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Clássico do Dia: 'Chinatown' é uma fábula sombria sobre paternidade

Todo dia um longa será destacado pelo crítico do 'Estadão'; protagonizado por com Jack Nicholson e Faye Dunaway, longa se passa em 1937 e Roman Polanski reconstitui a época com raro brilho

13 jul 2020
07h56
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Indicado para 11 Oscars em 1974, incluindo melhor filme, diretor (Roman Polanski), ator (Jack Nicholson) e atriz (Faye Dunaway), Chinatown recebeu apenas um prêmio, o de melhor roteiro original, para Robert Towne. Esse roteiro virou referência para o especialista Syd Field, que em seu livro Screenplay, de 1979, chegou a afirmar que se tratava do filme mais bem escrito da década. Pode até ser que seja, mas certamente não por obra exclusiva de Towne. Polanski sempre deixou claro que reescreveu o material do roteirista e que toda a cena final é dele. E, num livro lançado no começo do ano nos EUA - The Big Goodbye, de Sam Wasson -, veio a revelação assombrosa.

O livro é mais que simplesmente um bastidores da produção. Wasson fez um levantamento minucioso, colheu depoimentos. Towne deve ter-se arrependido por não cooperar. Sua ex-mulher, Julie Payne, forneceu as chaves para que Wasson revele que, não apenas o roteiro de Chinatown, mas também os de A Última Missão e Shampoo, de Hal Ashby, aos quais o roteirista deve sua fama, foram coescritos por um colaborador fantasma, que sempre permaneceu secreto, Edward Taylor. Chinatown! No Dicionário de Cinema, Jean Tulard começa seu verbete sobre Polanski dizendo que é difícil saber onde colocá-lo. Polônia, Inglaterra, França, Itália, EUA. Os infortúnios da vida privada somaram uma dimensão trágica ao cosmopolitismo que atravessa A Faca na Água, Repulsa ao Sexo, Armadilha do Destino, O Bebê de Rosemary, Macbeth, Quê? Quando chegou a Chinatown, o filme, Polanski já vivera diversas estações no inferno. Garoto, perdera os pais no Holocausto, a mulher - Sharon Tate - morreu grávida na chacina provocada por Charles Manson e seus adoradores do Diabo. E ele já sofrera a acusação de estupro de uma menor que o persegue até hoje.

Deve-ser avaliar a obra pelo artista? No ano passado, apesar de suas belíssimas qualidades, O Oficial e o Espião - o J'Accuse de Polanski - sofreu um vendaval de críticas. A direita francesa investiu contra o filme porque até hoje, um século depois, ainda não deglutiu o Caso Dreyfuss. As feministas, com razão, não o perdoaram. As acusações são graves, e sobre elas não pairam dúvidas. Mas existem os filmes, e são clássicos. O Bebê, Chinatown. Rememorando - JJ Gittes/Nicholson é um detetive particular contratado por uma mulher para seguir o marido dela, que está tendo um affair. Ele confirma a suspeita, mas logo aparece outra mulher, dizendo ser a verdadeira sra. Mulwray/Faye. Para complicar o que já está confuso, o marido é o chefe do departamento de água de Los Angeles e, logo em seguida, aparece morto. Gittes investiga e descobre uma conspiração.

A água de Los Angeles está sendo desviada para irrigar terras do deserto, que assim valerão uma fortuna, num esquema de especulação imobiliária. As investigações de Gittes tornam-se perigosas. Surge em seu caminho um criminoso nanico, nervoso, interpretado pelo próprio Polanski, que quase decepa seu nariz e o força a usar um curativo durante quase todo o filme. Gittes volta a Evelyn Mulwray. Diz mais ou menos o seguinte - "Tem muita gente tentando encobrir esse caso, e eu não tenho nada contra. Só não quero perder meu nariz, Sra. Mulwray. É por ele que respiro, e gosto de respirar." Esse Gittes é um personagem singular. Como detetive particular, ou private eye, como dizem os norte-americanos, segue a grande tradição de Dashiell Hammett e Raymond Chandler.

É um homem ético, que reage à corrupção na polícia, na política. Suas investigações o levam ao pai de Evelyn, Noah Cross, interpretado por John Huston. É um dos personagens mais maléficos do cinema, mas o espectador só tem a definitiva dimensão de sua perversidade no desfecho - que Polanski reescreveu, numa outra linha, muito mais amarga, do que aquela trilhada por Robert Towne. Esse final, que tem tudo a ver com o noir, esclarece o mistério que percorre o filme. Durante todo o tempo, existem informações que dão conta de que, no passado, Gittes foi policial no bairro chinês de Los Angeles, e algo terrível ocorreu com ele. Os temas da mulher fatal e da mulher perdida, reencontrada e perdida de novo são clássicos na tradição noir. Levam a esse desfecho que bate na tela como algo irremediável, um cul-de-sac, outra armadilha do destino. A buzina daquele carro nunca parou de ecoar no imaginário dos cinéfilos.

Polanski situou sua história em 1937. Reconstitui a época com raro brilho. Fotografia, direção de arte, figurinos, objetos. Os thirties estão na tela, mas de forma consciente ou subliminar o clima de traição que marcou o escândalo de Watergate, contemporâneo à criação do filme, também atravessa a história. Faye Dunaway, que já fora a Bonnie Parker de Arthur Penn em 1967 e receberia seu Oscar dois anos mais tarde - por Rede de Intrigas/Network, de Sidney Lumet -, projeta uma sedução fria e enigmática. Nunca sabemos exatamente quem é, nem o que quer essa mulher. Só a revelação final dá sentido a seu comportamento ambíguo. Evelyn não é o que parece, nem Gittes. Ele é cínico, durão, vive batendo nos nervos das pessoas - e do espectador - por sua mania de invadir a vida dos outros, como se tivesse esse direito. Mas é uma fachada. O fracasso em seu passado o vulnerabiliza. A presença de Huston como ator não é mera coincidência. Ao mesmo tempo que homenagem a seu clássico de 1941 - Relíquia Macabra/The Maltese Falcon, com Humphrey Bogart -, sua persona dominante age como um lembrete. A validade do esforço e a inevitabilidade do fracasso são o tormento do personagem hustoniano, e Gittes poderia ser um deles.

No começo dos anos 1970, Hollywood promoveu um revival do noir, e dos detetives particulares. Um ano antes de Polanski, Robert Altman fizera The Long Goodbye, baseado em Raymond Chandler e com Elliott Gould no papel de Philip Marlowe. No Brasil, virou Um Perigoso Adeus. O livro de Sam Wasson busca uma analogia. The Big Goodbye, literalmente O Grande Adeus, tem um subtítulo esclarecedor - Chinatown and The Last Years of Hollywood. É como se a ficção de Polanski fechasse um ciclo. Das ruínas dessa Los Angeles decadente e corrupta se ergueria a Nova Hollywood. Wasson pesquisou muito e o que propõe, por meio de vinhetas que remetem à infância de quatro figuras que foram essenciais no projeto, são as histórias cruzadas do diretor Polanski, do produtor Robert Evans, do roteirista Towne e do astro Nicholson.

Como teria sido o filme, com sua carga subterrânea de corrupção e incesto, se cada um desses homens não tivesse projetado os próprios demônios na construção da tragédia urbana? Wasson escreve que, a despeito das diferentes origens, de alguma forma eles se completaram ao encontrar-se. Evans assumira a direção executiva da Paramount para reerguer o estúdio que atravessava uma crise. Conseguiu, e nesse caso, em particular, reuniu os talentos, trouxe Richard Sylbert para o desenho de produção e Jerry Goldsmith para a trilha. Goldsmith revestiu de romantismo - o tema do trumpete - o que poderia ser uma história cínica e cruel. A mulher de Sylbert, Susanna Moore, convenceu-o a substituir parte da trilha composta por uma gravação de Bunny Berigan, de 1937, I Can't Get Started. Tudo isso é verdadeiro, mas um tanto superficial. Outrra ligação foi muito mais tortuosa.

Sendo uma fábula sombria sobre paternidade, o filme reúne um homem que nunca soube quem era seu pai (Nicholson), outro cujo pai foi o modelo do fracassado (Evans), um terceiro cujo pai, o horror, o horror, desapareceu no campo de extermínio (Polanski) e o último, o filho de um pai considerado bem-sucedido e amoroso, mas então por que, justamente Towne, ainda segundo a ex-mulher, tenha se tornado dependente, um cheirador compulsivo? Hollywood nunca foi um lugar apropriado para nice guys e a tese de Wasson é que esses quatro homens teriam projetado seus fantasmas - 'anguish and defeat' - em Chinatown e o filme pode ter sido mais que um rito de passagem. Foi uma superação para eles. Como Gittes, cada um tinha uma Chinatown em seu passado, e a explicação (psicanalítica?) dá todo sentido a uma frase que Towne nunca se cansou de repetir.

Sempre que falava no filme, ele insistia que Chinatown não é só um lugar. "É um estado de espírito." Pode ser mera especulação, mas o excepcional triunfo do filme levanta essa possibilidade. O mais impressionante é que Wasson não encara o óbvio para quem escreve sobre Chinatown, 46 anos depois. Como história de abuso, não estará colocando Polanski no espelho? O desgosto de Gittes/Nicholson não será o do próprio Polanski pelo tipo desprezível que o diretor encarna em seu filme? Chinatown é daqueles filmes que, como Casablanca, Johnny Guitar (e outros), possui a aura. O mistério que os cerca ultrapasssa a soma das contribuições individuais. Mas, por mais que se tente minimizar a importância de Robert Towne, ele está lá.

A concepção romântica do universo cínico, a poesia noturna de Los Angeles são dele. Em 1988, escreveu e dirigiu Tequila Sunrise, lançado no Brasil como Operação Tequila. Ecos de Chinatown. Dois homens com um passado. Foram amigos de infância. Mel Gibson tornou-se traficante, mas quer sair do ramo. Kurt Russell é policial. Disputam a mesma mulher, Michelle Pfeiffer. No limite, Russell vai jogar sujo. O filme - de ação - é feito de toques, observações sutis. Towne comparou-se a um artesão de Notre Dame. A catedral ofusca, mas foi feita com o trabalho daqueles a quem a história esqueceu. "As pessoas podem não perceber, mas eu sei o que coloquei no filme." Falava de Operação Tequila, ou de Chinatown? Existe algo de fordiano, a grandeza dos derrotados, nessa sábia, e um tanto fatalista, concepção da vida e da arte.

Filme pode ser visto no streaming do Telecine.

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Estadão
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