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Clássico do Dia: 'Três Irmãos' coloca na tela a inexorabilidade do tempo e uma Itália dividida

Crítico do 'Estadão', Luiz Carlos Merten indica hoje o filme em que Francesco Rosi discute, em 1981, o ideal de uma sociedade justa

26 jun 2020
08h17
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Há um momento de Três Irmãos, de Francesco Rosi, de 1981, em que o mais velho do trio, Raffaele, volta ao jardim da infância para rever a árvore que era o seu refgúgio. Ele adorava pendurar-se nos galhos, mas agora a árvore parece que encolheu, ficou menor. Mas não. Foi Raffaele quem cresceu. É só um detalhe, mas basta essa cena, a expressão no rosto do ator Philippe Noiret, para que o diretor italiano coloque na tela a inexorabilidade do tempo, o derrisório dos sonhos.

Rosi começou ligado a Luchino Visconti. Foi um dos roteiristas e também assistente de direção (com Franco Zeffirelli) de Belíssima, de 1951. Estreou com um filme codirigido pelo ator Vittorio Gassman, no qual foi principalmente consultor técnico - Kean, de 1956. Seguiram-se A Provocação/La Sfida, sobre líder de gangue que desafia um chefão da Camorra, e Renúncia de Um Trapaceiro/I Magliari, sobre imigrantes italianos na Alemanha. Interessantes como possam ser, não prenunciavasm o longa que marcou o verdadeiro início de sua carreira - Salvatore Giuliano, de 1961. No Brasil, chamou-se O Bandido Giuliano. O homem com esse nome, dito Turiddu, foi um bandido que se tornou uma força política na Sicília, após a Segunda Guerra Mundial. Ascendeu graças ao mercado negro, que dominava, numa época em que a ilha carecia de suprimentos. Ligado ao latifúndio e à Máfia, é reputado, historicamente, como responsável pelo massacre de Portella Dellas Ginestra, que Visconti colocou em La Terra Trema, de 1948.

Desde a guerra a resistência tentava organizar camponeses e trabalhadores urbanos. Havia um meeting reunindo trabalhadores e lideranças comunistas na localidade de Portella Della Ginestra. Disperso a bala, terminou num banho de sangue. Rosi reconta a história de Giuliano a partir de sua morte. Sua autópsia é também a da sociedade italiana da época. Um cinema ficcional documentado, não documentário. Nas bordas. Ele confirmou o método com Le Mani Sulla Città, a especulação imobiliária em Nápoles, e o filme lhe valeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1963. Nove anos mais tarde recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, por O Caso Mattei, ex aequo com o Elio Petri de A Classe Operária Vai ao Paraíso.

Outra morte, e suspeita, a de Enrico Mattei, antigo resistente que recebera a função política de desmantelar a antiga agência de petróleo criada pelo fascismo, substituindo-a pelo Ente Nazionale Idrocarburi. A questão do petróleo, poder e dinheiro. Gian-Maria Volontè é quem faz o papel, e ele também é o ator do Petri. Recebeu uma menção especial outorgada pelo júri presidido por Joseph Losey. Rosi perfeccionou esse estilo - o cinema documentado. Teve suas experiências de ficção, incluindo uma fábula, C'Era Una Volta/Felizes para Sempre, com Sophia Loren e Omar Sharif, de 1967. Não deixou de refletir sobre a história italiana em suas adaptações de Leonardo Sciascia (Cadáveres Ilustres) e Carlo Levi (Cristo si è Fermato a Eboli), ao longo dos 70. É o tema - a grande História - embutido em Três Irmãos.

De cara, os irmãos estão na estrada, mas não juntos. Raffaele, Nicola e Rocco, interpretados por Philippe Noiret, Michele Placido e Vittorio Mezzoggiorno estão vindo de diferentes regiões da Itália. Vão ao encontro do pai, para o enterro da mãe. Não representam apenas diferentes segmentos sociais - Raffaele é juiz, Nicola, dirigente sindical, Rocco, professor num reformatório para jovens. Abarcam a Itália inteira. Um em Turim, no norte industrializado, outro em Roma, no centro administrativo, o terceiro em Nápoles, com a problemática do Sul agrário e os Pixotes locais, os scugnizzos. A morte da mãe - a Itália? - lança os irmãos numa orfandade. Não é só a distância que os separa. Atitudes, também. Tre Fratterlli, título original, abriu o Festival de Cannes de 1981, fora de concurso. Rosi aproveitou o maior palco do mundo para falar sobre um problema grave que, na época, atingia a Itália, o terrorismo. Dias antes, o próprio Papa João Paulo II sofrera um atentado. Rosi foi duro.

Disse - "Creio que estamos todos cansados de saber que não devemos matar pessoas com a justificativa de que estamos lutando para tentar melhorar a justiça e a sociedade." No filme, o Juiz diz a um dos irmãos que o Estado não é justo, que é preciso modificar uma coisa e outra, e que a sociedade deve brigar por isso, mas não a ponto de ameaçar a democracia e a liberdade. Raffaele está certo ao afirmar isso, mas se revela descolado da realidade quando diz a Nicola - o sindicalista - que se ele é perseguido na fábrica é porque tem de ter feito algo errado. Rocco, e o nome não pode ser acidental, é um idealista que pretende revolucionar a sociedade livrando-a de suas impurezas. Como não pensar em outro Rocco, em outra família? Em 1960, com Rocco e Seus Irmãos, Visconti já realizara a proposta gramsciana da união entre operários e camponeses para tentar romper o bloqueio de uma sociedade marcada por contradições sociais, mesmo colocando no futuro a possibilidade de que Luca, o mais jovem dos irmãos, pudesse voltar à terra, em condições mais justas.

Em seu filme, Rosi também projeta no futuro esse ideal de uma sociedade mais justa. É importante destacar que Três Irmãos se baseia numa história de Andrei Platánov, autor ligado à Revolução Russa e que permaneceu fiel a seus princípios nos anos conturbados que se seguiram. Sua escrita, considerada idiossincrática, fez com que fosse comparado a James Joyce e Franz Kafka, e por isso foi perseguido durante o stalinismo. No filme, a mãe morreu, mas permanece o pai, vivido por Charles Vanel, ator que interpretou mais de 200 filmes ao longo de 78 anos de carreira, uma das mais longevas do cinema. No rosto esculpido na pedra de Vanel, Rosi constrói uma síntese do humanismo. Nicola tem uma filha, a menina liga-se ao avô. Na despedida, ele lhe dá um ovo, que é como uma semente, uma promessa de vida. Talvez esse sonho de Rosi, como o de seu mestre Visconti, tivesse algo de utópico.

No pós-terrorismo houve, na Itália, a Operação Mãos Limpas, que levou ao fim a Primeira República. O quadro partidário pulverizou-se, partidos desapareceram e nos escombros fortaleceu-se a (nova?) direita. Qualquer semelhança é mera coincidência. Rosi representou a Itália no Oscar com seu filme. Como espelho da realidade política do país, Três Irmãos se equiparava a outro indicado - O Homem de Ferro, do polonês Andrzej Wajda, sobre o sindicato Solidariedade. Nenhum dos dois levou - o vencedor do ano foi Mephisto, do húngaro Istvan Szabò. Em 1983, voltou com outro filme surpreendente. Na série de Carmens que surgiram naquele ano - de Jean-Luc Godard, Carlos Saura e Peter Brook -, a dele foi a mais operística de todas, com uma Julia Migenes-Johnson exuberante no papel da cigana.

Vale lembrar que quando Três Irmãos estreou no Brasil, em abril de 1982, o País ainda vivia sob a ditadura. Nas cenas nos carros, na estrada, no começo, ele filma da posição de um observador situado no banco de trás. E, em ambos os casos, há um túnel e uma estrada, com a luz lá no fundo. Suas conversas sobre democracia e liberdade calavam fundo porque, para o espectador brasileiro da época, representavam a luz no fim do longo túnel dos anos de chumbo. Parece incrível que, tanto tempo depois, essas conversas precisem ser retomadas, porque as instituições brasileiras estão sob bombardeio diário. Rosi morreu em 2015, aos 92 anos.

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Estadão
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