PUBLICIDADE

Em 'Dora e Gabriel', Ugo Giorgetti confina personagens em um porta-malas

Casal no porta-malas durante um sequestro vira uma metáfora do Brasil

25 set 2021 05h11
ver comentários
Publicidade

Natalia Gonsales é conhecida principalmente por sua atividade como atriz de teatro. Entre muitas outras peças, foi muito bem-sucedida ao substituir Fernanda de Freitas na montagem do texto de Dib Carneiro Neto, Pulsões. No palco, dois casais, um de atores e outro de músicos.

O teatro aproximou-a de Ugo Giorgetti. Foi simples assim. Ele lhe disse que tinha o projeto de um novo filme. Um casal, o homem, mais velho, a mulher, jovem. Perguntou se ela teria interesse? Claro! A conversa ficou assim. O tempo passou e nada de Ugo procurá-la. Como quem não quer nada, Natalia bateu na porta da produtora do cineasta, cobrando o roteiro.

Na quinta-feira, dia 23, finalmente estreou Dora e Gabriel. Ugo Giorgetti dirige Natália e Ary França. De cara, um plano do alto mostra um carro parando no sinal e o motorista sendo abordado por assaltantes. Eles o colocam no porta-malas e essa ação está sendo apresentada quando aparece a jovem, ao fundo. Ela também é jogada no porta-malas do carro. Sobra somente um sapato de mulher no meio da rua. Essa é toda, ou quase toda, a situação focada em Dora e Gabriel. O casal no porta-malas vira uma metáfora do Brasil.

Ary França conta: "Conheci o Ugo fazendo publicidade. Lá atrás já havia feito com ele o Festa. Fazia o garçom epilético". Fazendo jus ao título, o filme mostrava a festa de dois pontos de vista - os convidados, no salão, e a turma dos bastidores, no andar de baixo, os trabalhadores.

Nesses anos todos, França fez filmes como Durval Discos, de Anna Muylaert, participou de montagens importantes. Agora mesmo, tem dois novos filmes para estrear - as comédias Amarração do Amor e 45 do Segundo Tempo. Nunca deixou de seguir o cinema de Giorgetti. Concorda com o repórter, que destaca o minimalismo do diretor. "Os filmes vão direto ao ponto, têm diálogos econômicos. O Ugo não perde tempo com firulas."

E Natália. "Como eu tenho formação em dança e fiz muito teatro, uma década inteira, chegaram a me dizer que estava velha para me iniciar no cinema. Longe de desanimar, fiquei tentada a provar que não. Sempre quis ampliar minha forma de diálogo com o público. O cinema era uma tentação. Fiz curtas, mas os longas demoraram."

Os longas, no plural, vieram quase juntos, o de Giorgetti e o novo filme de Guilherme de Almeida Prado (Odradeck, baseado em um conto de Kafka), outro nome destacado do cinema paulista, com títulos como A Dama do Cine Shangai, Perfume de Gardênia, A Hora Mágica e Onde Andará Dulce Veiga?, todos retratos de mulheres. Ela explica o inusitado da situação de Dora e Gabriel. "Quando Ugo Giorgetti falou que era sobre um casal num porta-malas, a gente não se deu conta do que isso representava." Impossível não falar em desconforto. As filmagens duraram cerca de quatro semanas. Uma réplica do porta-malas foi construída num galpão em Santana de Parnaíba, onde o filme foi rodado. "Era uma caixa, só um pouco maior do que o porta-malas real, uns centímetros a mais para acomodar a câmera", lembra.

França acrescenta - "A gente não aguentava ficar muito tempo ali dentro, todo dobrado. Entre uma tomada e outra tinha de sair, fazer alongamento, senão o corpo velho não aguentava."

Agora, imagine. Dora e Gabriel ficam o tempo todo falando dentro do porta-malas. Reclamam, tentam descobrir o por quê de estarem ali, ela acusa. "Para a Dora tem de haver um motivo para o sequestro. Ela diz que o Miguel é libanês, tem cara de terrorista e é dessa maneira que o conflito se constrói", diz França. Por um buraco no estofamento é possível ter uma visão - exígua - do interior do carro. O que é aquela máscara? Ele acrescenta que Dora é reativa, e Gabriel "possui um passado". A par do desconforto provocado pelo mínimo de movimentos, a dupla tinha o diálogo para decorar, e dizer.

Preparação

"Fizemos uma preparação como no teatro, com o texto na ponta da língua. Difícil era trabalhar com a entonação naquelas circunstâncias", ele conta. Natália observa que a reação de Dora ao confinamento é a sensação de sufocamento que persegue a mulher. "Surge a asma como elemento de fragilização da Dora." O tempo todo Miguel lhe pede "calma". No final, deu tudo certo na filmagem. "Embora anterior à covid, o filme chega neste momento com uma forte carga de simbolismo. É quase impossível não pensar em Dora e Gabriel como metáfora do Brasil", ressalta Natália.

França concorda: "O Ugo é de uma geração que nunca desistiu de pensar o País. Ele já colocou as desigualdades numa festa, no Sábado tinha aquele elevador, no Cara ou Coroa havia o teatro, agora tem o porta-malas". E França não se esquece do futebol em Boleiros 1 e 2. "Mesmo quando parece que Ugo vai trilhar um caminho conhecido, ele consegue surpreender", analisa.

O repórter só pode concordar - provavelmente nunca haverá, na filmografia sobre futebol, uma história como a de Paulinho Majestade, em Boleiros, o primeiro.

Elenco sofreu nas filmagens

Em entrevista para falar sobre sua participação no novo Ugo Giorgetti - Dora e Gabriel -, Ary França faz uma observação interessante. Diz que o diretor paulistano de 79 anos - completará 80 no ano que vem -, consegue ser original mesmo quando percorre trilhas aparentemente conhecidas.

É o caso do filme que estreou na quinta, 23. Jafar Panahi colocou o Irã dentro de um carro - em Táxi Teerã - e ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Tata Amaral filmou um sequestro relâmpago em São Paulo. Giorgetti filma outro assalto, mas, no caso dele, Dora e Gabriel vão parar no porta-malas do carro.

Primeiro o homem, mais velho, depois a mulher, mais jovem. Sequestrados. Ela tenta entender o que está ocorrendo. Acha que se trata talvez de alguma vingança - ele é libanês, tem cara de terrorista. Seja como for, e entre crises de asma que provocam o sufocamento de Dora, tentam sobreviver no espaço diminuto.

França e Natalia Gonsales, que fazem a dupla, contam que a filmagem foi difícil, mesmo que, na maior parte do tempo, o porta-malas fosse uma caixa reconstruída em estúdio, um pouco maior do que o tamanho real. Ali ficam, menos no começo, e no fim. A limitação do movimento é angustiante para o elenco, e o público. Foi um tormento que França e Natália assumiram pelo prazer de trabalhar com o diretor.

Giorgetti veio da publicidade, e a maioria dos diretores formados nessa escola adora uma firula. Ele vai na contramão. Não nega que a publicidade o ajudou. Aprendeu a trabalhar em equipe, a ser direto, mas seu cinema é sempre crítico, o diálogo é enxuto, a filmagem é econômica. Uma boa definição para ele seria "minimalista".

Dora e Gabriel desenvolve-se a partir desse começo imprevisto, e imprevisível. Um homem e uma mulher no porta-malas. Se algum roteirista de Hollywood fosse o autor da ideia, os dois muito provavelmente estariam numa comédia romântica e sairiam do porta-malas para o felizes para sempre. Com Giorgetti, o percurso é outro.

No Brasil de Jair Bolsonaro, o porta-malas e o casal viram metáforas do País sem destino. Entre a ideia, a filmagem, e o lançamento, houve a covid. Pode-se ver também no confinamento forçado outra metáfora, sobre a pandemia. O filme é rico em possibilidades. Giorgetti, quando acerta, e aqui acertou, é bom demais.

Estadão
Publicidade
Publicidade