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O efeito James Gunn: Como o Universo Cinematográfico Marvel precisará driblar a demissão do diretor (Análise)

O desligamento do cineasta abre um rombo no planejamento do estúdio e escancara polarizações.

4 ago 2018
10h39
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Determinados eventos são tão impactantes que se apresentam, de imediato, como marcos: assim pode ser definida a demissão de James Gunn do cargo de diretor e roteirista de Guardiões da Galáxia Vol. 3. Tão polêmico quanto é polarizador, o caso dividiu Hollywood e o público; extrapolou a esfera da indústria do entretenimento; e, acima de tudo, abalou as estruturas da Disney porque, com o desligamento de Gunn, abre-se um rombo no mais rígido, calculado e bem-sucedido planejamento da história recente dos blockbusters: o do Universo Cinematográfico Marvel.

Foto: Disney / AdoroCinema

Meticulosamente estruturado desde 2008 pelo produtor Kevin Feige, o UCM é uma das muitas joias da atual coroa da Disney e jamais enfrentou um desafio desta magnitude, nem mesmo quando Joss Whedon (Os Vingadores) precisou sair pela porta dos fundos, profundamente desgastado pelo rendimento aquém das expectativas de Era de Ultron. Mas, como se o dilema já não fosse complexo o suficiente, a questão fica ainda mais problemática para a Disney porque Gunn não era apenas o diretor de Guardiões 3; futuramente, o realizador também seria o principal supervisor de todo o UCM ao lado de Feige. Assim, sem sua principal força criativa, quais serão os próximos passos da Marvel?


Feige e Gunn na pré-estreia de Thor: Ragnarok.

No momento, a Disney não parece estar com pressa para solucionar a pergunta que tomou conta de Hollywood. De fato, o estúdio - que não planeja recontratar Gunn, apesar da pressão generalizada - adotou uma posição de espera, aguardando a poeira baixar para bater o martelo sobre o substituto do cineasta, demovido de seu cargo por causa de uma série de tuítes ofensivos postados há uma década - e desenterrados por apoiadores de Donald Trump para prejudicar Gunn, um dos mais ferrenhos críticos do presidente dos Estados Unidos. Além disso, os executivos da companhia ainda precisam dissipar a tensão gerada pela carta aberta do elenco de Guardiões da Galáxia em defesa do cineasta demitido e fazer as pazes com suas estrelas - sem intervenções judiciais, de preferência.

Entretanto, no exato instante em que o equilíbrio for restaurado, a casa de Mickey Mouse precisará demonstrar e aplicar cenários funcionais e sustentáveis para o futuro do Universo Cinematográfico Marvel. Assim, enquanto o estúdio é aplaudido por um lado e criticado por outra parcela do público por não ter concedido uma chance para Gunn provar que mudou sua conduta durante a última década, a Disney se movimentará nos bastidores para garantir a sequência de sua constelação de filmes. É hora, portanto, de analisar o mercado - especialmente porque a resposta dificilmente virá de dentro.

Disney não planeja recontratar James Gunn apesar da carta aberta assinada pelo elenco de Guardiões da Galáxia

É fato que a Disney tem, em sua "folha de pagamento", diretores e produtores consagrados que poderiam ocupar facilmente o posto de Gunn e desempenhar as funções que estavam em seu horizonte como vindouro supervisor criativo dos bilionários super-heróis da companhia. Dos nomes ligados ao Universo Cinematográfico Marvel, aliás, quatro se destacaram na última semana: os de Jon Favreau, Joe e Anthony Russo e Taika Waititi. Contudo, a verdade é que as possibilidades de que qualquer um deles assuma a vaga deixada por Gunn beira o impossível.

Atualmente, a dupla responsável por Guerra Infinita, O Soldado Invernal, Guerra Civil e Vingadores 4 está claramente de saída - a julgar, pelo menos, pela infinidade de projetos nos quais os irmãos estão envolvidos. Já Favreau (Mogli - O Menino Lobo, O Rei Leão), realizador que estabeleceu a estética-base do UCM em Homem de Ferro, está extremamente focado em seu trabalho como guru das adaptações dos clássicos da Disney para o formato live-action. E há, por fim, Waititi, que evidentemente provou saber manejar um blockbuster com Thor: Ragnarok. Porém, ainda que o realizador neozelandês seja a opção favorita dos fãs na internet, seu estilo de humor não é exatamente compatível com o de Gunn, como a interação entre Thor (Chris Hemsworth) e os Guardiões da Galáxia - em cena, aliás, escrita pelo diretor demitido - em Guerra Infinita comprova.


Nesta cena de Guerra Infinita, Thor foi escrito por James Gunn.

Para não excluir todas as opções internas, os executivos da Disney ainda poderiam avaliar as outras joias de sua coroa: a Lucasfilm e a Pixar. Seguindo a temática espacial/ficção científica da bem-humorada saga dos carismáticos bandidos liderados pelo Senhor das Estrelas, realizadores/produtores consagrados como J.J. Abrams e Andrew Stanton (Wall-E) seriam escolhas perfeitas. Todavia, assim como Favreau, os dois teriam mais razões para negar um convite da Marvel do que aceitá-lo; e é esta sinuca de bico que nos leva diretamente ao primeiro problema que a Disney encontrará para substituir Gunn: a franquia Guardiões da Galáxia é o que é, acima de tudo, por causa de seu cineasta e criador.

Do uso criativo da trilha sonora às hilárias sequências de ação - e sempre passando por um humor afiado, irreverente, ousado, violento, irônico e auto-consciente que leva ao drama central de sua saga na Marvel -, Gunn deixou indeléveis impressões digitais nestas óperas espaciais e no UCM como um todo. Extrapolando os limites de sua lucrativa franquia - juntos, os dois volumes de Guardiões da Galáxia arrecadaram US$ 1,6 bilhão ao redor do mundo - e alçando personagens desconhecidos ao patamar de ícones da cultura pop, o cineasta impactou o panorama de Hollywood e criou algo que poderíamos chamar de "efeito James Gunn".


Muito além do evidente troco que a DC tentou dar na Marvel com Esquadrão Suicida, seu próprio longa de anti-heróis forçados a fazer o bem, Guardiões da Galáxia também estendeu sua influência dentro da Marvel. É evidente que não é possível afirmar que Deadpool não existiria sem o longa de Gunn ou que Thor: Ragnarok aconteceria do mesmo jeito, mas é certo que tanto o Mercenário Tagarela (Ryan Reynolds) quanto o Deus do Trovão aproveitaram para surfar a onda propagada pela comédia e a ação de Guardiões da Galáxia. E se Gunn é o responsável por operar tamanha importância, como trocá-lo por um cineasta e roteirista estabelecido que não submeteria sua própria estética à de Gunn?

É como Matthew Vaughn (Kingsman: O Círculo Dourado) - que seria outra interessante opção para Guardiões da Galáxia -, explicou: ele não seguiu na franquia X-Men após dirigir Primeira Classe porque a saga dos mutantes era um trabalho assinado por Bryan Singer. Ou seja, para que um realizador mais experiente faça sua transição para o cinema de super-heróis, ele provavelmente condicionará sua aceitação pela oportunidade de construir um universo do zero, a partir do esboço, da mesma forma como Gunn fez. Igualmente, por que é que a Disney aceitaria repaginar uma de suas trilogias de maior sucesso, trazendo uma fórmula inédita e ainda não testada para o caldeirão?

É evidente que o estúdio precisará trazer um diretor talentoso para a cadeira vaga, mas apesar da intenção oficial - os executivos anunciaram que planejam contar com um cineasta do alto escalão de Hollywood -, não é possível descartar a hipótese de que a gigante do entretenimento venha a apostar em mais um nome egresso do cinema independente. De todos os 17 realizadores que já passaram ou ainda passarão pelo Universo Cinematográfico Marvel, aliás, apenas cinco não iniciaram suas carreiras no terreno indie: Kenneth Branagh, Joe Johnston, Shane Black, Louis Leterrier e Alan Taylor. Até mesmo Favreau, que já havia dirigido Um Duende em Nova York e Zathura antes de Homem de Ferro, é uma cria da filmografia independente dos anos 1990.

O processo, no entanto, não é tão simples quanto pode parecer. Para que um estúdio selecione um cineasta indie e confie a ele uma produção de mais de US$ 150 milhões, é preciso muito estudo e análise para fazer a aposta correta. Além disso, os potenciais candidatos também não podem ter o desejo de fugir muito da raia: a título de exemplo, basta ver como o aclamado Edgar Wright (Em Ritmo de Fuga) abandonou a produção de Homem-Formiga por divergências criativas e foi posteriormente trocado por Peyton Reed, diretor que se limita a fazer o básico para entregar o que Feige e a Marvel demandam da franquia coestrelada por Paul Rudd e Evangeline Lilly. Na mesma toada de Wright, a dupla dinâmica formada por Phil Lord e Chris Miller também poderia ser uma boa opção - mas eles também não tem muitas afinidades com produtores todo-poderosos em seus calcanhares, vide o caso de Han Solo.


Edgar Wright anunciou Homem-Formiga em 2012, mas foi forçado a deixar o projeto.

Ainda, fazer o salto da independência para o âmbito dos blockbusters também não é tarefa fácil do ponto de vista dos artistas - ou seja, a oportunidade de trabalhar com os grandes estúdios nem sempre é vista como um "presente divino". Os irmãos Mark e Jay Duplass (Room 104, Togetherness) revelaram que receberam um convite para comandar uma produção do Universo Cinematográfico Marvel, mas recusaram a proposta porque saberiam que precisariam dedicar três ou quatro anos de suas vidas para um único projeto. Assim, as expectativas, a altíssima pressão e o ferrenho controle exercido por Feige - um produtor contemporâneo com ares de manda-chuva clássico de Hollywood - podem afastar alguns candidatos.

Para não arriscar tanto com novatos, a Disney/Marvel poderia arriscar algum nome que atualmente está na televisão. Ainda que não sejam séries cômicas, as antológicas Black Mirror ou Electric Dreams poderiam fornecer diretores com know-how no âmbito da ficção científica, enquanto outras obras também teriam artistas a ofertar. Dentre os constantemente mais cotados para fazer o salto das telinhas para as telonas está Michelle MacLaren, que fez sua carreira comandando episódios de séries aclamadas, como Breaking Bad e Game of Thrones. A diretora, que prepara sua estreia cinematográfica com The Nightingale, pulará diretamente para os blockbusters com Cowboy Ninja Viking, aventura estrelada por Chris Pratt - portanto, por que descartar a possibilidade de uma dobradinha entre os dois em Guardiões da Galáxia Vol. 3?


Quem comandará a "nave" dos Guardiões atrás das câmeras?

Como tudo está em aberto, a quantidade de possíveis candidatos à direção do longa em questão é tão grande quanto a infinidade de formas como os Vingadores poderiam ser derrotados por Thanos (Josh Brolin) na previsão do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch). Promover a roteirista Nicole Perlman, responsável pelo script de Guardiões da Galáxia ao lado de Gunn, à direção? Talvez. Arriscar um realizador do porte de Brad Bird, consagrado e dono de extenso vínculo com a Disney por causa de seu trabalho na Pixar? Igualmente plausível. Dar uma chance a Karen Gillan, que também é cineasta? Tentar Ron Howard, Steven Spielberg ou James Cameron, como sugeriram os fãs da saga espacial da Marvel entrevistados pelo AdoroCinema durante a Comic-Con de San Diego? Bom, acho que aí o pessoal exagerou no sonho, né? Mas se bem que Howard está sempre aí... vide o caso de Han Solo.

A indefinição do panorama é o lado negativo do que chamamos aqui de "efeito James Gunn": apesar do melodrama escorregadio de Guardiões da Galáxia Vol. 2, o cineasta sabia o que estava fazendo e já tinha o futuro desenhado à sua frente. A dificuldade em substituí-lo não se dará somente porque ele já estava imerso até o pescoço no Universo Cinematográfico Marvel; porque o elenco estelar da franquia espacial o adora e o defende, como a carta aberta provou; porque era o mais ferrenho - e ocasionalmente chato - defensor e promotor do estúdio nas redes sociais; ou porque provavelmente seria a primeira escolha da produtora para dirigir uma produção como Vingadores 5 ou seu equivalente. A Disney cortará um dobrado para achar o nome correto porque Gunn provou ser realmente bom como diretor de blockbusters.


Gunn e parte do elenco de Guardiões 2.

Estas são apenas as implicações logísticas e narrativas acarretadas pela demissão do cineasta; como o campo de batalha das redes sociais vem provando, os desdobramentos da ruptura vão muito além de Hollywood e muito ainda pode ser discutido sobre a problemática. Enquanto não restam dúvidas de que Gunn errou feio ao publicar "piadas" ofensivas de tamanha insensibilidade e mau gosto anos atrás, sobram mais dúvidas do que certezas neste caso. A Disney contratou o realizador mesmo ciente de seus tuítes ofensivos? Há espaço, sob os holofotes da indústria do entretenimento, para punições justas e cabíveis, que fujam do puro linchamento midiático? E, por fim, a redenção é matéria de cinema ou também pode ser vivenciada, quando e se merecida, na vida real?

Por ironia, Gunn caiu através da mesma rede social onde construiu seu nome, mas isso não deve ser surpreendente, pelo menos não nesta altura do campeonato. A esfera pública, se é que ela ainda existe, hoje habita os corredores do Twitter, do Instagram e do Facebook. Portanto, é lá que as decisões serão tomadas: para saber a resposta para todas as perguntas postas acima, é preciso se ajustar ao fuso horário da internet e não perder nada. As coisas mudam mais rápido do que os olhos piscam.

AdoroCinema

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