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Clássico do Dia: A defesa da individualidade contra o pensamento unificado em 'Vampiros de Almas'

Todo dia um filme é destacado pelo crítico do 'Estado', como este de Don Siegel em que o horror, o medo nascem das transformações no comportamento das pessoas

20 out 2020
08h10
atualizado em 29/10/2020 às 11h41
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Até hoje, decorridos mais de 60 anos - exatamente 64 -, ainda há controvérsia sobre qual era, exatamente, o alvo dos ataques do diretor Don Siegel e do roteirista Donald Mainwaring quando fizeram Vampiros de Almas, em 1956. Os anos 1950, e o pós-macarthismo, foram anos de muita paranoia na sociedade norte-americana. O tristemente célebre Comitê de Atividades Antiamericanas instituiu o perigo vermelho como o grande fantasma a rondar os Estados Unidos, então é legítimo pensar que o alvo fossem os comunistas. Mas, justamente porque o filme surgiu após o desmascaramento do senador Joe McCarthy, talvez fosse, na verdade, contra o fascismo, com tudo o que de sinistro representara nos anos anteriores.

O próprio Siegel, sem nunca esclarecer a questão, levantou certa vez uma terceira possibilidade. Que o seu filme clássico poderia ser sobre o risco da padronização do comportamentos em comunidades pequenas, interioranas, onde domina o conformismo e qualquer desvio da regra é visto com desconfiança. Santa Mira, a cidadezinha da Califórnia em que se passa a história, seria o símbolo desse comportamento retrógrado que - ele não viveu para comprovar; morreu em 1991, aos 78 anos - elegeria, décadas mais tarde, Donald Trump como presidente. Independentemente de onde vêm as ameaças, se de esquerda ou de direita, Invasion of the Body Snatchers - título original - é um daqueles filmes de culto cuja aura não para de crescer. Custou barato, US$ 417 mil, é sucinto - dura 80 econômicos minutos - e sendo Siegel um diretor B de reconhecida eficiência, ou seja, daqueles que não criavam problemas para os poderosos dos estúdios, foi feito sem grande interferência. Aliás, teve uma. Originalmente, deveria chamar-se Sleep no More - Dormir Nunca Mais -, o que teria sido um ótimo título, mas talvez um tanto cifrado e, por isso, o estúdio preferiu o mais direto.

O remake dos anos 1970, por Philip Kaufman, estreou no Brasil como Os Invasores de Corpos e a versão de Abel Ferrara, de 1993, chamou-se Os Invasores de Corpos - A Invasão Continua. Nessa, a ação transferiu-se para o meio militar, cujos conceitos de hierarquia e obediência seriam nocivos ao indivíduo. Desde Siegel, e através dos remakes, a questão no centro da fábula tem sido sempre a defesa da individualidade, contra o pensamento unificado. E, a par da dimensão política, o que construiu a lenda de Vampiros de Almas foi o fato inegável de que todas as peças se ajustaram para criar um mecanismo perfeito. Nada poderia ter saído melhor. O crítico Andrew Sarris dizia que talvez fosse a definitiva ficção científica, mas a verdade é que deve muito ao noir. Os contrastes de luz e sombra, o tema ligado ao sono, a instabilidade social e até uma mulher fatal - leia adiante - vinculam o filme à vertente. (Como curiosidade, pode-se lembrar que Pauline Kael, embora admirasse o Siegel, tinha uma queda pelo Kaufman, que considerava um dos filmes mais assustadores que havia visto.)

Tudo começa pacificamente, na mais perfeita ordem. A típica comunidade interiorana. Pessoas com seus pequenos problemas. Amor, desejo, ambição, fé. "Sem isso, a vida seria mais simples, acredite", diz o persuasivo Dr. Kaufman/Larry Gates, tentando convencer seu amigo, o Dr. Miles, a fechar os olhos. Logo no começo, o bom Dr. Miles está voltando para Santa Mira. Kevin McCarthy é quem faz o papel. Encontra tudo igual, mas diferente. Um garoto diz que aquela não é sua mãe, mas é ela, sim. Uma mulher diz que aquele não é seu tio. O que está ocorrendo? Dr. Miles é chamado à casa do amigo escritor, Jack/King Donovan, que fez uma descoberta surpreendente. Encontrou uma vagem gigantesca dentro de sua casa. Dentro da vagem, mais inusitado ainda, está sendo gerado um clone perfeito dele, Jack. Daqui a pouco, Dr. Miles vai descobrir que basta fechar os olhos - dormir - para que o clone assuma o lugar da pessoa, e isso é o que está acontecendo na cidade.

As pessoas estão sendo substituídas pelas vagens, pelos 'pods'. Siegel - "Conheço muita gente que não tem sensibilidade para cultura, que não se interessa pela dor nem pelos sentimentos dos outros, e eu sou contra isso. Nunca encontrei melhor maneira de tentar ser contra do que nesse filme, em particular." De repente, toda a cidade foi dominada pelos invasores de corpos - não, os vampiros de almas - e só resta ao bom doutor fugir com a namorada, Becky/Dana Wynter. Em fuga, e sem saber a quem recorrer, isolam-se numa gruta. Dr.Miles fica exortando a não fechar os olhos, a não dormir. Ouve-se um ruído, ele sai para investigar, 'just a minute', mas será definitivo. A cena seguinte é uma das mais terríveis do cinema. E agora terá spoiler, você pode pular para o próximo parágrafo. Dr. Miles reencontra Becky... Diferente? Pergunta o que foi? Ela diz - "Você não devia ter saído, eu dormi." E se põe a gritar apara chamar a atenção da população que caça os fugitivos.

O final é apolítico. No acesso à cidade, ensandecido, Dr. Miles tenta advertir as pessoas nos carros - "Eles chegaram, eles estão aqui. Você poderá ser o próximo." Siegel advertia - "Por pior que seja esse novo mundo sem problemas, uniforme e sem direito à individualidade, é o mundo em que muita gente que se acha boa e honesta quer viver, e já está vivendo. E acham que estão agindo certo." Siegel falava dos EUA em 1956, ou do mundo, do Brasil, em 2020? Seu filme é tanto mais notável porque quase não tem efeitos. O horror, o medo nascem das transformações no comportamento das pessoas, do claro/escuro da fotografia de Ellsworth Fredericks e da música de Carmen Dragon. Vale acrescentar que Sam Peckinpah, que ainda não era diretor, faz um pequeno papel - no posto de gasolina - e ainda foi diretor de diálogo. Embora seja difícil dizer de que forma isso repercutiu no projeto, Vampiros de Almas foi o primeiro filme do produtor Walter Wanger depois de cumprir perna por atirar no amante da mulher, a atriz Joan Bennett. Ele conseguiu reconstruir sua reputação com filmes como o de Siegel e Quero Viver!, de Robert Wise, contra a pena de morte.

Egresso de uma tradicional família judaica de Chicago, Siegel iniciou-se como montador, na Warner. Virou diretor B e, nos anos 1950, destacou-se, em meio a uma produção irregular, no cinema de ação. Nos 60, e promovido à produção A, desenvolveu uma parceria com Clint Eastwood. Foram cinco filmes, incluindo O Estranho Que Nós Amamos/The Beguiled, de 1971, refilmado por Sofia Coppola, com Colin Farrell, e Perseguidor Implacável, o primeiro Dirty Harry, do ano seguinte, que provocou polêmica. As feministas caíram matando. O personagem e, consequentemente, Clint foram rotulados como porcos chauvinistas. Pensando em termos de Oscar, foi um dos anos mais polêmicos da história da Academia. A produção daquele ano incluía filmes que pertencem à história, como Rastros de Ódio, de John Ford; O Homem Errado, de Alfred Hitchcock; Delírio de Loucura, de Nicholas Ray; Sede de Viver, de Vincente Minnelli; e o Siegel. Nenhum foi indicado para melhor filme e direção. Quem chegou mais perto do pódio foi Kirk Douglas, o Van Gogh de Minnelli, indicado para melhor ator, mas perdeu. A academia preferiu atribuir o prêmio principal para A Volta ao Mundo em 80 Dias, uma produção multicolorida de Michael Todd que, de melhor, não tinha nada. Siegel estava entre os que ficaram longe do Oscar, mas ganharam seu lugar entre os clássicos.

Onde assistir:

  • iTunes

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Estadão
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