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Diretor e roteirista de novo 'West Side Story' atualizam a trama

Spielberg e Kushner mantêm ação no passado, mas foco é atual, com contraste social e racial, abusos da polícia, machismo

8 dez 2021 05h10
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Steven Spielberg tinha 15 anos quando West Side Story/Amor, Sublime Amor fez história no Oscar de 1961. Foi o segundo filme a ultrapassar a barreira dos dois dígitos, com 10 vitórias nos prêmios da Academia - após Ben-Hur, de William Wyler, com 11, em 1959 - e depois disso Titanic demoraria 36 anos para igualmente receber 11 estatuetas, em 1997. Também foi o único filme a vencer com duplo crédito de direção, mas houve tensão no palco. Robert Wise, que também era produtor, havia despedido Jerome Robbins, por achar que seu cuidado com a coreografia atrasava o cronograma.

Spielberg não tinha nenhuma familiaridade com o musical, exceto, talvez, o número de abertura, no cabaré de Indiana Jones e o Templo da Perdição. Sai-se às mil maravilhas, mas até quando parece estar seguindo o figurino do original, na verdade está submetendo o filme antigo a uma espécie de revisão. Shakespeare no West Side. Jets e Sharks substituem Capuletos e Montecchios, Tony e Maria são os novos Romeu e Julieta. O que muda, substancialmente, é a sacada do roteiro de Tony Kushner, que já escreveu Munique e Lincoln para Spielberg. O fecho da trilogia informal sobre o 11 de Setembro, integrada por O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, e a aula de democracia.

Na seleção do recente Cine Ceará, não houve outro tema que não o mundo em ruínas - físicas, de casas e prédios destroçados, ruínas humanas. Na visão spielbergiana, todo o West Side está sendo colocado abaixo num projeto de requalificação urbana. Nesse quadro, as disputas de territórios pelos grupos rivais ficam ainda mais prementes. Tony saiu da cadeia e tem um histórico de violência. O número narcisístico de Maria - I Feel Pretty - ocorre na loja em que ela faz a limpeza. Bernardo, seu irmão, é pugilista. Parecem pequenas liberdades, mas mudam tudo.

Clássicos

As canções com música de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim seguem encantatórias. Tonight e Maria são clássicas, e só o próprio Sondheim não gostava de I Feel Pretty. A energia atravessa os dois filmes. A dança é vertiginosa e a química entre Ansel Elgort e Rachel Zegler supera a de Richard Beymer e Natalie Wood - Beymer sempre foi considerado um ator que não estava à altura do papel. Rita Moreno, que fazia Anita, poderá bisar seu Oscar de coadjuvante, agora como Valentina, que trafega entre Jets e Sharks. Desigualdade racial e social, machismo, abusos da polícia. Spielberg e Kushner mantêm a ação no passado, mas o foco é contemporâneo. Depois de Em um Bairro de Nova York, parecia impossível que eles ainda pudessem surpreender, mas conseguem.

Estadão
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