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Star Wars Day: Um fenômeno mundial que (quase) nenhum cinema queria exibir em maio de 1977

Poucos e corajosos exibidores apostaram na saga espacial de George Lucas — assim ajudando a transformar a história do cinema mundial.

4 mai 2018
07h20
atualizado às 15h14
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George Lucas moldou sua arte, de gerações futuras e toda uma cultura popular como poucos na História mundial. Mas lá atrás, bem antes disso acontecer, poucos poderiam prever. O cineasta era apenas um jovem californiano com uma proposta de cinema que destoava totalmente do que estava em voga: a Nova Hollywood, movimento espontâneo em que novos realizadores se desvencilharam do controle dos grandes estúdios para narrar suas próprias histórias, seus próprios dramas, da sua própria forma.

Foto: AdoroCinema / AdoroCinema

Enquanto Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Hal Ashby e tantos outros realizavam obras profundamente autorais, como A Conversação, Caminhos Perigosos, A Última Sessão de Cinema e Ensina-me a Viver, George Lucas possuía o tino para um cinema mais comercial. Seu mais semelhante era Steven Spielberg. Só ele, que mesmo assim era diferente.


Lucas vivia à sombra de Coppola como cofundador da American Zoetrope.

Spielberg ganhou o respeito da indústria após uma passagem intensa pela televisão, onde comandou com firmeza (e até mesmo indiferença) equipes e elencos consagrados. No cinema, dirigiu com maturidade e um domínio narrativo impressionante os thrillers Encurralado, Louca Escapada e Tubarão.

Ninguém dava muita bola para Lucas, visto em Hollywood como o pupilo de Coppola — quando visto. Sua estreia em longas com o experimental THX 1138 passou igualmente despercebida e nem mesmo o surpreendente sucesso de American Graffiti (lançado no Brasil como Loucuras de Verão) foi suficiente para ele ganhar o prestígio suficiente para Star Wars ser minimamente respeitado. De um modo geral, seu projeto de uma ópera espacial era visto como uma brincadeira de criança. Até mesmo por seus amigos.


De Palma, Spielberg, Scorsese: amigos próximos de George Lucas não confiavam no sucesso de Star Wars.

"Que m*** é essa?!?! Isso não faz sentido! Nonsense! Do que isso se trata?!", diria Brian De Palma ao ler o roteiro de Guerra nas Estrelas. Assim nascia uma marca registrada da franquia: o texto corrido em amarelo sobre fundo negro contextualizando a história logo após os créditos iniciais. Mas não estava superada a suspeita de todos em relação a novela interestelar iniciada no meio (Uma Nova Esperança é o Episódio 4, lembra?) e inspirada nas já obsoletas matinês de Flash Gordon. A descrença dos amigos de Lucas também era a descrença da 20th Century Fox e dos exibidores norte-americanos em pleno Memorial Day de maio de 77.

O fenômeno inesperado

"Nos meses que antecederam a estreia, os caras mais velhos pensavam que Star Wars fosse um filme infantil. O elenco não significava nada e ninguém sabia quem era George Lucas", declara Erik Lomis, veterano que trabalhava para o Sameric Theatres, na Filadélfia, em entrevista especial do The Hollywood Reporter com cinco exibidores que viveram esse fenômeno em tempos difíceis: os cinemas não podiam assistir aos filmes antes de comprá-los. O circuito se baseava exclusivamente no potencial do projeto (vide elenco, sinopse, equipe) e na confiança do próprio estúdio.

"A piada corrente na época era de que quando George Lucas fez a apresentação final para Alan Ladd Jr., que gerenciava a Fox na época, Laddie disse não, mas disse tão baixo que ninguém ouviu", conta outro dinossauro do ramo, Larry Gleason, que comandava a rede Mann e exibiu Star Wars no icônico Chinese Theatre, em Hollywood — inicialmente, a contragosto.


Star Wars arrastou multidões ao Chinese Theatre, surpreendendo seus administradores.

A aposta da Fox no momento era O Outro Lado da Meia-Noite, adaptação do romance homônimo de Sidney Sheldon. Para exibir este thriller romântico, os cinemas eram coagidos pelo estúdio a fazer compra casada e encaixar Guerra nas Estrelas na programação. "No final o jogo virou: se você quisesse exibir Star Wars, tinha que pegar outro filme", conta Travis Reid, chefe de distibuição da Broad Green Pictures.

"Nós não pudemos ver Star Wars antes de comprar os filmes. Eu era um exibidor novato em São Francisco, e pretensioso o suficiente para pensar que ao escolher O Fundo do Mar, com Jacqueline Bisset vestida com uma camiseta molhada, seria um grande negócio", diz Reid, arrancando risadas de Bob Lenihan, seu amigo de longa data e presidente de programação da AMC.

"Eu tinha 23 anos e montava o circuito em cidades da Carolina do Norte para a United Artists, que também tinha o Coronet Theatre em San Francisco. Eu sempre brinco com Travis que essa foi a única vez que eu ganhei dele", diz Bob Lenihan, que formava uma dupla hippie com o amigo Reid em 1977. "Ele escolheu O Fundo do Mar e eu escolhi Guerra nas Estrelas. No dia da estreia no Coronet, as filas davam volta no quarteirão. Eu exibi o filme até a estreia de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, em dezembro, e nós ainda tínhamos reserva de Star Wars", diz Lenihan.


Mark Hamill, George Lucas e Harrison Ford eram desconhecidos quando Star Wars chegou aos cinemas.

Curiosamente, O Fundo do Mar foi um sucesso, faturando US$ 47 milhões nos cinemas dos Estados Unidos para a Columbia Pictures. O Outro Lado da Meia-Noite teve uma arrecadação modesta para as estimativas da Fox, retornando o investimento do estúdio e um tanto mais com seus US$ 24 milhões. Números de Star Wars: US$ 461 milhões. Somente em território norte-americano. No mundo inteiro, US$ 775 milhões. Somando-se tudo que a saga espacial já rendeu com seus filmes seguintes, spin-offs, livros, roupas, brinquedos, parques e mais uma infinidade de produtos licenciados, essa conta extrapola os bilhões de dólares.

Uma revolução cultural

Nem todos foram pegos desprevenidos pela febre Guerra nas Estrelas. Ex-chefe de distribuição da Disney, à época no comando da General Cinema Theatres em Chicago, Chuck Viane apostou na aventura de Luke Skywalker e salvou um cinema. "Naquela época, os filmes tinham exibição exclusiva em cidades selecionadas. Eu fiz um lance por Star Wars e ganhei exclusividade em St. Park, um cinema em dificuldade que tínhamos acabado de comprar em Mineápolis. Eu não lembro se na primeira semana ou no primeiro fim de semana que nós arrecadamos 250 mil dólares. Isso foi mais do que o nosso faturamento nos três primeiros meses inteiros", Viane lembra.

"O filme passou no Eric's Theatre no centro de Filadélfia durante um ano. Era insano!", diz Lomis, então lembrando que seu maior espanto se deu com a chegada de Guerra nas Estrelas nos subúrbios mais afastados: "Eu ligava para saber a arrecadação das primeiras matinês e minha filha pequena, Sandy, atendeu o telefone num desses cinemas. Ela estava tão ocupada que desligou na minha cara", brinca Lomis, concluindo o que hoje é óbvio, mas ele viu acontecer com seus próprios olhos: "Star Wars mudou a forma como os filmes eram lançados. O Império Contra-Ataca foi lançado em todo lugar!".


Gente de todas as idades aderiu ao fenômeno Star Wars nos EUA e no mundo.

Para finalizar, é preciso contextualizar o tamanho da revolução cultural promovida pela ópera espacial de Lucasfilm. Naquele tempo, os estúdios fechavam contratos de exibição com os cinemas, de modo a garantir que mesmo seus projetos mais duvidosos tivessem espaço no circuito. Só com muita sorte Guerra nas Estrelas estreou onde George Lucas desejava: "Ele queria muito o Chinese. Nós só tínhamos duas semanas disponíveis antes que a Paramount nos obrigasse a exibir O Comboio do Medo, de William Friedkin. As expectativas da Fox era tão baixas que eles disseram que duas semanas eram tudo que eles precisavam", conta Larry Gleason.

Após o fim de semana avassalador de Star Wars no Chinese Theatre, Gleason foi até a Paramount negociar a rendição do espaço de exibição de O Comboio do Medo — um fracasso tamanho que decretaria o fim iminente da Nova Hollywood. "Eles disseram que precisávamos cumprir nosso acordo, mas a gente queria Star Wars. Então nós compramos outro cinema em Hollywood, que não estava muito legal. [A obra] ficou aberta 24 horas, as pessoas dormiam lá. Fizemos uma grande reforma, colocamos novos assentos, pintamos, limpamos tudo. Mudamos Star Wars pra lá, onde foi exibido por duas semanas antes de voltar para o Chinese", Gleason lembra.


Alec Guinness detestava o trabalho de George Lucas e achava o Obi Wan Kenobi um péssimo personagem.

"Ninguém podia imaginar um sucesso assim", diz Chuck Viane. "Não havia um monitamento que previsse o faturamento de abertura ou redes sociais. Os cinemas conquistavam sua reputação assim: quando tinham um grande sucesso, o exibiam por um longo tempo. Um comprador de filmes só brilhava quando comprava os filmes certos."

Lomis, Reid, Lenihan, Gleason e Viane decifram para as novas gerações como Guerra nas Estrelas iniciou todo um sistema hoje capaz de prever que Han Solo: Uma História Star Wars não será o fracasso que a Disney temia e fará US$160 milhões em seu fim de semana de estreia, daqui a 20 dias. De quebra, explicam por que há 41 anos, no dia 27 de maio, Star Wars estreava em apenas 42 salas dos Estados Unidos, por insistência da Fox, para então se expandir e atingir a conta máxima de 1750 salas em todo o território americano. O clássico improvável de George Lucas faria a última sessão de sua exibição original em 23 de julho de 1978. 1 ano e 2 meses depois, contra todos os prognósticos.


Filas intermináveis para ver Star Wars em sua longa passagem pelos cinemas: 1 ano e 2 meses.
AdoroCinema

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