PUBLICIDADE

Breno Silveira deixou uma obra baseada na emoção

Diretor não fazia filmes 'cabeça', mas que iam direto no coração do público, como '2 Filhos de Francisco' e 'Gonzaga-De Pai Para Filho'. Ele finha ainda o projeto de filmar a vida de Roberto Carlos

14 mai 2022 14h23
| atualizado às 14h37
ver comentários
Publicidade

É difícil falar sem emoção sobre a morte de Breno Silveira. No início da Retomada, o Festival do Rio chegou a editar um livro, Cinco Mais Cinco, sobre os cinco maiores filmes brasileiros da época - o ano era 2007. Os cinco mais da crítica eram encabeçados por Cidade de Deus, seguindo-se Edifício Master, Lavoura Arcaica, O Invasor e Terra Estrangeira. Rodrigo Fonseca escreveu o texto. Os cinco mais da bilheteria foram 2 Filhos de Francisco, Carandiru, Se Eu Fosse Você, Lisbela e o Prisioneiro e... Cidade de Deus! O texto foi escrito por mim.

Breno Silveira foi fotógrafo antes de tornar diretor. Deixou uma obra baseada na emoção. Não fazia filmes "cabeça", mas que pareciam disparar diretamente ao coração do público. Morreu enquanto filmava Dona Vitória, em Limoeiro, no interior de Pernambuco. Tinha o projeto de filmar a vida do Rei, Roberto Carlos.

Lá atrás, Breno sonhava virar diretor e sabia até o filme que queria fazer. Correu atrás dos direitos de Cidade de Deus, de Paulo Lins, mas eles já pertenciam a Fernando Meirelles. Terminou fazendo, anos depois, 2 Filhos de Francisco. Os próprios Zezé di Camargo e Luciano levaram o projeto sobre a vida deles - e seu pai - a Rodrigo Saturnino, que, na época, era diretor de operações da Sony/Columbia. Saturnino encaminhou o roteiro à Conspiração, que recusou. De alguma forma pode-se dfizer que, no meio do caminho, havia uma pedra.

Foi removida por Patricia Andrade, assessora de imprensa da Conspiração. Ela não apenas convenceu Breno de que era uma grande história, e uma grande homenagem ao povo brasileiro, como se associou a Carolina Kotscho para escrever o roteiro. Seu Francisco, magistralmente interpretado por Ângelo Antônio, tinha um sonho. Transformar seus dois filhos em astros da música. Como no clássico Psicose, de Alfred Hitchcock, em que Janet Leigh morre no fim do primeiro terço do filme, a vida e suas surpresas - suas tragédias - forneceram outro enredo a Seu Francisco.

Um filho morreu, e com ele o sonho parecia ter morrido também. A dupla ressurgiu com outro filho. O caminho foi longo, cheio de dificuldades. Foram removidas para que o filme chegasse ao desfecho glorioso. Zezé e Luciano num show, cantando É o Amor! para uma plateia enlouquecida.

Há algo da pureza ancestral de Humberto Mauro na forma como Breno Silveira filmou a roça. O filme foi um megassucesso. Vieram depois novos recordistas - Tropa de Elite, de José Padilha, e Minha Mãe É Uma Peça 3, com Paulo Gustavo, que morreu no ano passado, de covid. 2 Filhos de Francisco está mais próximo do segundo, apesar da diferença de tom. É o Amor! é a definição que cabe para toda a obra de Breno Silveira, que fez depois Era Uma Vez, baseado em outra história de Paulo Lins, À Beira do Caminho, Gonzaga - De Pai pra Filho e Entre Irmãs.

A musicalidade somava-se ao amor. A história do caminhoneiro tinha canções de Roberto Carlos, De Pai pra Filho era sobre a ligação de Gonzagão e Gonzaguinha. E ainda haveria o filme sonhado sobre Roberto Carlos. Breno filmava o brasileiro com amor. Dizia - "A cultura é o que nos define como País (com maiúscula)." Senhoras e senhores, um minuto de silêncio por esse cineasta tão apaixonado.

Estadão
Publicidade
Publicidade