PUBLICIDADE

Cannes 2022: Diretor sueco Ruben Ostlund divide a crítica com sátira sobre status social

Polêmico, cineasta expõe em 'The Triangle of Sadness' pessoas em luta para sobreviver em uma ilha após um naufrágio

23 mai 2022 18h37
ver comentários
Publicidade

CANNES - É oito ou 80. O sueco Ruben Ostlund tornou-se rapidamente talvez o autor mais polêmico do mundo. O 75º Festival de Cannes está rachado - metade dos jornalistas de todo o mundo defende o filme dele com o mesmo ardor com que a outra metade o detesta. Ostlund já ganhou a Palma de Ouro - por The Square -, concorre agora com The Triangle of Sadness. De cara tem a explicação - o triângulo da tristeza é esse vinco que na testa expõe o estado de ânimo das pessoas.

Começa com a disputa - por dinheiro - de um casal de modelos, Carl e Yaya. É o primeiro capítulo. Depois vem O Cruzeiro e, finalmente, A Ilha. Apesar das disputas e ofensas do começo - quem ganha mais, quem está explorando quem -, Carl e Yaya embarcam no cruzeiro marítimo. Tudo de graça. É a vantagem de serem jovens, belos, celebridades. O navio vai a pique numa tempestade, os sobreviventes reencontram-se na ilha, onde uma funcionária da limpeza assume o poder. Na adversidade, é a única que sabe pescar, acender o fogo. Seu poder é total, ela inclusive 'rouba' o namorado da bela modelo.

Ostlund adora causar. Sua sátira ao status social e ao culto das celebridades subverte o mundo da moda com a mesma virulência com que investe contra o capitalista que fez fortuna vendendo armamentos. No mundo em guerra, é a certeza de ganhar dinheiro. A garotada da crítica morre de rir com as piadas sobre Marx e Lenin, sobre vômito e flatulência devido ao enjoo do mar. O problema é que Ostlund atua no limite. Para criticar o estado do mundo, concede ao seu público tudo aquilo que parece estar criticando. É um cínico.

Religião e política

O festival tem abordado questões de família e o embate entre religião e política, sobretudo no mundo islâmico. O noir Holy Spider, de Ali Abbasi, mostra um Irã como nunca se viu na tela. A história (real) de um serial killer que mata prostitutas. Sexo, corrupção e violência. Abbasi vive na Escandinávia. Não conseguiu filmar no Irã, nem na Turquia. Foi acolhido na Jordânia. A cena mais forte desse festival, até agora, é do filme de Cristian Mungiu, RMN. O autor romeno já venceu a Palma por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. Um homem volta para a cidade em que nasceu, dividida pela dificuldade econômica - e o ódio aos imigrantes. Uma cena de quase 20 minutos, filmada em plano-contínuo, no interior da igreja. Palavras de ódio. É impactante por revelar que a direita é igual em todo o mundo. A par da política, impressiona pela técnica, e a estética. Como se filma aquilo? É extraordinário.

Estadão
Publicidade
Publicidade