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Diretor de 'Pantera Negra' investe na presença feminina nos bastidores

Além de personagens femininas fortes em seus filmes, Ryan Coogler se cerca de mulheres na produção

13 jan 2019
03h11
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Em uma quinta-feira de outubro, quando a campanha do Oscar para promover Pantera Negra teve início, Kathleen Kennedy, numa sala repleta de eleitores do prêmio, pegou o microfone. A presidente da Lucasfilm havia patrocinado uma recepção em Hollywood e os olhos dela se fixaram no diretor de 32 anos, Ryan Coogler. "Os sonhos e a coragem de Ryan Coogler tornaram Pantera Negra um dos mais importantes filmes lançados na última década", disse ela, observando que o longa de super-herói aclamado pela crítica havia arrecadado mais de um US$ 1 bilhão e derrubado ideias preconcebidas de como uma produção com um elenco negro poderia ser recebida em todo o mundo.

A mulher de Coogler, Zinzi, e o diretor do Marvel Studios Kevin Feige vibraram de orgulho. Coogler, por seu lado, olhou como se quisesse afundar no chão. Alguns dias depois, quando me encontrei com Ryan para um café, ele riu ao me lembrar da sua modéstia. "É mais fácil ouvir cumprimentos para outra pessoa." De fato, Michael B. Jordan contou que ele e Lupita Nyong'o, que trabalharam com Ryan em Pantera Negra, constantemente se deliciavam em elogiar Ryan "apenas para deixá-lo sem jeito".

Outros diretores adoram ser elogiados, mas Ryan, uma estrela de futebol na escola secundária que decidiu seguir uma carreira no cinema, nunca perdeu a humildade desde quando ainda era um esportista. "É muito raro ser cumprimentado pelos treinadores. Você é treinado para não ouvir elogios, e mesmo quando marca um gol seu técnico diz que 'você deveria ter tido mais firmeza no pé'."

Quanto à temporada de premiação, ele está consciente de que se Pantera Negra tiver um grande número de indicações isso abrirá portas para mais diretores negros. Apenas alguns diretores negros foram indicados para um Oscar e nunca mais do que um no mesmo ano.

Nesta temporada, um concorrente importante é o diretor de BlackkKlansman, Spike Lee, um ídolo de Ryan. Mas o fato de Lee nunca ter sido indicado para um Oscar de diretor diz muito sobre as razões pelas quais Ryan está cauteloso. Há alguns anos, Ryan Coogler e Michael B. Jordan provocaram algum alvoroço quando foram citados para o Oscar pelo seu filme Creed, um revival de Rocky - Um Lutador, mas a única pessoa indicada que participou do filme foi Sylvester Stallone, um dos 20 atores indicados, todos brancos, em 2016, o segundo ano consecutivo do #OscarsSoWhite. Os responsáveis pelas indicações na Academia se empenharam, desde então, para diversificar, mas eles se renderão a Ryan Coogler?

Apesar do fato de ter feito um filme emblemático, organizações como as do Golden Globe e do Directors Guild of American até agora excluíram o diretor de Pantera Negra dos cinco finalistas. Coogler está menos preocupado com as próprias chances e prefere promover as pessoas que trabalharam com ele, muitos dos quais fariam história se ganhassem um Oscar.

"Não sou pintor nem escritor - trabalho com uma forma de arte em que necessito de muita ajuda. E centenas de pessoas me ajudaram a criar esse filme e muita gente do público não sabe disso", explicou.

Muitos filmes de super-heróis têm um papel importante somente para uma mulher e este é mais um padrão que Pantera Negra rompe. Embora o personagem principal no filme seja T'Challa (Chadwick Boseman), o jovem rei de Wakanda busca o conselho de várias mulheres sábias que o cercam, com Nyong'o, Danai Gurira, Letitia Wright e Angela Basset assumindo papéis de destaque. E a equipe de Pantera Negra é uma raridade entre os blockbusters pelo grande número de mulheres dirigindo departamentos, como a diretora de fotografia Rachel Morrison e a designer de produção Hanna Beachler, que já trabalharam com ele no filme Fruitvale Station - A Última Parada. Além de Ruth E. Carter, figurinista responsável pelas notáveis roupas do filme.

Morrison, 40 anos, a primeira mulher já indicada para um Oscar de cenografia, em 2018, por Mudbound - Lágrimas sobre o Mississippi, é também a primeira diretora de fotografia a trabalhar em um filme do Marvel Studios. E Beachler, 48 anos, é a primeira mulher designer de produção do estúdio. "Por causa disso trabalhamos ainda mais para Ryan e pela oportunidade que nos foi oferecida."

Ruth Carter, 58 anos, é figurinista desde o filme Lute pela Coisa Certa (1988), de Spike Lee. "Acabamos com a burocracia normal de predomínio masculino, em que eles desejam tomar conta do assunto ou precisam ser o líder da ideia", garantiu Ruth, elogiando a disposição de Ryan de ouvir as mulheres. "Você não precisa ser arrogante para passar sua ideia. Ele é uma pessoa aberta nesse sentido." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Estadão
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