conteúdo exclusivo em realidade virtual. São dois minutos de cartuns animados que vão ajudar a promover um encontro geracional. Os pais que viveram tudo aquilo vão levar seus filhos e conhecer a VR. A garotada, que já é mais familiarizada com o mundo virtual, vai conhecer o homem, o artista, o ativista. No final, meu sonho é que pais e filhos saiam para uma pizza e um refrigerante, ou um chope, e troquem experiências."

Henfil tornou-se referência para toda uma geração, nos anos de chumbo. Com seus cartuns no Pasquim, impôs personagens como Fradinhos, Graúna, o bode Orelana, o nordestino Zeferino e Ubaldo, o paranoico, com os quais fazia ácidas críticas ao regime. Como os irmãos Betinho (sociólogo) e Chico Mário (músico), era hemofílico. A própria mãe do Henfil tornou-se uma personagem emblemática do período, celebrada até na música - por Elis Regina, na sua genial interpretação de O Bêbado e a Equilibrista. Henfil morreu de aids, tendo contraído o vírus numa transfusão de sangue. É esse personagem único que Angela Zoe celebra em seu filme, também único. / LUIZ CARLOS MERTEN

Henfil (Brasil/2017, 74 min.) Dir. Angela Zoé

DOCUMENTÁRIO

Maria fala de Callas e a mulher decifra o mito

Luchino Visconti a idolatrava e seus biógrafos esmeram-se nos livros a reconstituir como foi sua colaboração com Maria Callas. Franco Zeffirelli sempre fez alarde da intimidade, e de como frequentava o apartamento em Paris, onde ela viveu reclusa seus últimos anos. E Pier-Paolo Pasolini fez de Callas a sua Medeia.

Maria, a mulher, Callas, o mito. Maria conta Callas - nas próprias palavras. A sacada do belo documentário de Tom Volf consiste em fazer com que a própria biografada conte sua história. Alguns entrevistados ajudam a situar sua extensão vocal, o verdadeiro fenômeno que foi sua voz. Mas a voz não era tudo. Callas possuía o temperamento dramático de uma verdadeira atriz. Virou 'a' diva.

O filme dá conta de tudo isso - e da infelicidade que a acompanhou toda a vida. Callas viveu um romance muito forte com o magnata Aristóteles Onassis, que a rejeitou ao se casar com Jacqueline ex-Kennedy. O filme é fascinante. Perseguida pelo paparazzi, ela admite. Queria uma família, um lar. Teve uma grande carreira, mas ela nunca lhe bastou. / L.C.M

Maria Callas - Em suas próprias palavras / Maria by Callas (França/2017, 112 min.) Dir. Tom Volf

TERROR

A Mata Negra' investe em estética trash

Com A Mata Negra, o diretor Rodrigo Aragão tenta inseminar o gênero terror com temas populares brasileiros. A proposta não é nova - está na base do cinema de José Mojica Marins, o cult e clássico do horror nacional com seu personagem Zé do Caixão. Mojica tinha sacadas geniais e as mesclava ao trash comum a esse filão.

Em A Mata Negra, Clara (Carol Aragão, filha do diretor) é uma garota criada por um senhor idoso. Um dia, ela encontra um moribundo que lhe confia O Livro Perdido de Cipriano. A partir daí, Clara é sugada por um turbilhão de aventuras, magia negra, cenas assustadoras e sangue, muito sangue.

Recheado de boas ideias, o filme paga, no entanto, o preço de suas referências e envereda por uma estética trash intensificada no final. Esse excesso de ênfase acaba por enfraquecê-lo. No entanto, fica a ecoar a voz de um pastor corrupto (Jackson Antunes) e duas de suas frases: "Produza alguém para o povo odiar e eles te seguirão". E, por fim: "Ainda acabarei presidente desta m. de país". Aprofundasse esse caminho, o filme andaria muito melhor. / LUIZ ZANIN ORICCHIO

A Mata Negra

(Brasil/2018, 98 min.) Dir. Rodrigo Aragão. Com Carol Aragão, Jackson Antunes, Clarissa Pinheiro

DOCUMENTÁRIO

Em foco, as atitudes dos homens em relação às mulheres

Em Câmara de Espelhos, a diretora Dea Ferraz pretende estudar as diferentes atitudes dos homens em relação às mulheres. Colocados em uma sala, os participantes são convidados a debater, estimulados por vídeos que passam numa tela de TV. São tópicos variados como a traição, o mercado de trabalho, mulheres que alcançaram o poder, sexualidade, posse, filhos, etc. Há uma evidente tipologia entre os participantes, num arco que vai do arquiconservador, passando por posições moderadas e atingindo as mais liberais.

Os resultados são mais do que conhecidos e esperados. Vivemos em uma sociedade machista e os homens, ainda que tentem disfarçar, consideram-se proprietários das mulheres e, em muitas situações, superiores a elas. Esse preconceitos, explícitos nos machões, encontram-se enrustidos e camuflados em posições mais liberais. Este último ponto é o mais estimulante.

Ainda assim, o filme não consegue evitar o tédio do dispositivo adotado nem a previsibilidade geral das conclusões a que conduz os espectador. / L.Z.O.

Câmara de Espelhos (Brasil/2016, 79 min.) Dir. Dea Ferraz

DRAMA

Uma imersão pela vida no subúrbio

Um dos textos mais conhecidos de Nelson Rodrigues ganha aqui tratamento inspirado no primeiro longa de Murilo Benício como diretor. Arandir (Lázaro Ramos) beija um moribundo e tem sua vida destruída. Uma imersão na vida do subúrbio, com suas taras, mesquinharias e falso moralismo. / L.Z.O.

O Beijo no Asfalto (Brasil/ 2017, 98 min.) Dir. Murilo Benício. Com Lázaro Ramos, Débora Falabella, Fernanda Montenegro

DRAMA

Conflitos familiares em 'Rasga Coração'

Filme junta duas pontas de tempo. Manguari (Marco Ricca) foi militante na juventude e agora enfrenta a revolta de seu filho Luca (Chay Suede), que pretende deixar a faculdade para virar hippie. O pai busca compreender o filho, com a doce mediação da mãe (Drica Moraes). / L.Z.O.

Rasga Coração

(Brasil/2017, 115 min.) Dir. Jorge Furtado. Com Marco Ricca, Luisa Arraes, Drica Moraes

DRAMA

Retrato duro da solidão infantil

Um recorte da vida de Pedro (Shico Menegat), que faz performances eróticas pela internet para sobreviver. Ele tem contas a acertar com a justiça e se defronta com a hostilidade da cidade grande. Retrato duro e poético da solidão juvenil. A borda de maneira incisiva e delicada o homoerotismo. / L.Z.O.

Tinta Bruta

(Brasil/2017, 118 min.) Dir. Filipe Matzembacher, Marcio Reolon. Com Shico Menegat

TERROR

Liberto, o mal faz os estragos de sempre

O velho tema da casa assombrada. Casal muda-se, a mulher grávida perde o bebê. Tem a ver com uma caixa que havia no local, e estava contido um espírito do mal. Liberto, o ser maligno faz os estragos que você pode imaginar. Mas o terror é fraquinho, e sem graça, mais risível que assustador.

O Chamado do Mal

(EUA/, 2017, 90 min.) Dir. Michael Winnick. Com Josh Stewart, Delroy Lindo

DRAMA

Histórias cruzadas, por um especialista

Criador da série This Is Us, o diretor e roteirista Fogelman repete-se, agora contando a história de casal que espera bebe e de repete o círculo alarga-se. São outros casais, vários personagens cujas histórias estão relacionadas. Como? Veja para saber. O elenco inclui Annette Bening e Mandy Patinkin.

A Vida em Si

(EUA/2018, 118 min.) Dir. Dan Fogelman. Com Olivia Wilde, Oscar Isaac, Antonio Banderas

DRAMA

Altos elogios para relato antirracista

Embora o diretor não tenha um currículo brilhante, a crítica está encantada e recomenda seu novo trabalho. Garota negra testemunha o assassinato do amigo por policial branco. Apesar de todas as pressões para abafar o caso, ela decide contar a verdade no tribunal. Amanda, a Rue de Jogos Vorazes, impressiona no papel.

O Ódio Que Você Semeia

(EUA/2018, 132 min.) Dir. George Tillman Jr. Com Amandla Stenberg, Regina Hall

Estadão

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