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"Não vem trazer esperança", diz Bruna Linzmeyer de seu filme

'O Banquete' mostra a burguesia à beira de um ataque de nervos; confira uma entrevista exclusiva com a atriz

13 set 2018
12h03
atualizado em 14/9/2018 às 18h09
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Imagine ao redor da mesma mesa e ao longo de um filme inteiro Drica Moraes, Bruna Linzmeyer, Caco Ciocler, Chay Suede, Mariana Lima, Gustavo Machado, Rodrigo Bolzan. O grande elenco constitui o prato principal de O Banquete, mistura de drama e suspense preparada pela diretora Daniela Thomas (Vazante, Linha de Passe).

Foto: AdoroCinema / AdoroCinema

Na trama, vários intelectuais e políticos da alta sociedade se encontram para um jantar. Enquanto trocam farpas ideológicas e amorosas, descobrem que um deles pode ser preso a qualquer momento, devido a um artigo escrito contra o governo. O que fazer? Acionar reforços ou desfrutar deste último encontro? Está preparada a cena para a carnificina.

Ouça o podcast Terra Entretenimento:

O AdoroCinema conversou em exclusividade com Bruna Linzmeyer, que representa o olhar externo: ela chega por último à reunião, não conhece os convidados, e testemunha com estranhamento as chantagens e manipulações entre eles.

Como você descreveria a sua misteriosa personagem?

Eu a vejo como uma estrangeira naquele jantar. Ela não conhece direito aquelas pessoas, então chega de fora, junto com o público, acompanhando a loucura que está acontecendo, todas as trocas insanas entre os convidados. É ela quem aponta o dedo e denuncia, por exemplo, o absurdo daquele banquete e daquelas relações. Ela é quase uma comentarista, que consegue ter um olhar de fora, distanciado. Deve ser um alívio para o público ter um olhar de estranhamento como o dela.

 

 

O fato de ter todos os atores em cena, praticamente o filme inteiro, deve ser ainda mais interessante para o elenco.

Completamente. A gente tinha uma maneira muito incomum de filmar. O roteiro foi dividido em três partes, e durante dois dias a gente filmava e repetia a primeira parte, depois filmava e repetia a segunda, e na semana seguinte a mesma coisa, então a gente filmava cenas inteiras de uma hora, uma hora e meia, sem pausar a câmera, e a imagem ia acompanhando esses personagens. Por isso, tudo acontecia ao mesmo tempo.

Essa possibilidade de repetir, fazendo uma sequência de manhã e gravando de tarde a mesma sequência possibilita desenvolver a ideia, ter dúvidas, errar, fazer de novo, aprimorar a partir da primeira vez. Esta é uma dinâmica muito rara no audiovisual, de experimentar juntos, com equipe e com câmeras, como se o ensaio já fosse a filmagem definitiva.

A própria Daniela Thomas deve ter encorajado o improviso, a brincadeira com os diálogos.

 

Sim, muito. Nesse sentido, o trabalho da Daniela é muito coletivo. A gente sempre sentava para conversar, existia muita possibilidade de troca entre os atores e com a Dani. Ela incentivava que a gente fizesse esse banquete dentro de nós mesmos, que a gente pudesse comer as palavras e as comidas.

Foi foda a Dani proporcionar essa experiência para a gente. Eu trabalhei com poucos diretores que permitem esse nível de troca, situando os atores como pessoas que participam do processo de criação. Os atores se tornam parte da equipe, não dá para diferenciar mais.

O Banquete foi filmado há anos, e traz uma história situada durante o governo Collor. Como acredita que se relaciona com a política de hoje?

Isso é complexo. Enquanto a gente filmava, o impeachment da Dilma estava prestes a acontecer. No caso da Dilma, foi um golpe, mas era muito palpável a sensação de uma transformação que não se pode controlar, e que acontecia apesar de nós. Sobre essas pessoas, especificamente, vejo uma galera da alta classe, esgotada em suas relações pessoais. Eles estão todos fodidos, mas ainda acham que têm o controle nas mãos.

Eu tenho um pouco dessa visão também, porque sei que se trata de um recorte muito específico da sociedade. É um paralelo com as pessoas que acham que vão mudar o Brasil, que têm o poder nas mãos, porque controlam os meios de comunicação. Hoje em dia, por causa da Internet, está tudo um pouco mais horizontalizado, mas ainda existe essa dinâmica com poucas pessoas controlando o poder de comunicação.

Por estarmos às vésperas de uma eleição presidencial, acredita que o filme adquira um significado diferente daquele que tinha anos atrás?

 

Tem uma coisa interessante: quando você faz um filme, e o entrega para o público, ele continua sendo feito por quem assiste. O paralelo com as eleições está muito presente, é óbvio, não só porque as eleições estão por acontecer, mas porque a gente como sociedade, como juventude - para quem nasceu nos anos 1990 -, está tomando consciência de que o poder, a mudança, também vem pela política partidária, então as eleições deste ano estão sendo muito discutidas, muito pensadas, de uma forma que eu nunca vi antes.

Isso inclui o papel fundamental das mulheres nas relações de poder.

Sim! A Dani conseguiu fazer um retrato muito duro do que são as mulheres naquele meio. A gente acompanha pela perspectiva dessas mulheres a merda em que estão enfiadas, essa merda chamada patriarcado. Mesmo sendo mulheres inteligentes, que tiveram oportunidades de estudo, de pensamento, de consciência, elas estão enredadas com esses homens, atravessadas por eles.

Então é um apontamento de equidades. No filme, você acompanha a perspectiva dessas mulheres, como elas se sentem no meio desta dinâmica. É muito importante esta história demonstrar de que maneira o patriarcado está entranhado em todas as classes sociais.

O Banquete prepara o espectador para uma explosão. Os estes personagens estão prestes a se atacarem.

 

Eu vejo como um filme incômodo, que consegue perturbar a gente enquanto observamos aquelas pessoas. Quando a história acaba, eu só consigo pensar: "Coitada dessa gente!". É uma galera muito enredada, as mulheres especificamente, em uma história de opressão social enorme perante aqueles homens. Por ser um filme incômodo, ele não vem trazer esperança. O objetivo do filme é fomentar o diálogo, discutir sobre quem são essas pessoas no mundo.

Além de O Banquete, você atuou em O Grande Circo Místico, A Frente Fria que a Chuva Traz, O Amuleto... São filmes arriscados, difíceis. O que tem guiado as suas escolhas como atriz?

Eu trabalho como atriz há oito anos, e quando você começa a trabalhar, não tem muitas possibilidades de escolha. Você precisa pagar as contas, precisa que as pessoas te conheçam. Eu estou começando a poder escolher cada vez mais as coisas que faço. Mas o meu critério de escolha sempre passa primeiro pela personagem. Mesmo que eu tenha questões com o roteiro, se eu achar que posso me divertir trabalhando, se acreditar que posso adentrar mundos desconhecidos e fazer algo que nunca fiz antes, então eu topo.

Só então penso o que esse roteiro significa no mundo e com quem eu vou trabalhar, porque essa troca é muito importante. O filme é feito de processos, a gente passa anos trabalhando, então para mim esse processo é tão importante quanto o resultado. Eu tive muita felicidade com as minhas escolhas, sempre tive a oportunidade de aprender muito e de brincar, me divertir. É importante se divertir com a atividade que a gente escolheu para pagar as contas.

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AdoroCinema

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