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"Ser mulher no mundo é foda": Diretora Juliana Antunes fala sobre os riscos e ameaças de morte ao filmar Baronesa (Exclusivo)

"O jogo do cinema é maluco".

14 jun 2018
09h01
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Estreia nesta quinta-feira nos cinemas um dos filmes brasileiros mais premiados e mais controversos do último ano: Baronesa, de Juliana Antunes.

Foto: AdoroCinema / AdoroCinema

Depois de morar numa favela, a diretora conheceu Andreia e Leidiane, que se tornaram as suas protagonistas. Combinando situações reais com cenas fictícias, ela criou a história sobre duas fortes mulheres de baixa renda, confrontadas a questões de segurança, sexualidade, maternidade e baixas perspectivas de melhoria social.

Um dos nossos filmes preferidos do último Olhar de Cinema, Baronesa rendeu uma conversa franca com a cineasta:



A diretora Juliana Antunes

A discussão recorrente sobre a fronteira entre documentário e ficção faz sentido para você?

Juliana Antunes: Isso não faz sentido. Um bom documentário tem ficção, e uma boa ficção tem documentário. É algo muito difícil responder. Eu sempre digo: "Algumas pessoas têm anos e anos de teoria de cinema tentando explicar isso, e não agora que a gente vai conseguir responder". Mas para mim, Baronesa é mais ficcional que documental. A gente nunca esteve no Baronesa, o Negão nunca esteve na guerra, a Andreia e a Leidiane claramente não têm aquela rotina do filme.

De certa maneira, elas estão representando elas mesmas. Aquele lugar filmado existe, mas com uma intenção ficcional, com métodos ficcionais pela maneira de se montar a luz, colocar o corpo, ensaiar, colocar a câmera. O grande foco do cinema latino tem sido a questão híbrida do cinema, até porque a gente não tem estúdio, nem dinheiro, então precisa experimentar. 

Como você conseguiu tamanha espontaneidade dentro da estrutura da ficção?

Juliana Antunes: O projeto demorou seis anos. A espontaneidade vem do fato de eu ter morado sozinha na favela com uma equipe que me visitou semanalmente durante muito tempo. Enquanto isso, fiz um teste de elenco gigantesco. Filmei muitas mulheres. A gente demorou três anos até achar a Andreia, e tivemos cuidado na escolha, na convivência. Foi uma extrema loucura juvenil de morar sozinha mesmo, o que fez o projeto ficar mais forte, e mais importante. 

A Andreia e a Leidi são excelentes atrizes. Elas não estão aqui entre nós porque o Brasil é um país extremamente desigual e racista. Eu não acredito que você tenha que estudar para filmar, não é preciso ter uma prova. Mas elas são grandes atrizes, e a Andreia foi escolhida exatamente por isso, porque era plenamente capaz de fazer essa personagem, e porque tinha muita vontade. A gente filmava muito, ensaiava muito, discutia muito, o tempo inteiro. Fizemos algumas cenas várias vezes no mesmo dia, em outros casos fizemos a cena e ficamos vendo durante meses, para depois de dois meses refilmar com outra proposta. Elas quase nunca erravam, quem errava mais era a gente mesmo.




Baronesa foi filmado por uma equipe majoritariamente feminina, e destaca duas mulheres num ambiente machista. Como vê as questões de representatividade?

Juliana Antunes: Baronesa foi feito com pouquíssimo dinheiro. Eu lembro que, na minha época da faculdade, ninguém quis fazer o projeto comigo. A maioria dos colegas eram homens, e eles não botavam fé em mulher dirigindo. Então eu fiz o filme com a minha ex-namorada e a minha melhor amiga. A maior pesquisa do filme foi com essas duas, que acreditaram em mim. Eu queria trabalhar com mulheres.

A representatividade no cinema e no mundo, seja para mulher, seja branca, negra, cis, trans, não é brinquedo. Claro que eu não estou colocando todas as mulheres no mesmo balaio. No cinema isso é super grave, tanto no set quanto fora dele. Se a gente não muda quem está atrás da câmera, nunca vai mudar a imagem de quem está na frente. Os recursos que a gente ganha não são os mesmos. Espero que isso mude, mas não se sabe o que vai ser da Ancine, ou se vamos ter eleições. Infelizmente eu não estou nada otimista. Estou tentando produzir um novo filme agora, mas a gente não consegue financiar.

O novo projeto pretende seguir a mesma estrutura de produção de Baronesa, com poucas pessoas?

Juliana Antunes: Não, vai ser maior. Mas a gente não consegue financiar de jeito nenhum. Eu tenho dez anos de cinema passando café e picando fruta no set, e já escutei de diretor que eu não estava lá para pensar, apenas para ser assistente dele. Já fui assistente de um sujeito que, depois do filme, tentou cuspir na minha cara. Mulher no cinema, quando não nasceu milionária, tem que passar por uma meritocracia pela qual nenhum homem passa, de periferia ou não.

Os homens do cinema brasileiro, independente da origem social, não passam um riscado do que a gente passa. Não estou falando que eles não têm problemas, é claro que têm, mas nem de perto chegam à mesma situação de uma mulher, sobretudo de uma mulher jovem de classe média e gay. 




Desde que o filme foi feito, você continua acompanhando a vida das suas protagonistas? Acredita que isso seja importante?

Juliana Antunes: Não posso acompanhar, porque eu já me envolvi demais. Isso não é uma questão covarde minha, mas eu corri muitos riscos para fazer o Baronesa e eu não quero morrer. Mesmo. Não estou a fim de morrer. O Lucas, e todos os homens que foram muito complicados para fazer o filme, são uma ameaça latente. Infelizmente, não posso mais doar sete anos da minha vida. O meu trabalho é filmar e o que eu posso fazer é filmar. Eu fui muito, muito íntegra e ética filmando.

O Baronesa foi uma experiência incrível, tive o privilégio de viajar com ele, mas também não mudou a minha vida. Quando eu chego em casa, minhas contas estão lá com o boleto atrasado. E não são poucas. Eu sei que todo mundo tem esses problemas, não estou comparando com os problemas delas, é claro. Mas não posso ficar eternamente nesse lugar em que filmei. O que eu pude fazer dentro do meu trabalho, como ser pensante e político no mundo, já foi feito. Eu não sou uma assistente social, não é meu trabalho, não pertenço a uma ONG.

Eu gosto muito quando me perguntam: "Como elas estão hoje?", mas também gosto quando perguntam: "Como foi para você morar sozinha durante seis meses numa favela em guerra?" Porque foi uma barra. A vida delas é uma puta barra, isso é óbvio, e está na tela. Mas existe o outro lado de quem filma. Ser mulher no mundo é foda, e não foi tão tranquilo assim.

Depois de passar por vários festivais, como vê o espaço nacional para projetos independentes?

Juliana Antunes: É muito restrito. A gente produz vários filmes, mas poucos entram no circuito, porque o jogo do cinema é maluco. Para comprar um projeto você tem que fazer uma moratória e depois fecha com o distribuidor, então tem o agente de vendas, e o curador dos festivais... O Baronesa só entrou nos festivais em que foi convidado. Nos que eu inscrevi, não foi aceito. Lá fora, ele teve uma carreira incrível porque o Roger Koza, um crítico argentino muito respeitado no mundo, foi com a cara dele. Isso se chama sorte.

Claro, eu respeito o nosso trabalho, a gente ralou e fez um filme bem bacana, mas várias pessoas fazem filmes bacabas que não chegam a lugar nenhum lá fora. Mesmo no próprio Brasil, se você pegar o circuito nacional, são poucas oportunidades. No festival de Tiradentes, tinham sete filmes na mostra Aurora. Quais deles seguiram carreira, ganharam o circuito? Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava circulou muito, Lembro Mais dos Corvos continua tendo destaque. Mas o resto se foi. Então é cruel.




Que aprendizados você pretende levar desta experiência para o novo projeto?

Juliana Antunes: O tempo. É preciso fazer filmes com tempo, não dá para ficar correndo loucamente. Depois de Baronesa eu fui dar um curso sem tempo, entrei nos moldes de produção mais formais. Mas não gosto das equipes tradicionais, imensas, infladas. O aprendizado continua, ainda gosto da ideia de procurar muito quem vai estar na frente da câmera, independente da escola. Se o ator fez uma grande escola, ou se está ali sentado na rua fumando um cigarro e topa fazer o filme, está dentro. Isso continua também.

Tem a equipe parceira: quero manter praticamente a mesma equipe do Baronesa. E fazer com estrutura, porque fazer filme sem grana demanda uma energia que eu não topo mais. Estou tocando nesse assunto porque vamos ter discussão na Ancine, para discutir financiamento. É importante ter uma estrutura melhor, uma estrutura mínima, porque senão fica difícil trabalhar. Tem que ter cota, tem que dividir esse bolo. A questão de pontuação de produtoras só beneficia O2, Conspiração e afins, que fazem muita publicidade. Mas e para quem tá começando? As produtoras pequenas fazem o quê, morrem?


AdoroCinema

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