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Olhar de Cinema 2017: Até que enfim, um festival de filmes incômodos (Balanço final)

Às vezes, o cinema precisa provocar.

16 jun 2017
09h56
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Depois de oito dias de programação intensa, o 6º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba terminou com a consagração do documentário experimental El Mar La Mar, provavelmente o filme mais hermético de toda a mostra competitiva.

Foto: AdoroCinema / AdoroCinema

O AdoroCinema assistiu a 24 longas-metragens de estilos e temáticas variados, porém com um elemento em comum: trata-se de obras que subvertem expectativas e propõem novas sensações ao espectador. Mais do que filmes "independentes" ou "experimentais", tivemos um conjunto de obras provocadoras, interessadas em retirar o espectador de uma zona de conforto do cinema padronizado de estúdios, e mesmo da noção de "grande cinema de autor" dos festivais europeus Cannes-Berlim-Veneza.


Assim, tivemos filmes com longos minutos sem imagens (El Mar La Mar), comédias absurdas sobre projetos inexistentes (People Power Bombshell), documentários sem narrativa nem som sincronizado (Parque Tonsler), uma revolução social sem diálogos (Todas as Cidades do Norte), biografias sem explicações (Fernando) etc. Estes projetos quebram com a noção de que a função do cinema é distrair, divertir, provocar um escapismo cômodo e inofensivo.

Uma quantidade expressiva de filmes recorreu a fábulas e lendas para discutir as formas cinematográficas, como Rey, Grande Grande Mundo, Newton, Navios de Terra e História Mundana. A alegoria foi uma forma encontrada para comentar o mundo por um viés menos realista, mas ainda sim crítico. Ao invés de outros festivais nacionais em que a política aparece de modo explícito nas telas, a maioria das obras do Olhar do Cinema pratica uma política das imagens. É na subversão da forma que se encontra o questionamento.


Máquinas

A qualidade média das produções vistas pelo AdoroCinema foi impressionantemente alta. Sempre existem obras fracas que despertam dúvida sobre a sua seleção (Corpo Estrangeiro, em especial), mas estes casos foram minoritários diante de experiências excelentes como Máquinas, Parque Tonsler e tantos outros. O festival possui uma das curadorias mais interessantes entre os festivais brasileiros, além de uma produção funcional para o público e a imprensa.

Mesmo assim, existe espaço para melhorias. A seleção de títulos nacionais foi apenas razoável, abaixo da qualidade das experiências internacionais. Se não fosse pela presença do ótimo Fernando, o desnível seria ainda maior. Além disso, a distinção entre mostras como "Novos olhares" e "Outros olhares" talvez não fique clara. Muitos filmes pertencentes a uma poderiam perfeitamente se inserir nas demais.


Fernando

A premiação surpreendeu pela escolha de El Mar La Mar, como afirmado acima, mas também pela quantidade exagerada de prêmios, revelando dificuldade do júri em defender uma ideia específica de cinema. Talvez fosse o caso de limitar a possibilidade de menções honrosas nos anos seguintes. De qualquer modo, é ótimo ver Máquinas e Parque Tonsler recompensados, além do prazer de encontrar um documentário como Fernando reconhecido pelo público.

Resta torcer para que esses filmes cheguem a outras salas de cinema pelo país, talvez em outras mostras mas, se possível, no circuito comercial. Os cinemas merecem títulos que forneçam experiências radicais, marcantes. Estes filmes podem ser considerados mais "difíceis", porém a recompensa ao público é muito maior. Além disso, contribuem a formar um novo público cinéfilo e sedimentar aquele já existente.

Críticas do 6º Olhar de Cinema
300 Milhas
A Casa de Lucia
A Família
Corpo Estrangeiro
El Mar La Mar
Fernando
Grande, Grande Mundo
História Mundana
Máquinas
Meu Corpo é Político
Navios de Terra
Newton
Occidental
Outono, Outono
Parque Tonsler
People Power Bombshell: O Diário de Vietnam Rose
Rey
Soldado
Todas as Cidades do Norte
Vangelo

AdoroCinema

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